sábado, 5 de maio de 2007

Governo Lula a longo prazo

Governo Lula a longo prazo
Bertrand Russel dizia que, a longo prazo, todos estaremos mortos. Lula, indiferente ao diagnóstico do filósofo inglês, criou a Secretaria para Assuntos de Longo Prazo, e nela acaba de colocar o professor Roberto Mangabeira Unger, dando-lhe o solene status de ministro de Estado.
Já se falou exaustivamente da insólita circunstância de o nomeado ter feito em relação ao atual governo e à pessoa do presidente da República as mais pesadas entre as mais pesadas considerações que circularam no país durante todo o turbulento período do mensalão, entre 2005 e 2006.
Em síntese, o agora ministro do Longo Prazo, Mangabeira Unger, em sucessivos artigos publicados em jornais de ampla circulação nacional, considerou o governo do presidente Lula o mais corrupto da história brasileira - e pediu o seu impeachment.
Nada mais – e nada menos.
Ao aceitar o cargo de ministro, sem maiores satisfações ao público, e sem nenhuma retratação ao presidente e a seu governo, Unger deu cabimento a todos os comentários, entre irônicos e perplexos, que recebeu (e continuará recebendo). Ele e Lula.
Se alguém chama alguém de corrupto e, na seqüência, sem manifestar qualquer mudança de ponto de vista – e muito menos justificá-la - , vai trabalhar com o ofendido, está se igualando a ele.
E o ofendido, por sua vez, ao premiar quem o ofendeu, sem que este tenha se retratado, age como quem adquire o silêncio de um adversário. A reforçar essa impressão está o fato de Lula ter hoje em torno de si, como entusiásticos aliados, antigos detratores.
O episódio, porém, não se esgota aí, nessa súbita parceria entre ofensor e ofendido. Mais estranho que ambos é a secretaria que resulta dessa surpreendente aproximação.
O que são “assuntos de longo prazo”? Se o mandato do presidente da República é de apenas quatro anos – prazo tido como curto, tanto assim que ensejou a reeleição -, por que o governo investiria numa secretaria cujas preocupações extrapolam sua duração? Há quem ache que a criação dessa secretaria é um sinal claro de que Lula cogitaria de (pelo menos) mais uma reeleição.
Por mais que se busque uma razão plausível para a criação dessa secretaria, não se encontra. Ela faz supor que, no âmbito dos ministérios, só se pense e só se aja no curto prazo. E não é verdade.
Há, inclusive, no populosíssimo primeiro escalão governamental, uma pasta voltada exclusivamente para o planejamento, a que se subordina um órgão de grande reputação técnica como o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), cujas ações têm sentido claramente prospectivo.
Está lá, no site desse órgão: “O Ipea responde pela coordenação técnica do processo de elaboração dos Relatórios Nacionais de Acompanhamento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio - ODM, as metas de desenvolvimento social, econômico e ambiental que 189 países integrantes da ONU se comprometeram a atingir até o ano de 2015.”
É possível que o governo Lula não considere 2015 ou mesmo todo o milênio algo cabível na rubrica “longo prazo”. Mas, além deste, há ainda outro órgão cuja ação está inteiramente voltada para o futuro. Para o longo prazo.
Trata-se do Núcleo de Ação Estratégica (NAE) da Presidência da República. Segundo consta no site desse órgão, na internet, sua missão é “(...) articular a inteligência nacional para o tratamento de temas estratégicos de longo prazo, desenvolvendo atividades de prospecção, análise e simulação.”
Um dos projetos principais do NAE chama-se “Brasil 3 tempos: 2007, 2015 e 2022”, que, segundo seus dirigentes, foi assim batizado “de modo que o planejamento fixasse um futuro nem tão perto a ponto de confundi-lo com o presente, nem tão longínquo a ponto de se perder no horizonte”.
E ainda: “Os três marcos têm o seguinte significado: em 2007, inicia-se um novo mandato de governo, em 2015 haverá a Conferência Mundial sobre os Desafios do Milênio e em 2022 o Brasil comemora seus duzentos anos de independência.”
É possível que, entre os assuntos de longo prazo, entregues ao ministro Mangabeira Unger, esteja a própria duração do mandato de Lula. As efemérides agendadas mostram que não há pressa.
Ruy Fabiano é jornalista

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