quarta-feira, 26 de agosto de 2009

terça-feira, 25 de agosto de 2009

RENAN CALHEIROS JÁ ERA. SARNEY É O PRÓXIMO

José Sarney é o último dos grandes oligarcas nordestinos merecedores desse “título nobiliárquico”. Quem conhece o Maranhão sabe que o poder do clã Sarney se confunde com o próprio Estado como estrutura institucional e como unidade territorial. De fato, o Maranhão é quase um feudo. Quem passa diante do Tribunal de Justiça maranhense testemunha a estátua gigantesca e imponente do patriarca do clã, eliminando qualquer dúvida sobre a imparcialidade do braço jurídico do Estado no feudo dos Sarney.

José Sarney é, também, a encarnação viva da versão arcaica do patrimonialismo na política brasileira. A carreira política de Sarney inicia na década de 1950, quando, em 1955, foi eleito deputado federal. Hoje, portanto, Sarney é o parlamentar mais antigo em atividade no Congresso Nacional. Além de ter sido, por diversas vezes, deputado e senador, Sarney governou o Maranhão entre 1966 e 1971 e atingiu o ápice de sua carreira entre 1986 e 1990, quando chegou a Presidente da República por acaso (?), como conseqüência da morte de Tancredo Neves, de quem era vice na chapa escolhida de forma indireta para conduzir a trasição do regime militar para a democracia. Ao longo de sua carreira Sarney foi membro da UDN, depois foi presidente da Arena e do PDS antes de se filiar ao PMDB em 1988, após uma breve passagem pelo PFL.

Político centrista por excelência, Sarney possui a viscosidade típica do fisiologismo caracterísitco da maioria dos políticos brasileiros, razão pela qual acomodou-se tão confortavelmente no PMDB. A partir do PMDB, Sarney opera com maestria seus interesses, revelando-se o mais copetente de todos os políticos brasileiros contemporâneos. Ocupando ou não posto formalmente relevante no parlamento, Sarney detém poder político de fato. E o exerce como aliado fiel quando reconhecido, ou como adversário sempre que não lhe é dada a proeminência correspondente ao cacife que tem. Sua arma é o veto; seu estilo é a ação discreta como operador de bastidor que usa prepostos para as ações de vitrine. Sarney paraliza quaisquer governos quando quer, desde que deixou a Presidência da República acuado pela hiperinflação e pelas denúncias de corrupção que marcaram o fim de seu mandato presidencial em 1988.

No futuro, quando os historiadores investigarem os “arquivos secretos” do que se passou na política brasileira atual, não será surpresa se descobrrirem a mão invisível de Sarney por trás do impeachment de Collor; da eleição e da reeleição de FHC; da eleição e da reeleição de Lula e, também, da maioria dos impasses que todos os presidentes que o sucederam sofreram no Congresso Nacional, toda vez que questões relevantes envolvendo o controle e a gestão do poder foram objeto de negociação.

José Sarney, no entanto, é um oligarca em decadência e vive as circustâncias da modernização da política brasileira, que acompanha a modernização de uma nação que se urbaniza aceleradamente desde 1930, e hoje se integra de forma singular ao processo de globalização. Sob o governo de Lula, o Brasil tenta a revitalização do patrimonialismo, agora não mais sob comando de orligarquias rurais e empresariais arcaicas, mas, através de uma aliança da burocracia sindical com o capital finaceiro e setores empresariais, que patrocinam o esquema em troca de benesses. A base eleitoral de Lula é mesma das velhas oligarquias que manipulavam a ignorância popular e comprando a alma corrupta de um povo imaturo e ainda carente do paternalimo de tipo clientelista, consolidado na cultura política nacional como herança das oligarquias arcaicas que Sarney representa.

Por paradoxal que pareça, a chegada de Lula e dos lulismno ao poder é uma faceta contraditória da modernização à brasileira, que busca adaptar nosso patriomonialismo ao paradigma do mundo globalizado, repetindo o padrão da modernização conservadora já exaustivamrnte caracterizado pela Ciência Política tupiniquim.

Lula, também nisso, imita FHC e dá continuidade ao extermínio político dos velhos oligarcas e seus clones, genticamente defeituosos. O tucano mor usou os velhos senhores feudais da política brasileira para eleger-se, governar e modernizar, em parte, a economia e o Estado brasileiros, e depois rifou gente como ACM, Jáder Barbalho e o próprio Sarney.

Lula acaba de ceifar Renan Calheiros, mandando-o para o limbo do poder. O método está evidente aos olhos de quem quer ver. O petismo dá o cargo e a visibilidade e depois fabrica o escândalo fatal. O senador petista Tião Viana; novo senhor feudal do Acre, constrói a prancha com que o PT pretende jogar Sarney aos tubarões. E Lula avisa: “- A Presidência do Senado é do PMDB.” A cadeira de presidente do Senado, hoje, é um patíbulo sobre a qual repousa uma reluzente guilhotina.

Senta Sarney!

Paulo Moura

Cotidiano - CPI da Orgia

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Futuro dos partidos brasileiros:Um Grande PMDB

A tendência é esta: o sistema partidário brasileiro possui um forte atrativo à oligopolização. No máximo, três partidos dominantes, mas que não se diferem significativamente. Uma mistura das dificuldades de arranjo em país de dimensões continentais com o "habitus" neopatrimonialista. Convergimos para ser um grande PMDB. As inovações são sugadas para este sistema dominante, um mosaico de intenções e ideologias num só partido. Um arranjo. O eleitor ficará cada vez mais escanteado porque (como já ocorre) não terá opções. Será convidado a aderir.
Porque, todos sabemos, com o presidencialismo híbrido que temos, nenhum executivo consegue governar sem comprar votos e acordos. O que parece força é fraqueza. Os casos do lulismo e Aécio são reveladores. O lulismo destruiu o petismo. Chega a dar dó dos dirigentes e, agora, de alguns parlamentares petistas. Cargos que parecem se prestar a questões menores (não por intenção de seus titulares, que fique claro, embora alguns até que se sentem aliviados com esta "servidão voluntária").
Quem dirige são lideranças menores, espalhadas por este Grande Portugal, que conformam o mosaico de estilhaços que um dia foi um espelho chamado Brasil.
O que mais me deixa indignado são os analistas de plantão, que fazem fama, discursando do alto de seus lugares-comuns no GloboNews. Uma vergonha. Alguns não conseguem nem esconder suas preferências partidárias, mas tentam posar de imparciais. Outros, se repetem, procurando atalhos retóricos para chegar nas mesmas soluções. São todos institucionalistas e não conseguem pensar a política a partir do cotidiano das ruas. Precisariam fazer mais pesquisas, reduzindo o número de artigos e livros publicados.
Por qual motivo desprezam tanto Maquiavel? O poeta mor do funcionamento da Corte alertou, lá naqueles idos da chegada dos portugueses às nossas praias, que Corte sem povo não tem muito futuro. Mas, no Brasil, parece que cientista político tem.
Ruda Ricci

MISÉRIA MORAL

EDITORIAL
Folha de São Paulo
20/08/2009


Declarações de Lula sobre "denuncismo" da mídia revelam o gênero das alianças de que o projeto político petista depende

PRIMEIRO a prática, depois a teoria. O presidente Lula e o PT não têm feito segredo dos compromissos que os vinculam, hoje em dia, ao ex-presidente José Sarney -para nada dizer das relações cordiais que mantêm com Fernando Collor de Mello.

Adversários históricos, todos se conciliam em torno de um objetivo que só na aparência corresponde à desgastada tese da "governabilidade".

Em pauta, acima de tudo, está o interesse lulista de garantir o apoio do PMDB à candidatura Dilma Rousseff. Provêm dessa penosa circunstância, como se sabe, as cenas de hesitação eventual e de governismo explícito que dividem a bancada petista no Senado. É como se não houvesse nada de mais incômodo, no momento, do que discutir a ética na política -assunto que, no passado, constituía uma constante na retórica do partido.

O pragmatismo lulista vai seguindo seu curso habitual. Nada de novo haveria a assinalar neste tópico, não tivesse o presidente da República oferecido, em recente entrevista a uma emissora de rádio do Rio, estranhas justificações teóricas para o espetáculo que protagoniza.

Em meio a nebulosas considerações sobre a qualidade dos times brasileiros de futebol e sobre os peixes que cria num lago do Palácio da Alvorada, Lula recorreu a um exemplo histórico para condenar o que chamou de "denuncismo".

"Eu estava lembrando o seguinte", disse Lula. "Este país teve um presidente que governou com mão dura durante 15 anos, chamado Getúlio Vargas (...) esse homem, em quatro anos de democracia, foi levado ao suicídio porque era chamado de ladrão todos os dias".

Num vertiginoso retrospecto, Lula relembrou outros casos de "denuncismo", coroando suas considerações com uma referência casual: "depois foi o Collor".

Nada como uma ditadura, portanto, para proteger governantes de denúncias. É esta, sem dúvida, a única conclusão cabível da referência feita pelo presidente ao período de "mão dura" do Estado Novo.

Não é certamente o caso de atribuir peso excessivo a mais uma das incontáveis infelicidades verbais de Lula. Sinais de tentação autoritária, comuns tanto à direita quanto à esquerda sul-americana, mostram-se menos presentes no Brasil do que em outros países do continente.
Persiste, entretanto, a renitente disposição governista de atacar a imprensa, cada vez que se desvelam os abusos dos poderosos de plantão.

A crítica lulista ao "denuncismo" não é nova. Mas que se faça o elogio da repressão ditatorial varguista, e que se chegue ao ponto de lembrar o impeachment de Collor como exemplo dos possíveis perigos das mobilizações da opinião pública, é algo que revela, lamentavelmente, a miséria moral do petismo -e o tipo de companhias de que depende para a continuidade de seu projeto de poder.

domingo, 23 de agosto de 2009

sábado, 22 de agosto de 2009

Tobby entrevista o Leão do IR

Tobby Entrevista

A utilidade de uma grife (16/05)

O novo ministro do Meio Ambiente estreou sua metralhadora verbal com ataques à soja. Como é politicamente esperto, escolheu a soja em vez do etanol, menina dos olhos do presidente da República. Vai longe, esse ministro

Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

A chanceler Angela Merkel veio ao Brasil e, entre outros assuntos relevantes da relação bilateral, manifestou interesse e preocupação quanto ao meio ambiente brasileiro. Espero que alguém graduado, de preferência o presidente da República, tenha agradecido à líder alemã pela atenção. Espero também que alguma voz do governo brasileiro tenha dito a ela que nós gostaríamos de usar como referência, para o debate, os conhecidos cuidados que os alemães vêm dispensando, historicamente, aos ecossistemas teutônicos.

Se você enxergou ironia na minha afirmação, errou. Deveríamos copiar os alemães, por exemplo, no aproveitamento dos rios. Para produzir eletricidade e para navegação. Os habitantes do país de Merkel acharam uma solução única para ambos os desafios. Construíram barragens e canais de passagem em todos os pontos possíveis de seus grandes rios. Também por isso o Reno transformou-se no grande eixo de prosperidade do país mais rico e desenvolvido da Europa continental. Todo embarreirado, ele desce de escada dos Alpes rumo a Rotterdam, na Holanda, num paradigma de como a sujeição da natureza pode servir adequadamente à civilização.

Angela Merkel e seus colegas de governo em Berlim poderiam, portanto, ajudar-nos a enfrentar os lobbies que apresentam cada construção de barragem no Brasil como um prefácio do fim do mundo. Infelizmente, é também com dinheiro alemão, pintado de verde, que os pobres brasileiros são mobilizados contra o progresso. Merkel deveria fazer-nos o favor de reunir as organizações não governamentais e igrejas de influência alemã no Brasil para explicar-lhes que o que foi bom para a Alemanha chegar aonde chegou talvez seja também conveniente para que, algum dia, o Brasil possa oferecer aos brasileiros um padrão de vida parecido com o de que já desfrutam os alemães.

Com rios mais navegáveis, passaríamos a entregar ao mundo soja mais barata, já que ela não precisaria percorrer enormes distâncias sobre caminhões que trafegam em estradas precárias. Líderes em soja, poderíamos assim ajudar a pressionar para baixo os preços globais, dando uma contribuição decisiva na luta contra a inflação dos alimentos. Talvez os americanos não gostem dessa nossa iniciativa, pois a navegabilidade dos rios dos Estados Unidos entre os Grandes Lagos e o Atlântico é hoje uma vantagem competitiva e tanto. Daí que os Estados Unidos também manifestem a todo momento preocupações, digamos, ambientais com a possibilidade de exploração do potencial hídrico da Bacia Amazônica.

E daí? Os americanos torceram o nariz quando a Alemanha, ainda nos anos 70, ofereceu-se como parceira do Brasil no desenvolvimento de energia termelétrica de fonte nuclear. Um dia, os Estados Unidos haverão de compreender que nosso desejo mais profundo é copiá-los em tudo. Inclusive no patriotismo. O bom dos governos americanos é que eles pensam sempre em primeiro lugar nos interesses dos Estados Unidos. Lá atrás, Luiz Inácio Lula da Silva notou isso muito bem. Então sejamos patriotas. Transformemos nossos rios em rotas contínuas de navegação, desenvolvamos nossa infra-estrutura nuclear e, como alemães e americanos, aproveitemos cada pedaço de terra fértil para produzir.

O novo ministro do Meio Ambiente, o que quando achou que não seria mais convidado apressou-se em dizer que não aceitaria um convite, mas que acabou aceitando, estreou sua metralhadora verbal com ataques à soja. Sujeito politicamente esperto, escolheu a soja em vez do etanol, menina dos olhos do presidente da República. Vai longe, esse ministro. Desconfio que vamos sentir saudades de Marina Silva, mulher que sempre combate de frente e não faz concessões à demagogia, nem mesmo quando está errada.

Mas a vida segue. Caberá a Carlos Minc protagonizar doravante o lobby do etanol brasileiro junto aos mercados mais sensíveis, como a Alemanha de Angela Merkel. Aparentemente, Marina Silva resistia a engrossar o coro dos que juram que ocupar as melhores terras brasileiras com cana não trará quaisquer danos, sociais ou ambientais. Vamos ver como o novo ministro se sai na tarefa de emprestar sua grife ambientalista a Lula para essa operação propagandística.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Socialismo em debate

Felizmente o tema do socialismo volta à discussão! É claro que há grupos que, mesmo após a derrocada do bloco socialista, não deixaram de pregar, anunciar e discutir - muitas vezes de modo dogmático - o socialismo como a única saída possível para a "barbárie capitalista". Mas, muitos se afastaram dessa discussão, até como uma forma de se preservar da dor da frustração frente às esperanças depositadas nesse sistema econômico-social que se sucumbiu (ou parecer ter sucumbido) frente ao capitalismo. Com isso, muitas das propostas de alternativas passaram a ser formuladas em termos muito abstratos, marcados quase que exclusivamente por valores éticos e ecológicos, sem muita preocupação com o "desenho institucional e econômico-político". E sem diretrizes que mostrem ou indiquem o formato institucional da política e economia, essas propostas genéricas não oferecem critérios para orientar as nossas lutas e ações sociais e políticas.

Afirmações do tipo "a nova sociedade será espiritual e viverá em harmonia com todos os seres vivos e com o Planeta" são importantes para manter o horizonte de desejo, mas não oferecem direções e critérios para lutas concretas. Com isso, surge uma distância grande entre esses discursos cheios de desejos bons e as lutas e ações locais concretas. Por isso, eu afirmei que felizmente o tema do socialismo está voltando a ser discutido em setores comprometidos com a causa da vida dos pobres e dos dominados. Um exemplo disso é a publicação nos últimos dias, no Adital, de dois artigos que merecem ser lidos e discutidos ("Estatismo é a alternativa?", de Manfredo A. Oliveira e "Socialismo, contradições e perspectivas", de Frei Betto).

Eu penso que não poderemos construir um novo projeto de sociedade e de civilização sem retomarmos as discussões sobre o socialismo, os seus erros e acertos, suas semelhanças e diferenças com o capitalismo, seus potenciais e limites. Dessa discussão podemos reafirmar o socialismo como uma alternativa ao capitalismo ou "inventar" outro projeto, mas não podemos evitar essa discussão. E espaços como Adital pode ser um lugar para esse tipo de debate.

E a importância desse debate se mostra mais claro se levarmos em consideração que até Joseph Stiglitz, prêmio Nobel de Economia, escreveu nos últimos dias que a atual crise econômica deixará como um dos legados "uma batalha de alcance global em torno de idéias [...] em torno de que tipo de sistema econômico será capaz de trazer o máximo de benefício para maior quantidade de pessoas". E que "em boa parte do mundo, [...], a batalha entre capitalismo e socialismo - ou ao menos entre o que muitos estadunidenses consideram socialismo - segue na ordem do dia" ("As mensagens tóxicas de Wall Street").

Uma primeira pergunta que pode aparecer na discussão sobre a alternativa ao capitalismo é: qual é a diferença fundamental entre o capitalismo e socialismo? Uma das idéias bastante difundida sobre esse assunto - entre "a esquerda pós-moderna e/ou ecológica" e até mesmo nos setores da "esquerda cristã" - é que não haveria muita diferença entre esses dois sistemas econômico-social-político. Os dois seriam "filhos da modernidade" e que, por isso, eles teriam o mesmo objetivo de aumento da produção (com a conseqüente destruição da natureza). A principal e talvez a única diferença seria que a propriedade dos meios de produção está na mão das empresas privadas no capitalismo e na mão do Estado no socialismo. Para alguns, o socialismo teria caído no "engodo do capitalismo" ou teria preservado as principais características do capitalismo e substituído somente a propriedade privada pela estatal.

Eu penso que essas críticas têm uma boa parte da razão, mas não capta um ponto essencial. Apesar das semelhanças, há uma diferença fundamental entre os dois sistemas sociais. No capitalismo, toda o sistema de produção, distribuição e consumo está guiado pela lógica da mercadoria ou pelo "valor de troca". Isto é, as empresas produzem bens, não em função da sua utilidade na reprodução da vida na sociedade ("valor de uso"), mas em função do seu valor de troca, isto é, para atender os desejos dos consumidores. Nas palavras de um dos economistas mais influentes no séc. XX, Paul Samuelson, "as mercadorias vão para onde há maior número de votos ou de dólares. O cachorro pertencente a John D. Rockfeller pode receber o leite de que uma criança pobre necessita para evitar o raquitismo". Criança pobre necessita do leite, mas como ela não é consumidora não faz parte do mercado, para onde os bens são produzidos. É assim que o sistema funciona, e o empresário não tem opção: no sistema capitalista ele tem que obedecer às leis do mercado (ou "as leis do valor").

O socialismo é um sistema pensado para "dominar" essa lei do valor e pensar a produção e a distribuição dos bens em função da reprodução da vida social. Por isso, por ex., em Cuba antes da crise pós-derrocada do bloco socialista havia escolas e hospitais para toda população, mas poucos restaurantes e quase nenhuma loja de bens de consumo considerados pelo Estado como supérfluos. O Estado apropriou-se de (quase) todos os meios de produção para poder planejar a economia em função do "valor de uso" e das necessidades da população e do regime.

O problema é que os modelos de socialismo implantados nos mais diversas partes do mundo geram também totalitarismo e ineficiência produtiva, gerando uma sociedade submetida ao Estado (que aparece por ex. na ausência da sociedade civil organizada) e a escassez de bens de consumo e de serviços necessários para a reprodução da vida corporal de forma digna e prazerosa.

Os erros e problemas dos sistemas socialistas que existiram ou ainda existem no mundo devem ser assumidos para aprendermos com a história, mas não podemos ignorar a diferença fundamental (pelo menos em termos teóricos e de valores que nortearam os principais teóricos e revolucionários socialistas) entre a lógica capitalista e a lógica de um sistema (qualquer que seja o nome que venha a ter) que procura colocar a reprodução da vida de todas as pessoas como o princípio norteador da organização econômica, social e política.

Jung Mo Sung é professor de pós-graduação em Ciências da Religião e autor de "Cristianismo de libertação: espiritualidade e luta social", Ed. Paulus.

Charge





Editorial de o globo

Sublegenda

O petista militante, e de bons propósitos, deve achar que quarta-feira 19 de agosto de 2009 é um dia para esquecer. Nesta data, ao ser cúmplice ativo - a contragosto ou não, o que não tem importância - da manobra no Conselho de Ética (sic) do Senado para engavetar sem qualquer avaliação representações contra José Sarney (PMDB-MA), o partido rasgou o que restava da bandeira da ética.

Sugestivamente, como para marcar posição, a senadora Marina Silva (AC) escolheu esse mesmo dia para se desfilar do partido, ao qual pertenceu durante 30 anos. Desiludida há tempos com os compromissos ambientais do governo Lula, a que serviu como ministra durante cinco anos, Marina também era favorável ao licenciamento de Sarney, e por isso abrira mais uma rota de colisão com o Planalto.

No momento em que Sarney e a banda fisiológica do PMDB entraram por uma porta para a zona de proteção do PT, Marina saiu por outra, rumo ao PV e à provável candidatura à presidência. Será mais um obstáculo ao projeto eleitoral de Dilma Rousseff, com quem se desentendeu no governo.

Também abandonou a legenda o senador Flávio Arns (PR). Não precisou esperar o fim da sessão do conselho de sagração da inimputabilidade de Sarney para anunciar a partida, sem medir palavras : "Eu me envergonho de estar hoje (quarta) no PT".

Não são mesmo lembranças agradáveis a petistas. Mas o dia jamais será esquecido, por representar o desfecho de um processo até mesmo histórico. O enquadramento da bancada do partido no Senado por Lula, na defesa de seu projeto político, eleitoral e pessoal de eleger Dilma com o apoio do PMDB - e para isso acha necessário preservar Sarney a qualquer custo -, encerra um movimento de mudança de eixo do partido, que se subordina afinal ao lulismo.

O primeiro sinal mais visível da metamorfose do partido, assim como de seu líder máximo, foi emitido no escândalo do mensalão e, depois, na campanha de 2006, no caso dos "aloprados". Diante da ação de um grupo montado no PT para drenar dinheiro ilegal, inclusive público, para a compra de apoio parlamentar, Lula reagiu tentando justificar a prática sob a alegação de que ela seria comum no mundo da política.

Também não deixou de passar a mão sobre a cabeça dos "aloprados" - termo dele -, apanhados numa operação criminosa de tentativa de sabotagem da candidatura do tucano José Serra ao governo paulista.

Lula e PT se guiam, no poder, pela máxima de que "os fins justificam os meios". Fiel a ela, governo e frações majoritárias do partido aceitaram, no segundo mandato de Lula, instalar um balcão mais amplo de negociações fisiológicas no Congresso. Mantiveram aliados e atraíram a banda podre do PMDB. Garantiram votos, mas soterraram de vez o velho PT da defesa da ética na política.

O PT se metamorfoseou, como seu líder supremo, nivelou-se a qualquer das legendas que se preocupam apenas com a proximidade do poder e acesso ao Tesouro. Fez a opção de ser apenas uma sublegenda do lulismo.



Editorial de O Globo, dia 21 de agosto de 2009

A perda da liderança

Charge

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Charge




segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Lula papo fosco

Léo Lince


O presidente Lula, como todos sabem, é um especialista em campanha eleitoral. Faz campanha o tempo todo, vinte quatro horas por dia, todos os dias da semana. Mesmo nos anos de entressafra eleitoral, como é o caso do atual, ele não perde o pique. Um caso especial de fascínio pela atividade que desempenha, reconheça-se, com rara maestria. Um craque polivalente. Ataca e defende, chuta com a esquerda e com a direita, domina as manhas do desarme e se destaca como incomparável "fora de série" no quesito armação.



A feição mais visível de tal exercício continuado é a do domínio público. O cidadão está habituado, pelo bombardeio da mídia, ao espetáculo recorrente. Quando caminha, microfone em punho, de um lado a outro dos palanques, sejam os de inaugurações de qualquer tipo de obra ou no lançamento de pedra fundamental daquilo que será ou não edificado, o presidente fala como "pai dos pobres". Mete o pau nas elites. Diz sempre não estar fazendo campanha eleitoral, pois a lei não permite. Mas não se esquece de convidar para os palanques o baronato local, além de apresentar ao povo em geral a sua candidata, com a qual promete voltar no tempo devido para dar um "banho" nos adversários. Joga para a platéia e, tal qual um artilheiro oportunista, sabe levá-la ao delírio.



Outra dimensão, menos visível, desta dedicação integral se revela no esforço voltado para o lance seguinte, o ponto futuro, a preparação das jogadas que possam facilitar os "bastidores" da próxima campanha. Neste particular, o papo mais eficaz é o da "mãe dos ricos". Todos sabem que as nossas campanhas eleitorais estão entre as mais caras do mundo. Todos sabem que, no Brasil de hoje, a proximidade com o poder é fator decisivo para o caixa financeiro das máquinas partidárias. Também é sabido que o sucesso das máquinas eleitorais acoitadas no aparelho de governo e financiadas pelos pontos fortes da economia são um fator decisivo na reprodução da ordem social injusta. Todos sabem. Daí porque, mesmo batendo um bolão, o presidente prefira jogar para o time e não ostentar em demasia suas habilidades neste particular.



Apesar da cautela prudencial, alguns lances típicos desta dimensão do jogo político têm aparecido no noticiário recente. Nas últimas semanas, em mais de uma reunião com empresários, o presidente desferiu críticas aos instrumentos "duros de fiscalização, que podem atrasar projetos". Quer uma nova lei de licitações. Sugere, sem que ninguém ao que se saiba tenha solicitado, a formação de grupos de trabalho para elaborar outros marcos regulatórios, libertos da fiscalização pública considerada excessiva. Uma música para os ouvidos de uma platéia composta por grandes empresários. Um alento para os tesoureiros da próxima campanha eleitoral.



Aliás, por falar na relação empreiteiro/financiamento de campanha, na festa de 50 anos do Sindicato da Indústria da Construção Pesada, o presidente cativou os grandes do setor com seu rombudo discurso verdade. Disse ele: "Vocês sabem a fama de vocês há 15 e 20 anos atrás. Empreiteiro e usineiro de cana eram duas coisas que político gostava na hora de procurar financiamento de campanha, e eram duas coisas que o político gostava de ter bem longe na hora da administração. Nós quebramos esse tabu". Como se sabe, os empreiteiros continuam, como sempre, na linha de frente dos grandes financiadores de campanha e sempre transitaram na intimidade de todos os governos. A única novidade está naqueles que antes protestavam e, agora, tomaram bonde andando e sentaram na janelinha. Tabu quebrado, ora, ora, pois, pois: papo fosco.

Léo Lince é sociólogo.

Para fora do cercadinho

É preciso saber o que deseja Marina. Ela quer usar a eleição para fazer propaganda de teses? Ou pretende construir uma alternativa de poder? Se for a segunda opção, a senadora do Acre precisará dar um jeito de achar seu caminho para sair do cercadinho

A eventual candidatura de Marina Silva à Presidência pelo PV vai enfrentar de cara uma dificuldade programática: como tirar o discurso e a militância ambientais do cercadinho, do microcosmo de fiéis falando a si mesmos, prevendo o apocalipse e condenando ao fogo eterno os céticos. A então ministra tentou fazer essa ampliação de horizontes no governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Os resultados foram limitados. O termo era “transversalidade”, a tentativa de introduzir a pauta verde no universo mais amplo das ações governamentais.

Não funcionou a contento, por razões várias. Uma delas, que talvez sintetize as demais: a agenda ambiental no Brasil construiu-se nos últimos tempos como uma federação de vetos. Para toda iniciativa de desenvolvimento, haverá pelo menos uma organização não governamental a afirmar, sem dúvida nenhuma, que aquilo constitui gravíssima ameaça ao meio ambiente. E que portanto não é o caso de fazer. Assim se passa com as hidrelétricas na Amazônia, com a termoeletricidade de origem nuclear, com as hidrovias, com as sementes geneticamente modificadas, etc.

Conversa difícil de emplacar num país cujos maiores desafios são acelerar o desenvolvimento e ocupar efetivamente o território. Dá para fazer isso respeitando 100% a sustentabilidade? É possível (provável) que sim. Só que até agora ninguém disse como. No debate sobre a energia, por exemplo, acena-se com as ditas alternativas, como as provenientes da luz solar e dos ventos. Mas será realista falar em desenvolver o Brasil no ritmo desejado (e necessário) renunciando às demais fontes energéticas?

Outro capítulo é o aquecimento global. Se o fenômeno for mesmo consequência do excesso de civilização, é razoável que a conta seja transferida principalmente a quem já alcançou o patamar superior no quesito. Uma tese bastante difundida diz que o planeta não suportará se o padrão de consumo (emissão de carbono) dos Estados Unidos e da Europa for estendido ao conjunto da humanidade. Tudo bem, mas o que fazer? Reduzir principalmente a emissão dos ricos ou distribuir o sacrifício também pelos pobres, já que em teoria estes serão os maiores prejudicados se nada for feito?

Junto com o Brasil, a China vem recebendo muitas críticas por resistir a metas de emissão de gases causadores do efeito estufa. A posição dos líderes políticos chineses deve ser analisada à luz de um fato. Nenhum governo ali fica na sela se não propiciar um crescimento econômico, sustentado, em torno de 10% ao ano. A necessidade política está também na base das posições dos governos na Europa e nos Estados Unidos, confrontados com uma opinião pública cada vez mais preocupada com a defesa dos ecossistemas.

Trata-se, assim, de uma disputa de poder. E há o risco de a agenda verde radical ser recebida como antinacional nos países do mundo subdesenvolvido. Mais ainda nos Brics, nações que finalmente ameaçam romper a hegemonia do Primeiro Mundo. Não é um xadrez fácil de jogar. É um jogo perigoso, que embute riscos a serem bem explorados em períodos eleitorais.

Se Marina Silva sair mesmo do PT e virar candidata a presidente (ou será presidenta?) pelo PV, e se ela mostrar viabilidade eleitoral, não terá como avançar sem enfrentar esse debate com algum grau de pragmatismo. É preciso saber o que deseja Marina. Ela quer usar a eleição para fazer propaganda de teses? Ou pretende construir uma alternativa de poder, ainda que estrategicamente?

Se for a segunda opção, a senadora do Acre precisará dar um jeito de achar seu caminho para sair do cercadinho.

Questão de lógica

Não havia mesmo como o senador Paulo Duque (PMDB-RJ) aceitar a abertura de processo contra o líder do PSDB depois de mandar arquivar as ações contra o presidente do Senado. Iria para o currículo de José Sarney como um ato de violência política. E Sarney, convenhamos, não está em situação de agregar mais dores de cabeça ao currículo. Resta saber se o arquivamento foi ou não peça de um acordo para empurrar sob o tapete os malfeitos que infernizam a vida do Senado nos últimos meses. A posição do PT no Conselho de Ética vai desfazer o mistério e revelar se a chantagem deu certo.

Alon Feuerwerker

Charge

O REI


domingo, 16 de agosto de 2009

Charge


O espectro de Lula

Já acreditei que o presidente Lula e o PT trariam mudanças positivas para o Brasil; depois, no auge do "mensalão" tive raiva; hoje sinto pena de nosso solerte líder. É patético vê-lo advogar por figuras do quilate de José Sarney e Mahmoud Ahmadinejad, para ficar em dois casos recentes de defesa do indefensável.

Olhando apenas para os resultados, a gestão de Lula pode ser considerada bastante boa. Enquanto o mundo amarga uma recessão sem precedentes, a crise por estas bandas veio suave. As projeções sugerem uma ligeira retração este ano seguida de recuperação já em 2010. Mais importante, foi sob Lula que o Brasil experimentou um surto de crescimento como não víamos desde os anos 70. E não foi um crescimento qualquer, mas acompanhado de significativa distribuição de renda. Ao final de 2007, o presidente comemorava o fato de mais de 14 milhões de brasileiros terem saltado das classes D e E para a C (renda mensal familiar entre R$ 1.115 e R$ 4.807). Tais mudanças não passaram despercebidas aos brasileiros, que dão a Lula índices generosos de aprovação popular (69% segundo o último Datafolha).

É claro que as políticas do governo petista têm algo a ver com esses êxitos, mas não são as únicas responsáveis. O aumento da classe média, por exemplo, não é um fato isolado do Brasil, mas faz parte de um movimento mais geral também observado na China e na Índia e que pode ser explicado pelo forte crescimento da demanda global (em especial pelas commodities) até o ano passado.

Outro fator frequentemente esquecido é o chamado bônus demográfico. A redução das taxas de natalidade e de mortalidade combinada com a forte entrada das mulheres no mercado de trabalho tende a concentrar o número de pessoas economicamente ativas nas famílias. O resultado é mais renda que precisa ser distribuída por menos pessoas --nos últimos 40 anos, a fecundidade caiu de seis filhos por mulher para menos de dois. Fica o lembrete de que, dentro de mais algumas décadas, os efeitos positivos da mudança no perfil populacional se atenuarão e enfrentaremos o problema do excesso de aposentados para uma PEA (população economicamente ativa) declinante.

Longe de mim, entretanto, roubar os méritos da administração. Além de programas como o bolsa família e o forte aumento do salário mínimo (que, desde 2003, foi reajustado em 46% acima da inflação), o governo teve a sabedoria de não pôr tudo a perder. Sei que não é o tipo de elogio com o qual os petistas se regozijam, mas isso não o torna menos real ou importante. É só ver o que acontece na vizinha Argentina, onde o desenfreado populismo econômico do casal Kirchner está levando o país, senão à ruína, pelo menos a uma série de dificuldades que teriam sido desnecessárias com uma administração mais sóbria.

Diante desse esboço de avaliação do governo Lula (que está mais para positiva do que para negativa), o leitor deve estar se perguntando por que raios sinto pena do presidente. Ele, afinal, é aplaudido por sete de cada dez brasileiros, goza de forte prestígio internacional e tem reais chances de eleger Dilma Rousseff como sucessora. Se isso não é sucesso, fica até difícil imaginar o que possa sê-lo.

Bem, receio que haja, sim, outros aspectos a considerar. Vale lembrar o Fausto, personagem da literatura alemã que logrou acumular riquezas e até conquistar a imortalidade. Mas o fez ao preço de vender a alma para o Diabo. Lula também sacrificou uma parte importante de sua "anima politica" para chegar aonde está: não há mais traço de coerência em sua trajetória.

Aqui é preciso muito cuidado. O conceito de coerência, que já é insidioso para o homem comum, torna-se especialmente traiçoeiro quando aplicado a políticos, gente que converteu em ganha pão a arte de compor com o adversário. A pior definição possível de "coerência política" é aquela reduz o termo à repetição, ao longo de toda a vida, dos mesmos slogans e palavras de ordem. Felizmente, é apenas uma minoria dos seres humanos que recai nesse comportamento mal adaptado. Pobre do Brasil se o Lula eleito em 2002 tivesse colocado em prática as ideias que defendia em 1989.

É bom que as pessoas estejam aptas a aprender e modificar suas ideias, seja porque o mundo mudou seja porque o próprio sujeito já não é mais o mesmo. Evidentemente, não há nenhuma garantia de que as teses defendidas na maturidade são melhores do que as da juventude. Elas apenas tendem a ser mais moderadas. E, na maioria das vezes, a moderação é boa conselheira, mas este não é em absoluto um teste de veracidade.

Voltando à coerência, parece-me mais útil compreendê-la como uma linearidade nas atitudes morais. Se a pessoa julga que a igualdade de direitos, por exemplo, é um valor elevado a preservar, não pode esquecê-la em troca de uma vantagem pessoal ou política. Poderia, evidentemente, mudar de opinião acerca do próprio conceito, mas apenas como resultado de novas reflexões e ponderações, para cuja reelaboração tenha havido a intervenção de outros valores morais. Redefinir princípios ao sabor de circunstâncias mais terrenas leva o nome de "oportunismo".

E eu receio que Lula em particular e o PT em geral tenham sucumbido aos encantos do poder e sacrificado os valores morais por monetários (caso do "mensalão") e por jogadas de cálculo político.

Infelizmente, é o que Lula está fazendo quando defende José Sarney e minimiza as barbaridades cometidas no Senado Federal. Neste caso, um pouco para facilitar a vida congressual do governo, um pouco para justificar retrospectivamente os descalabros de sua própria administração, Lula deixa de prestar reverência aos princípios mais elementares da democracia, que afastam como absurda a possibilidade de reger a vida pública por atos secretos institucionalizados.

Alguns políticos, é verdade, já nascem sem espinha dorsal e sem intuições morais. Este, entretanto, não parecia ser o caso de Luiz Inácio Lula da Silva. Na campanha de 1989, Lula oferecia um diagnóstico bastante diverso de José Sarney, o então presidente da República: "Nós sabemos que antigamente --os mais jovens não conhecem--, mas antigamente se dizia que o Adhemar de Barros era ladrão, que o Maluf era ladrão. Pois bem, Adhemar de Barros e Maluf poderiam ser ladrão (sic), mas eles são trombadinhas perto do grande ladrão que é o governante da Nova República, perto dos assaltos que se faz''. Bem, Lula se aliou a Sarney e Maluf. Aparentemente, só não juntou forças com Adhemar porque ele está morto.

Há quem afirme que a política que se erige em absolutos converte-se em fanatismo --como o governo conduzido pelo incorrigível Mahmoud Ahmadinejad, outro dos "protegés" de Lula. Pode ser, mas eu pelo menos não falei em absoluto nenhum. O que afirmei é que a mudanças em atitudes morais podem ocorrer, mas precisam ser racionalmente justificáveis no plano dos conceitos. Lula precisaria explicar por que deixou de considerar importante a transparência no trato da coisa pública, por exemplo.

Quando o presidente e o PT se comportam exatamente como os Sarneys, Renans e Malufs, dão um tiro de misericórdia no respeito a princípios que um dia, já longe no passado, parecia ser o diferencial e talvez até a essência do Partido dos Trabalhadores. Lula tornou-se um espectro do que já foi. E é isso que me entristece.

Hélio Schwartsman, 44, é articulista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas.

Funeral

Samuel Finley Breese Morse

Samuel Finley Breese Morse
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(1791 - 1872)
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Pintor e inventor americano natural de Charlestown, Massachusetts, que ganhou notoriedade em todo o mundo depois de projetar um sistema de sinais conhecido como código Morse, que possibilitou o uso prático do telégrafo. Graduado no Yale College, onde se interessou pela eletricidade, fenômeno até então pouco compreendido, e por pintura de retratos em miniatura. Inicialmente dedicado às Artes e interessado em pinturas românticas e históricas, estudou pintura e desenho no Reino Unido (1809-1815), porém na volta retomou os retratos e produziu obras-primas do gênero, nas quais aliou a técnica à ousadia de representar seus modelos com o toque do romantismo aprendido na Europa. Fundou a National Academy of Design e foi seu primeiro presidente (1826-1845). Entusiasmado com a descoberta dos eletroímãs, resolveu dedicar-se ao estudo da transmissão telegráfica, tendo apresentado seu primeiro equipamento (1837), em New York City. Investindo no aperfeiçoamento do seu aparelho, o telégrafo, concluiu o trabalho de elaboração do código Morse (1838) e iniciou suas experiências com cabos telegráficos submarinos (1942). Obteve do Congresso americano, recursos financeiros para instalar a primeira linha telegráfica, que ligou Baltimore a Washington (1843), transmitindo sua primeira mensagem: What hath God wrought! (1844). A partir de então seguiu-se uma longa luta judicial com seus sócios pelos direitos de patente, cuja disputa terminou quando a Suprema Corte dos Estados Unidos lhe deu ganho de causa (1854). Seu invento começou a render-lhe dividendos em dinheiro (1958), quando conseguiu vender seu sistema telegráfico para outros países, entre eles, Áustria, Bélgica, França, Noruega, Rússia, Suécia e Turquia, notabilizando-o por todo o mundo e enriquecendo-o. Morreu em New York, New York.

Médici e Nixon planejaram derrubar Allende

Blog do Noblat
Documento dos EUA revela que, em reunião com americano dois anos antes do golpe, brasileiro disse "estar trabalhando" para derrubar chileno
Relato da conversa mostra que foram tratados também temas como a instabilidade boliviana, a volta de Cuba à OEA e o Tratado de Itaipu
De Fabiano Maisonnave:
Em conversa com o colega americano Richard Nixon, o presidente Emílio Médici afirmou que "estava trabalhando" para derrubar o governo do socialista chileno Salvador Allende, revelam documentos liberados pelo Departamento de Estado dos EUA e compilados pelo instituto de pesquisa não governamental Arquivo Nacional de Segurança, aos quais a Folha teve acesso.
O encontro ocorreu no Salão Oval da Casa Branca, às 10h de 9 de dezembro de 1971. Do lado brasileiro, só Médici estava presente, deixando o Itamaraty de fora. Sem falar inglês, precisou da ajuda do general Vernon Walters, que tinha forte ligação com o Brasil -era o adido militar americano no golpe de 1964.
O outro participante foi o assessor de Segurança Nacional e futuro secretário de Estado Henry Kissinger, relator do encontro, revelado quase 38 anos depois. "É fantástico ver que Médici tenha mantido conversas no mais alto nível sem se fazer acompanhar por ninguém", diz o pesquisador Matias Spektor. "A Casa Branca e o Médici acreditavam que o Itamaraty estava tentando frustrar a visita presidencial. Os diplomatas brasileiros não gostavam da ideia de tanta proximidade entre os presidentes."
A visita de Médici ocorreu num momento em que o Brasil começava a ter uma política externa mais ativa, enquanto os EUA, embora preocupados com o avanço esquerdista na América Latina, estavam atolados na Guerra do Vietnã.

Porque eles devem ser trocados


Sarney vai "limpar" o senado


21/03/09
A grande imprensa anunciava que o senador José Sarney, veja bem, está empolgado para fazer uma verdadeira limpeza no senado. Provavelmente vai começar por ele mesmo, e pela filha.

Amigos

sábado, 15 de agosto de 2009

Charge


Escalada

Todos os sábados, de duas a três horas, o presidente Rafael Corrêa apresenta-se no rádio aos cidadãos do Equador. O pretexto é prestar contas do que faz. Na prática, ele incita o ouvinte contra a imprensa, que acusa de "corrupta" e de "vendida", com um sugestivo fundo musical: "mentem, mentem, mentem... não param de mentir".

Isso lembra alguém, de algum lugar? Sim, lembra Hugo Chávez, da Venezuela, que inaugurou programas jogando a população contra a imprensa e agora vai da palavra aos atos: toda hora, manda fechar uma TV daqui, dúzias de rádios dali. Já são mais de 30.

O nível de manipulação popular contra TVs, rádios, jornais, seus donos e seus jornalistas vem num crescendo. Porque tudo que os governantes não querem é ler, ouvir e ver os desmandos de seus governos, de seus grupos de poder e até de seus familiares expostos à opinião pública. Preferem tudo intramuros, restrito aos seus palácios.

Rafael Corrêa, por exemplo, tem sido ousado nas políticas sociais, nos avanços da economia e na reordenação institucional de um país que chegou a ter oito presidentes numa única década. Mas os méritos que lhe rendem uma alta popularidade entre pobres e ricos não lhe dão o direito de calar a crítica, nem de ocultar que seu irmão, Fabrício, está enrolado com contratos de construção civil.

Governantes devem explicações aos seus governados. E quem não deve não teme, não é verdade?

Nada é perfeito, e a imprensa comete erros, às vezes gritantes. Mas não é fechando canais e decidindo quais devem morrer e quais devem sobreviver que Chávez vai depurar os procedimentos da mídia nem contribuir para a consolidação da democracia, nem na Venezuela, nem na América do Sul.

A imprensa não é para badalar o poderoso, mas para provocá-lo, cobrá-lo, muitas vezes irritá-lo. Mais vale um governante irritado do que um país sem a mídia para irritá-lo.

Essa escalada que parte dos Andes é, sem dúvida, preocupante. Você, que gosta de notícias, que acompanha a Folha e/ou a Folha Online, que está aqui lendo nossas Pensatas, deve ficar atento e reagir pelo direito de liberdade de expressão, porque começa assim, lá nos Andes, e depois se espalha por aí.

Na última reunião da Unasul (União das Nações Sul Americanas), aqui em Quito, Equador, onde ainda estou, a turma "bolivariana" tentou emplacar uma condenação à imprensa livre na declaração final, sem sucesso. Mas já foi um começo. É hora de dar um basta.

A mídia é central no sistema de pesos e contrapesos. E é como a democracia (ou o casamento, se preferirem): cheia de defeitos, mas ainda não inventaram nada melhor.

Eliane Cantanhêde é colunista da Folha, desde 1997, e comenta governos, política interna e externa, defesa, área social e comportamento. Foi colunista do Jornal do Brasil e do Estado de S. Paulo, além de diretora de redação das sucursais de O Globo, Gazeta Mercantil e da própria Folha em Brasília.


Charge


quinta-feira, 13 de agosto de 2009

PROFECIAS DE TANCREDO NEVES EM SÃO JOÃO DEL REI - 3ª Parte

PROFECIAS DE TANCREDO NEVES EM SÃO JOÃO DEL REI - 2ª Parte

PROFECIAS DE TANCREDO NEVES EM SÃO JOÃO DEL REI - 1ª Parte

Continuem, só assim ficaremos sabendo de mais podre

Quanto mais a Globo e a Record brigam mais ficamos sabendo dos podres das duas. Continuem, só assim ficaremos sabendo de mais podre.

De Lula para Sarney

Recados.com - orkut comentários do português, gráficos da sucata, gráficos do glitter do scrapbook e mais!

De Sarney para Lula

Recados.com - orkut comentários do português, gráficos da sucata, gráficos do glitter do scrapbook e mais!

Charge


Charge


Charge


O derretimento da geleiras 4ª pt

O Derretimento das Geleiras 3ª pt

O derretimento da geleiras final

O derretimento da geleiras 6ª pt

O derretimento da geleiras 5ª pt

O Derretimento das Geleiras 2ª pt

O Derretimento das Geleiras 1ª pt

Perderam a sanidade mental.

Há petistas corajosos, elogiam Sarney e criticam Marina Silva, pelo amor de Deus, perderam a sanidade mental.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Ele reapareceu

Zé Dirceu quer que Marina Silva entregue o mandato ao PT se trocar de partido. Se fosse ele, ele faria isso, há ele faria, faria.

A oposição piscou. Sarney deve ficar

Ricardo Noblat

Lembra do escândalo dos aloprados? O tal do dossiê fraudado por membros da máfia das ambulâncias e empregados da campanha à reeleição de Lula com denúncias contra os candidatos José Serra e Geraldo Alckmin, ambos do PSDB?
Lembra da CPI do Cartão Corporativo e do dossiê montado na Casa Civil da presidência da República sobre despesas sigilosas do governo Fernando Henrique Cardoso?
Do Caso Renan Calheiros (PMDB-AL) você lembra. Sim, aquela história do dinheiro entregue por um lobista de empreiteira à jornalista, ex-amante e mãe de um filho do senador.
Como deve lembrar da descoberta recente sobre o curriculum da ministra Dilma Rousseff,da Casa Civil, onde constava curso que ela não concluiu.
Tais episódios ficaram por isso mesmo. O que envolveu Renan resultou na absolvição duas vezes dele pela maiores dos seus pares.
Prepare-se para testemunhar mais um que chegará ao fim sem que ninguém seja punido.
Sim, falo de tudo que foi apurado contra o senador José Sarney (PMDB-AP) - do empreguismo de parentes e afilhados políticos ao desvio de verbas oficiais dadas em patrocínio para a fundação batisada com o nome dele e presidida por ele.
Em discurso elogiado pelos colegas como "uma defesa técnica e sem emoção", Sarney disse em resumo o seguinte: se tenho culpa, quem aqui não tem?
Citou, por exemplo, o número de atos secretos produzidos nas duas gestões anteriores dele como presidente do Senado. E comparou-o com o número de atos secretos produzidos nas gestões dos seus sucessores.
De lá para cá, o PMDB pediu a cassação do mandato de Arthur Virgílio (AM), líder do PSDB no Senado, que pagou o salário de um assessor liberado para estudar cinema durante dois anos em Barcelona.
E soube-se que o senador Sérgio Guerra (PE), presidente do PSDB, foi cuidar da saúde no exterior e levou uma das filhas com passagem paga pelo Senado.
O argumento do "se tenho culpa,quem aqui não tem?", assustou boa parte da oposição. O susto cresceu depois que Virgílio foi encostado na parede.
Ser réu confesso, como ele faz questão de repetir, não torna ninguém menos réu. Confessar um erro não revoga o erro cometido. Oferecer-se para reparar o erro pode, no máximo, atenuar uma eventual pena.
Sarney atou seu destino ao da aliança do PMDB com o PT para eleger Dilma. Ameaçou pedir licença do cargo para que ele fosse ocupado por um vice da oposição. O governo entrou em pânico.
Estamos outra vez nos estertores de mais um caso que provocou muito barulho para afinal se desmanchar no ar como tudo que parece sólido.
A prometida reforma do Senado se limitará a uma maquiagem mal feita. Medidas antes anunciadas estão sendo esquecidas sem alarde.
O que era sujo permanecerá sujo.
Revoguem-se as disposições em contrário.

Somos a república do pão com bosta

Somos a república do pão com bosta. Sarney, Collor, Renan, e tudo o mais. Somos ou não somos?

Ela jura que não é verdade

E a ministra Dilma pedindo para a receita federal aliviar o Sarney. Ela jura que não é verdade.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Brasil covarde

Em defesa de José Sarney, Collor mandou Pedro Simon engolir suas palavras. Simon voltou a falar, mas engoliu. Em seco. Depois relatou que teve medo.

O olhar vidrado de Collor lembrou ao senador gaúcho o crime cometido pelo pai dele, Arnon de Mello, que matou um colega no plenário. Simon achou que podia ter o mesmo fim trágico.

Trágico mesmo nessa história é o medo do valente Pedro Simon. Acabaram-se os homens públicos, acabou-se o espírito público. Se um Collor babando de ódio é suficiente para calar um democrata, a democracia será regida pelos psicopatas.

Collor disse a Simon que não se atrevesse a repetir o seu nome, nunca mais. A intimidação fez efeito, e Simon não mais pronunciou o nome do colega.

Se ainda existissem homens públicos, Pedro Simon, ou qualquer outro senador, deveria ter respondido imediatamente a Fernando Collor de Mello (este é o nome dele): o Senado é uma alta representação do povo, os que lá estão têm nomes, e no dia em que algum deles não puder ser pronunciado a democracia terá morrido.

Vamos repetir o nome do senador que não quer ser mencionado, e que foi obedecido por Pedro Simon: Fernando Collor de Mello. É muito importante pronunciar este nome, para que ele não seja esquecido jamais.

Fernando Collor de Mello é o ex-presidente da República que acreditou poder governar na marra, com medidas truculentas como o confisco da poupança dos brasileiros, e que julgou poder usar o mandato popular como instrumento privado em benefício próprio. Ao lado de seu famoso tesoureiro, Paulo César Farias, condenado por corrupção, Fernando Collor de Mello foi acusado em vários processos de lesar a administração pública, teve que renunciar, e foi condenado no Senado à perda de seus direitos políticos por oito anos.

Collor foi absolvido na Justiça, cumpriu a pena política e conseguiu voltar a se eleger. Estava no seu pleno direito. Era hora dos incomodados se calarem.

Ao entrar no plenário do Senado bufando, tentando intimidar, ameaçando com chantagens e perseguições, este homem está dizendo o seguinte ao país: não quer ser tratado como um democrata, quer ser tratado como bandido.

Entre o medo de Pedro Simon e a apatia da opinião pública, Fernando Collor de Mello (este é o seu nome) saiu de cabeça erguida do Senado. O terror venceu. E no dia seguinte, foi recebido discretamente por ninguém menos que sua santidade, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O velho, o desclassificado, o inacreditável Collor canta de galo no Senado Federal, e o Brasil assiste. O Brasil é covarde.

É por isso que José Sarney sobe à tribuna e mente à vontade. Não tem problema ele dizer que não tem nada a ver com Agaciel e a farra do tráfico de influência. O Brasil sabe de tudo. Mas a covardia abençoa os cínicos.

Se Collor pode fazer discurso de bandido no Senado e ser recebido em seguida por Lula, por que implicar com as molecagens da família Sarney?

O melhor é ligar a TV e assistir à marmelada no Conselho de Ética com pipoca e Coca-Cola.

PS: O nome do senador impronunciável é Fernando Collor de Mello.

Charge

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Charge


sexta-feira, 7 de agosto de 2009

O que faz Renan fora da cadeia?

Augusto Nunes
No fim de maio de 2007, uma reportagem de VEJA escancarou a face horrível de Renan Calheiros, então presidente do Senado. Os homens de bem se estarreceram com o que viram, os colegas não viram nada de novo, Renan deixou o comando da mesa, foi para as coxias e esperou exatamente 24 meses para reaparecer na ribalta, neste fim de maio, no papel de parceiro preferido do presidente Lula. Por decisão do chefe de governo, cabe ao companheiro Renan, líder da bancada do PMDB e amigo de infância do presidente José Sarney, impedir que a CPI da Petrobrás consiga provar que a estatal praticou, permitiu ou patrocinou delinquências bilionárias.

Está com a sensação de que já leu isso? Leu mesmo. É o trecho de um post de 28 de maio, que antecipava ocorrências quase palpáveis de tão previsíveis: o jagunço a serviço de todos os governos logo despejaria sobre outros senadores os sórdidos dossiês que coleciona obsessivamente. Lula tomara uma decisão acertada, continua o texto.

As nuvens que se avolumam sobre a Petrobras são formadas por denúncias, suspeitas, indícios e evidências. Quem melhor para enfrentá-las do que o alagoano que sobreviveu a um tsunami de provas tangíveis e pilantragens visíveis a olho nu? É o homem certo no lugar certo. Para assassinar os fatos no nascedouro, foi convocado um serial killer especializado no extermínio de verdades inconvenientes.

Fosse o Brasil um país sério e Renan não conseguiria pronunciar sequer uma vírgula sobre assunto nenhum. Primeiro teria de providenciar respostas verossímeis para questões que seguem pendentes. O que tem a dizer sobre as relações mais que promíscuas envolvendo as empreiteiras Gautama e Mendes Junior? E sobre as mesadas de R$ 16,5 mil entregues pelo amigo lobista a Mônica Veloso? E as notas fiscais que fraudou na tentativa de explicar o inexplicável? Que tal ensinar o truque da multiplicação de imaginários, que transformou um fazendeiro de araque em imperador do gado?

Com incontáveis acertos a fazer com a Justiça dos homens e o Juízo Final, o extorsionário alagoano continua a brincar de inquisidor. Pastoreia a base alugada com a arrogância sem remorsos do pecador vocacional, enquadra os vacilantes do PT, banca o capitão-do-mato com em parceria com Fernando Collor. Depois de começar a bandidagem forjada para inocentar José Sarney, quer punir os que o acusaram. É o que está fazendo neste momento no plenário do Senado.

Há algo de errado com a Justiça de um país que não consegue trancar na cadeia um fora-da-lei como Renan Calheiros.

A Candidatura de Marina

A possibilidade de Marina da Silva candidatar-se à presidência da República brilha como um facho de luz na escuridão. É o mínimo que se pode dizer ao surgir essa possibilidade.

Marina apresentou muitos limites como ministra. Fez concessões excessivas ao governo, inclusive de suas convicções pessoais. A justificativa que apresentou para apoiar a transposição do São Francisco na audiência pública em Juazeiro da Bahia raiou o deprimente. Assumir esse constrangimento foi mais forte que negar a proposta e sair do governo. Mais tarde, preterida no comando do desenvolvimento da Amazônia, renunciou. Renúncia tardia, mas, quem sabe, a tempo de injetar um novo horizonte na campanha de 2010.

Marina não seria apenas o desaguadouro dos insatisfeitos com a política predadora do atual governo. Ela traria para o debate político um ângulo que fatalmente estará ausente, se a eleição ficar polarizada entre Serra e Dilma. Marina poderia suscitar o debate sobre as florestas, os rios, as novas energias, as novas tecnologias, os direitos das comunidades tradicionais, o respeito por seus saberes, por seus territórios, enfim, sobre um novo projeto de país.

Se mostrar fôlego eleitoral, colaborará mais ainda com país, retirando-nos desse fatalismo PSDB/PT que estão querendo enclausurar a política brasileira.

Roberto Malvezzi (Gogó), ex-coordenador da CPT, é agente pastoral.

(1986) Roda Viva entrevista Luiz Carlos Prestes - PARTE 8

(1986) Roda Viva entrevista Luiz Carlos Prestes - PARTE 7

(1986) Roda Viva entrevista Luiz Carlos Prestes - PARTE 9

(1986) Roda Viva entrevista Luiz Carlos Prestes - PARTE 6

(1986) Roda Viva entrevista Luiz Carlos Prestes - PARTE 9

(1986) Roda Viva entrevista Luiz Carlos Prestes - PARTE 5

(1986) Roda Viva entrevista Luiz Carlos Prestes - PARTE 1

Roda Viva com FHC

Opinião Nacional - Reforma Política

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

O afastamento de Gramsci do mito da URSS

O afastamento de Gramsci do mito da URSS


Silvio Pons
Tradução: A. Veiga Fialho

Gramsci compartilhou uma visão mítica da ditadura bolchevique, difundida no movimento comunista. Parte essencial de tal mito foram a ideia de que a unidade da “velha guarda” leninista fosse um recurso disponível e a de que as políticas do bolchevismo no poder coincidissem com uma efetiva realização de liberdade, consenso e socialização. Mas sua irremovível convicção de que o Estado revolucionário constituía não só um ponto de força material e organizativo, mas também simbólico, no plano internacional, apreendia uma questão crucial: sem tal recurso estratégico, até mesmo a mais refinada concepção revolucionária ocidental estava destinada à marginalidade. Sua prisão retirou a própria questão do ângulo visual dos comunistas italianos. Privado das “belicosas certezas” características de Lenin, e no entanto inevitavelmente levado a carregar de expectativas a obra dos grupos dirigentes soviéticos diante do fim do “tempo da revolução” no Ocidente, Gramsci não deveria mais livrar-se das interrogações e dos princípios enunciados na correspondência com Togliatti em 1926 [1]. As notas do cárcere trazem o sinal de tal legado e, sob esta luz, constituem uma solitária tentativa intelectual de decifrar a evolução havida neste meio-tempo na URSS, voltando às próprias fontes originais da experiência soviética, sem liquidá-las. Vale a pena desenvolver, a este propósito, algumas considerações conclusivas.
Em primeiro lugar, deve-se sublinhar a ligação de Gramsci com a NEP, afirmada na carta de outubro de 1926 e de vários modos presente nos Cadernos. Gramsci permaneceu ligado à ideia de que a evolução da URSS devia acontecer sob formas graduais e não violentas, e isso o levou a expressar uma crítica à dissolução da NEP na revolução pelo alto promovida por Stalin depois de 1928: esta última lhe pareceu uma ruptura do sistema de equilíbrios sociais derivados das alianças de classe. Mas, para Gramsci, a NEP era um “sistema de equilíbrios” ainda mais articulado, por ser também de natureza político-institucional: neste contexto, deve ser lida sua insistência sobre o caráter vital da dialética partidária nas notas do cárcere. Daqui, entre outras coisas, sua crítica transparente à liquidação da oposição de esquerda na URSS, que ele desenvolveu no âmbito do conceito de “parlamentarismo negro” [2]. A dissolução deste “sistema de equilíbrios” pareceu levar Gramsci a se perguntar sobre as perspectivas autênticas de uma superação da fase “econômico-corporativa” na URSS e sobre os perigos inerentes ao frágil desenvolvimento das superestruturas. Neste contexto, ele desenvolveu sua crítica à “estatolatria”, quando as tendências da revolução pelo alto já estavam em pleno curso, em abril de 1932 [3].

Em segundo lugar, o nexo existente nos Cadernos entre “guerra de posição” e “revolução passiva” deve ser aplicado também à URSS. A noção de “guerra de posição” não se referia só à estratégia do movimento comunista, mas também à “construção do socialismo” na URSS, que Gramsci via como uma outra face do mesmo problema. Por via de consequência, Gramsci perguntava-se sobre a pertinência para a “guerra de posição” das escolhas realizadas pelo grupo dirigente soviético no final dos anos vinte. Por outro lado, a grande transformação soviética e seu caráter de mudança pelo alto inseriam-se necessariamente no contexto da “revolução passiva”, que, a seu juízo, caracterizava a época pós-bélica. É difícil duvidar do fato de que nos Cadernos operava um nexo interpretativo do regime soviético como regime autoritário de massas. Sua distinção entre totalitarismo “regressivo” e “progressivo” revelava uma óbvia referência, respectivamente, ao regime fascista e ao regime soviético. Mas, a partir de 1933, Gramsci levou a cabo uma reflexão muito mais sobre as analogias do que sobre as diferenças entre os regimes totalitários. Não se pode deixar de ver uma tal abordagem em operação nas notas sobre a interação partido-Estado, sobre a relação política-organização e sobre as funções de polícia dos regimes autoritários de massas. Em outras palavras, a reflexão presente nos Cadernos sobre o autoritarismo soviético foi muito além da questão industrialismo-bonapartismo.

Em terceiro lugar, a única passagem dos Cadernos em que aparece uma referência explícita a Stalin, que remonta a fevereiro de 1933, apresenta-se-nos sob um ângulo diverso daquele, habitualmente assinalado, da adesão de Gramsci ao “socialismo num só país” [4]. Sem dúvida, ele manteve uma adesão de princípio à ideia: mas não pode escapar o fato de que sua polêmica antitrotskista era então um expediente para criticar na realidade o curso político de Stalin e, verossimilmente, também a linha sectária do Komintern. Em outras palavras, Gramsci delineou uma crítica do nexo nacional-internacional na política da URSS, nas formas assumidas depois de 1928.

Nos Cadernos, o nexo guerra de posição-revolução passiva conduz a uma visão mais ampla da dimensão estatal da Revolução Russa e à sua colocação nos processos internacionais do pós-guerra. A pergunta geral de Gramsci era se o pós-guerra do século XX podia seguir um desdobramento paralelo ao do século XIX, no sentido de um paralelo entre a expansão da revolução burguesa e a da revolução socialista. Esta pergunta abarcava diretamente o problema da capacidade e das possibilidades hegemônicas da URSS: a este propósito, a visão de Gramsci tornou-se claramente pessimista e negativa em 1932-1934. O sentido último das suas linhas de investigação e raciocínio parece ser que a Rússia pós-revolucionária não era capaz de desempenhar aquele papel de Estado hegemônico que, a seu juízo, fora desempenhado no século anterior pela França pós-revolucionária. O signo da “revolução passiva” também dominava a evolução da URSS: este parece o atormentado ponto de chegada do pensamento de Gramsci sobre a experiência soviética e também o caráter original da sua visão, em comparação com outras visões críticas do tempo, nascidas dentro do comunismo e do socialismo internacional.

Nem por isso se deve perder a ligação do pensamento de Gramsci com a tradição bolchevique. Depois da morte de Lenin, Gramsci não estabeleceu uma relação unívoca com nenhuma das correntes nas quais se dividiu o bolchevismo, mas também jamais se afastou completamente das categorias de pensamento bolchevique. Sua visão da NEP como sistema de equilíbrios, desenvolvida nos Cadernos, apresentava uma evidente inclinação “bukhariniana”, além de uma óbvia derivação dos últimos escritos de Lenin, e se nutria de uma concepção da dialética interna de partido de clara matriz trotskista. Nos anos de cárcere, Gramsci se mostrou consciente do núcleo bonapartista ativo no pensamento de Trotski, mas também viu em Bukharin o espelho de uma ideologia oficial retida na fase “econômico-corporativa”. Não menos multiforme parece sua relação com as concepções internacionais do bolchevismo. Gramsci revelou uma sintonia evidente com Bukharin em torno da ideia de que fosse de fato possível conciliar o processo de State building soviético com um papel ativo do comunismo internacional, num horizonte delineado em torno da centralidade da URSS, mas ancorado na tradição revolucionária. Mas sua interpretação do “socialismo num só país” não limitava o papel do movimento comunista à defesa da URSS e assumia como critério essencial de avaliação a capacidade de exercer uma hegemonia ideal. Por isso, a orientação isolacionista da URSS e a orientação sectária do Komintern, sob a direção de Stalin, tinham de parecer a Gramsci no cárcere a efetivação de um perigo já apontado.

Exatamente em relação a esta problemática, no entanto, Gramsci devia se afastar das referências originais, na tentativa de explicar as características básicas da evolução da URSS sob Stalin. Depois de 1929, seu pensamento não seguiu nem o percurso de Trotski, estruturado em torno da categoria de “degeneração”, nem o de Bukharin, até o fim inclinado a apresentar a ditadura de Stalin como uma resposta necessária ao contexto internacional. Em vez disso, a crítica de Gramsci contra a virada ditada por Stalin no final dos anos 20 apresentava a centralidade do nexo interior e exterior: através do prisma de tal interação, viu na Rússia pós-leniniana a ausência das características indispensáveis ao exercício da hegemonia. Não é descabido levantar a hipótese de que a própria elaboração da categoria de “revolução passiva” nos Cadernos, aplicada a todo o pós-guerra, tenha sido influenciada em Gramsci também pela sua avaliação cada vez mais desencantada do papel da URSS. Assim, a dramática questão posta em 1926 não encontrava uma composição, mas gerava apenas uma série de perguntas angustiosas e incômodas, orientadas para uma resposta irremediavelmente pessimista.

Num texto sobre a “utopia bolchevique”, Edward H. Carr indicou nas notas de Gramsci sobre a distinção entre governantes e governados uma “melancólica reflexão”, bastante distante seja do ímpeto ideal dos bolcheviques logo depois da revolução, seja da consciência soviética da época sucessiva. Talvez o célebre historiador britânico acertasse o alvo, mais do que ele mesmo tivesse consciência, acerca da distância psicológica e intelectual que já separava Gramsci no cárcere e o mundo da sua formação.

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Silvio Pons, diretor da Fundação Instituto Gramsci, em Roma, é especialista em temas da história do comunismo e da Segunda Guerra Mundial. Entre seus livros, Berlinguer e o fim do comunismo (2006) e Dicionário do comunismo no século XX (2007).

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Notas

[1] Cf. A. Gramsci. “A crise no partido bolchevique. Correspondência 1926”. In: Id. Escritos políticos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004, v. 2, p. 383-402.

[2] Cf., p. ex., Caderno 14, §§ 74 e 76. In: A. Gramsci. Cadernos do cárcere. V. 3: “Maquiavel, notas sobre o Estado e a política”. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000, p. 319-22.

[3] Cf., p. ex., Caderno 8, § 130. In: Id., ib., p. 279.

[4] Cf. Caderno 14, § 68. In: Id., ib., p. 314-5.




Fonte: L'Unità & Gramsci e o Brasil.

UM DIA A CADA DIA

UM DIA A CADA DIA
Alberto Cohen

Hoje é o dia, o único hoje.
O ontem terminou sua missão
e o amanhã é sofisma até tornar-se hoje.
Sobrevivente da noite olha a vida
e abraça-te com ela.
É tua, inteira, como se agora nascesses
sem qualquer pecado original,
somente a esperança a te servir de pele
e os olhos deslumbrados pelo que há de vir.
Lá fora estão castelos e fadas
que podem ser reais,
risadas e soluços que ouvirás pela primeira vez
e o amor que te procura para também nascer.
És de hoje, nas entradas e bandeiras
em busca de sonhos possíveis,
ainda que improváveis.
És, enfim, o primeiro astronauta, no primeiro vôo,
a descobrir se a lua existe ou não.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

O outono do patriarca

O outono do patriarca

Marco Antonio Villa, Folha de S. Paulo, 27/07/09
TENDÊNCIAS/DEBATES


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O presidente Lula tem razão: Sarney não é igual à maioria dos brasileiros. Ainda bem. Quem é Sarney? Ele é o símbolo maior do atraso
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NA PRESIDÊNCIA do Senado, José Sarney conseguiu o impossível: ser pior do que alguns dos seus antecessores, como Antonio Carlos Magalhães, Jader Barbalho e Renan Calheiros, que acabaram defenestrados. Todos negaram as acusações que pesavam sobre eles. Pareciam inabaláveis, tal qual Sarney.
Porém, o velho coronel do Maranhão está conseguindo se manter no cargo por mais tempo do que seus velhos amigos. Afinal, como disse o presidente Lula, ele não é igual a nós, ele tem uma história. Lula tem razão: Sarney não é igual à maioria dos brasileiros. Ainda bem. Quem é Sarney? José Ribamar Ferreira de Araújo Costa nasceu em 1930, ano da revolução que mudou o Brasil. Paradoxalmente, ele é o símbolo maior do atraso, do passado que nunca passa, da antirrevolução.
Fez a pequena política local até chegar, em 1958, ao Rio de Janeiro, como deputado federal, ainda jovem, eleito pela UDN. Participou pouco dos debates, nunca foi um bom orador. A voz soava mal, as ideias eram ultrapassadas e sem nenhuma novidade, o raciocínio era lento e era pobre sua linguagem gestual. Não tinha nada que o destacasse.
Na grave conjuntura de 1963-1964, raramente apareceu nos debates. Omitiu-se. Preferiu as sombras, aguardando hora mais tranquila. Candidatou-se ao governo do Maranhão em 1965 e venceu com o apoio dos novos donos do poder, os militares. Depois foi para o Senado -e lá ficou por quase 15 anos.
Se consultarmos os anais daquela Casa, raramente veremos Sarney participando de um debate. A sua preocupação central não eram os grandes problemas nacionais, nada disso. Seu pensamento e sua ação política estavam na província. Controlava as nomeações e os recursos orçamentários. Dessa forma, conservou sua força política local graças à influência que mantinha na capital federal.
Mas o coronel era hábil. Não queria ser um novo Vitorino Freire, o mandão que o antecedeu. Buscou dar um verniz intelectual ao poder discricionário que exercia na província. Isso pode explicar a publicação de romances e contos, a entrada para a Academia Brasileira de Letras e o estabelecimento de amplo círculo de relações sociais com intelectuais e jornalistas.
No Sul do país mostrava seu lado cosmopolita, falando de poesia e filosofia. Na província voltava ao natural, não precisava de nenhum figurino: era o senhor do baraço e do cutelo. Que digam os oposicionistas -e foram tantos- que sofreram a violência do mandão local. Lá, durante mais de 40 anos de poder, o interesse público nunca esteve separado do interesse da família Sarney e de sua parentela.
Por um acaso da história, acabou presidente da República. Durante os comícios da Aliança Democrática, em 1984, ficava escondido no palanque. Quando era anunciada a sua presença, era vaiado impiedosamente. Afinal, servira fielmente o regime militar por 20 anos.
A sua Presidência foi um desastre completo. Três planos de estabilização econômica. E todos fracassaram. Terminou o governo com a inflação próxima de uma taxa de 100% ao mês. Omitiu-se quanto aos principais problemas. No ocaso do governo foi instalada no Congresso Nacional uma CPI para apurar casos de corrupção, com graves acusações à gestão presidencial e a sua família, em especial seu genro, Jorge Murad.
O desprestígio era tão acentuado que nenhum candidato às eleições presidenciais de 1989 -e eram mais de uma dúzia- buscou seu apoio. Mas o oligarca sobreviveu. Buscou um mandato de senador no recém-criado Amapá. Precisava como nunca da imunidade parlamentar.
O tempo passou e a memória nacional foi se apagando, como sempre. O oligarca, em uma curiosa metamorfose, transformou-se em estadista. Encontraram até qualidades no seu período presidencial. Não tinha sido um indeciso. Não, nada disso. Fora um conciliador, avalista da transição para a democracia.
No governo Lula, mandou mais do que na sua Presidência. Conseguiu até depor o governador Jackson Lago, que teve a ousadia de vencer nas urnas a sua filha. A sua cunhada, presidente do TRE, anulou a eleição e, pior, obteve a chancela do TSE.
Contudo, não há farsa que perdure na história. O que foi revelado pela mídia nacional não é nenhuma novidade para os maranhenses. Lá, o rei está nu há muito tempo.
No encerramento do semestre legislativo, Sarney discursou para um plenário vazio. Não houve palmas ou apupos. Desceu e caminhou pelo corredor, silenciosamente. Nas galerias não havia um simples espectador. O velho oligarca estava só. Parou e, como se dissesse adeus, dirigiu-se para seu gabinete: a tragicomédia está chegando ao fim.

MARCO ANTONIO VILLA, 54, é professor de história da UFScar (Universidade Federal de São Carlos) e autor, entre outros livros, de “Jango, um Perfil”.

Renan e Collor discutem com Simon no Senado

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

O Parteiro Ausente

O Parteiro Ausente


Em 1930, nasceu um Brasil novo por cima do velho. O Brasil agrícola, rural, sem infra-estrutura, exportador de bens primários, deu lugar a um país industrial, urbano, com infra-estrutura e um mercado interno. Nesses últimos 80 anos, aquele novo Brasil ficou velho. Seu crescimento depredou a natureza, exigiu ditadura e concentração da renda, criou uma sociedade desigual e violenta, com corrupção endêmica e uma moeda desvalorizada, sua indústria mecânica ficou desatualizada para a realidade da economia do conhecimento.

Um novo Brasil quer e precisa nascer sobre este que ficou velho. Um Brasil com economia baseada no conhecimento, em equilíbrio com a natureza, distribuidora de sua renda e outros benefícios; sem pobreza, sem violência, sem corrupção. Uma sociedade republicana. Foi com a esperança de ter um parteiro para esse novo Brasil que os eleitores votaram e elegeram Fernando Henrique e Lula. Havia no ar a necessidade de um novo Brasil e precisávamos de líderes que o fizessem nascer.

Passados quatro mandatos desses governos, descobrimos que o parteiro está ausente. Esses líderes fizeram as mesmas alianças espúrias com a velha política e seus representantes. Eles próprios, que traziam a esperança, demonstraram estar comprometidos com o Brasil antigo. Preferiram pequenos ajustes no velho.

Conseguiram o fim da inflação e criaram uma rede mínima de proteção, mas nada mudaram na realidade social. Mantiveram o mesmo padrão de crescimento baseado no modelo industrial do século XX, que exige concentração dos benefícios. Conservaram privilégios, conviveram com a corrupção e a política do passado. No máximo, buscaram acelerar o crescimento do mesmo velho modelo, sem oferecer qualquer reorientação em direção ao Novo.

Não houve inflexão em direção a um crescimento baseado na produção de conhecimento, nem na geração de emprego, baseado na educação. Não houve uma estratégia para a substituição da rede de proteção social por uma escada de ascensão social, nem a definição de um modelo civilizatório definindo limites no uso dos recursos naturais e emissão de resíduos, casando sociedade e natureza.

Mais do que crescer, o Brasil precisa se renovar. Se insistir apenas em crescer, no lugar de se renovar, o Brasil vai estagnar, mesmo crescendo. Continuará desigual, não republicano, com corrupção, violência, cidades degradadas, um país rico para poucos e não civilizado. A história recente já mostrou que nenhum país se civiliza apenas pelo crescimento, sem uma renovação. E que, daqui para frente, não cresce sustentavelmente sem reorientar sua maneira de produzir. Mostrou também que a redução da desigualdade social, e a construção de uma sociedade republicana, pacífica e livre de corrupção, passam pela educação de qualidade para todos. O Brasil velho dispõe do potencial econômico e financeiro que permita a mudança de rumo para a construção de uma república democrática.

O mais grave é que em breve teremos novas eleições presidenciais, que elevarão para vinte ou vinte quatro os atuais dezesseis anos de mandatos, sem esperança de uma proposta de renovação. Porque o debate que se prevê entre os candidatos será sobre como acelerar o velho Brasil, e não como renová-lo. Os dois candidatos aparentemente já escolhidos discutirão quem oferece maior taxa de crescimento da mesma antiquada, perversa e depredadora economia em direção ao abismo social, moral e ecológico, e não quem oferece um ângulo de inflexão para dobrar outra esquina da história em direção à modernidade que o século XXI aponta: economia do conhecimento, distributiva socialmente e equilibrada ecologicamente. Caminhamos para eleger qual será o melhor mecânico para consertar e acelerar o velho Brasil, e não qual será o parteiro para concertar e reorientar um novo Brasil.

Tudo indica que em 2010 o parteiro vai ficar ausente até mesmo na própria eleição. Como se já estivéssemos tão acostumados com o velho Brasil que não percebêssemos a necessidade de um novo querendo nascer.



Cristovam Buarque é senador (PDT-DF)

A chegada dos homens a Lula