quarta-feira, 19 de junho de 2013
Luiz Carlos Prestes no Jô Soares em 1988 - Parte 1
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sábado, 15 de junho de 2013
Stalin — Legendado 3º parte
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Stalin — Legendado 2º parte
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Stalin — Legendado 1º parte
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sábado, 18 de maio de 2013
Corría el año: Reagan en La Casa Blanca
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quarta-feira, 3 de abril de 2013
Nós e Eles
Não estou entre os que vêem o mundo e realidade social e política sob as lentes do maniqueísmo.[1] Resisto à concepção dualista que reduz a complexidade do real à oposição entre o bem e o mal. O humano é um ser não redutível ao raciocínio maniqueísta. A história da humanidade demonstra que os bons, que se vêem como os justos, cometeram atrocidades. O mal mora no coração e nas mentes dos bons e ninguém é absolutamente bom ou mal. A depender das circunstâncias somos capazes de atitudes que não imaginamos e não nos reconhecemos. A nossa bondade pode causar muitos estragos, ainda que involuntariamente.
A história também comprova que meios considerados maus podem gerar bons resultados. O movimento da história é dirigido pela violência. Como diria o filósofo da práxis, a violência é a parteira da história. No entanto, ela é cruel e sangrenta. Consome almas e corpos; causa sofrimentos, dores indescritíveis e deixa marcas nos que sobrevivem. Não obstante, para o bem ou para o mal, a violência transforma o mundo. Só os ingênuos, os candidatos à beatificação e os que vivem com a cabeça nas nuvens não reconhecem este fato. Os profetas desarmados sucumbem. Se refletirmos bem, mesmo as religiões que afirmam o bem contra o mal foram regadas com sangue e padecimentos. Estudemos, por exemplo, as origens e evolução do cristianismo!
É a dialética da contradição humana. Somos seres contraditórios e talvez o maniqueísmo seja uma espécie de porto seguro. Quando estabelecemos muros que separam os “bons” dos “maus”, os “puros” dos “impuros”, invariavelmente nos colocamos do lado dos “bons” e dos “puros”. Isto nos dá segurança, sentido à vida e apazigua as nossas consciências. E aos que acreditam nos céus, alimenta a esperança de que serão salvos. Não esqueçamos que também o maniqueísmo é uma construção humana e corresponde às necessidades do ser no mundo. É compreensível.
A politização do ideário maniqueísta é um problema. A dialética é derrotada e substituída por dualismos que beiram a irracionalidade. Os “bons” e os “maus” são definidos a partir de critérios morais, à maneira religiosa, e o maniqueísmo é instrumentalizado para definir lados como absolutos. Amigos versus inimigos, nós contra eles. Ora, a divisão dual é incapaz de explicar a heterogeneidade entre os “nossos” – e pode nos fazer crer, erroneamente, que não há diferenças entre eles.
Contudo, é preciso escolher um lado. A neutralidade é uma doce ilusão e o apolitismo é próprio, como diria Brecht, do analfabetismo político. Há muito que escolhi o meu lado e, apesar das crises, da queda dos muros ideológicos (ainda bem!) e das decepções políticas, ainda me identifico com a escolha que fiz. Politicamente, estou com aqueles que lutam contra as injustiças geradas pela sociedade capitalista. São os libertários e marxistas, mas também os cristãos da teologia da libertação e/ou que assumem posições políticas à esquerda. Sim, estou entre os que se identificam com os princípios e valores ideológicos da esquerda. Somos “nós” contra “eles”.
Não é a rendição ao maniqueísmo, muito pelo contrário. Há muito superei a fase em que acreditava que estava entre os “bons” contra os “maus”. Tenho clareza de que o nosso lado, como o deles, é composto por seres humanos imperfeitos. Sei que os meios e fins de muitos dos “nossos” são profundamente autoritários. Se tomassem o poder político, eu estaria na oposição de esquerda em defesa da liberdade de expressão e de crítica. Muitos dos “nossos” também são corruptíveis e não vacilariam em perseguir os “inimigos” da nova ordem. Sou parte do “nós”, mas sem ilusões em suas utopias autoritárias e meios que contradizem os fins almejados, tão retoricamente enfatizados!
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[1] A filosofia maniqueísta surgiu na Babilônia e Pérsia no século III. O seu fundador foi o profeta Mani (ou Manés).
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Socialismo e individualidade
Chris Harman
Um argumento muito utilizado pelos defensores do capitalismo para tentar desacreditar o socialismo é o de que este destruiria a individualidade e reduziria tudo a uma conformidade sombria. E, por tabela, tentam passar a idéia de que o capitalismo proporciona para as pessoas vidas variadas e excitantes.
Nada poderia ser mais distante da verdade. O capitalismo proclama a individualidade como uma das suas virtudes mais elevadas. Fala-se de "liberdade de escolha", de se poder comprar qualquer produto desejado.
Isto é uma ilusão. A escolha que nos é oferecida é comprar os produtos semelhantes das multinacionais que dominam o mundo - McDonald ou Burguer King, Levi´s ou Wrangler, Pepsi ou Coca-cola. As ruas principais de quase todas as cidades médias são praticamente idênticas entre si, oferecendo os mesmos bens de consumo.
A maioria das pessoas usam roupas parecidas, comem comidas semelhantes, fazem compras nos mesmos lugares, dirigem carros praticamente idênticos, e vivem em casas ou apartamentos semelhantes. Este é um processo que está acontecendo no mundo todo, com o crescente controle das corporações globais. Também se baseia em quanta "liberdade de escolha" as pessoas dispõem para comprar. A individualidade está reservada para muitas poucas pessoas - a minoria que possui e dirige as enormes empresas que dominam a economia. Dos demais espera-se que trabalhem para essas empresas, realizando trabalhos monótonos em linhas de montagem ou escritórios, dos quais se exclui o máximo possível de individualidade.
De fato, o capitalismo só poderia desenvolver-se, em primeiro lugar, destruindo deliberadamente a individualidade de seus trabalhadores. Quando as primeiras fábricas se desenvolveram na Inglaterra, a classe capitalista teve a intenção de “igualar” ao máximo os seus trabalhadores. Eles eram forçados a considerar o trabalho como o único objetivo de suas vidas, a sacrificar os seus pequenos prazeres pessoais ao trabalho interminável.
No capitalismo moderno este processo foi levado a cabo com maior intensidade. Nas escolas o que importa não é como uma criança aprende a desenvolver as suas capacidades individuais.
Ao invés disso, as crianças são medidas, uma contra a outra, em exames e provas cada vez mais numerosos. Esses exames sempre são prestados com base em uma única escala, como se os seres humanos não fossem diferentes de batatas, só diferindo no peso.
O que é interessante é que os oponentes mais francos da uniformidade “socialista” são normalmente as mesmas pessoas que insistem para que as crianças vistam o mesmo uniforme escolar e tenham o mesmo comportamento “disciplinado”. Nas fábricas empregam-se pessoas especialmente destinadas para assegurar que as pessoas realizem seus trabalhos de modo eficaz e apóiem política da empresa.
Recursos volumosos tem sido investidos para desenvolver falsas ciências de mensuração de trabalho e relações industriais, em um esforço para destruir mais ainda a individualidade dos trabalhadores.
As coisas não são diferentes para a maioria das pessoas das classes médias. O leitor típico do “Jornal da Tarde” pode se enfurecer sobre a necessidade de proteger o indivíduo, mas é provável que o seu estilo de vida seja idêntico ao de centenas de milhares de outras pessoas, vivendo em casas suburbanas semelhantes, expressando as mesmas idéias, trabalhando em escritórios semelhantes, e indo ao trabalho em carros, ônibus ou trens quase iguais. Se a monotonia e a uniformidade caracterizam o capitalismo, como as pessoas adquiriram a idéia de que sejam características do socialismo?
Um processo de estrangulamento do desenvolvimento individual marcou os países que se reivindicavam socialistas, como a União soviética ou a China. A imagem popular do socialismo como um regime onde todos usam roupas semelhantes vem das práticas dos regimes stalinistas antidemocráticos. E isso não porque esses países tenham sido ou sejam socialistas. Eles nunca o foram.
Mas é porque os grupos burocráticos dominantes que dirigiram essas sociedades tentaram fazer o mesmo que os capitalistas fizeram no Ocidente. Quiseram desenvolver as suas economias o mais rapidamente possível, sujeitando os padrões de vida dos trabalhadores a esse imperativo, para que assim pudessem competir com o Ocidente e também entre si. A verdadeira individualidade, o desenvolvimento pleno e completo das capacidades distintas do indivíduo, só será possível em um tipo de sociedade completamente diferente.
Teria que ser um mundo no qual o indivíduo e a sociedade já não seriam opostos um ao outro. As pessoas já não competiriam entre si, e não estariam sob a pressão de trabalhar mais e mais.
O mundo moderno cria uma enorme quantidade de riqueza, mas está perdido na competição cega entre empresas e estados rivais. Nas suas tentativas de vencer essa competição, essas empresas e estados exigem controles cada vez mais rígidos e maior exploração sobre os trabalhadores.
A verdadeira individualidade humana só será possível quando os trabalhadores se unirem internacionalmente, quando utilizarem o seu poder coletivo para destruir as classes capitalistas e reorganizar a sociedade de forma que ela se baseie na satisfação das necessidades humanas, e não sobre as demandas da competição capitalista.
FONTE: REVOLUTAS
SITE: http://www.revolutas.net
PUBLICAÇÃO: 16/03/2005
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domingo, 17 de março de 2013
Lula. Um grande retrocesso
A tese de Galileu punha por terra esse milagre uma vez que o sol nunca se moveu como pretendia o “infalível” livro sagrado. Chegar-se ao extremo de dizer que Deus não existe, a esse público de beatos e beatas, seria provocar profundas reações e gestos de persignações para protegê-los contra tão “absurda heresia”.
Não são somente os crédulos de diversas religiões, os fanáticos e fundamentalistas, que são capazes de sacrificar a própria vida como fazem os islâmicos sectários e outrora fizeram os mártires cristãos. Na política também vamos encontrar legiões e legiões de beatos, de fanáticos, capazes de grandes sacrifícios em torno dos seus credos, porém, incapazes de cometer a “heresia” de pôr as suas “convicções” em dúvida.
Não foi à toa que Nietzsche disse: a convicção é mais grave do que a própria mentira. Enquanto isso, o pensador socialista Karl Marx nos legou a afirmação de que a dúvida é o principio da sabedoria. Dessa forma, os credos, que impossibilitam os necessários questionamentos, são responsáveis por todo tipo de estreitezas no pensar.
O stalinismo, por exemplo, criou uma vasta legião de beatos, seguidores de credos completamente insustentáveis. De forma romântica, chegou-se a acreditar na existência de uma classe operária imune à corrupção e uma classe burguesa de degradados. A realidade tem demonstrado que o processo de degradação e corrupção, levado a cabo pelo sistema capitalista, tem atingido não só a classe burguesa como também ao tão festejado proletariado que se deixa corromper em troca do um fogão, de uma geladeira, de um som, de uma modesta casa, de um aparelho de televisão, de um automóvel, que o sistema capitalista lhe proporciona, ao mesmo tempo em que promove bons negócios e não esquece de fazer um eficiente trabalho de cooptação política dizendo: veja, o capitalismo é bom, e nos seus marcos poderemos progredir, basta acreditar.
A questão, porém, não se reduz somente ao citado credo quanto ao incorruptível proletariado. Outros tantos foram difundidos e amplamente propagandeados, embora não dispusessem do menor fundamento. Lemas do tipo: “o campo cercando a cidade” ou a “guerra popular e prolongada” agregou legiões e legiões de seguidores que se negavam a colocar em discussão esses postulados. Quando alguém, na época, ousadamente dizia: Mao Tse-Tung é apenas um sub-marxista confuciano que praticou os métodos e as concepções do stalinismo, era objetado com o seguinte argumento: “não sei, mas Mao Tse-Tung liderou uma das maiores revoluções socialistas no mundo e hoje é o maior líder de massa”.
Não se atentava para o fato inequívoco de que a “vitória” não isenta uma posição política de seus erros ou mesmo de suas extravagâncias como foi o caso do “vitorioso” Hitler e do seu tresloucado nazismo, expressão insana da contra-revolução extremada. E observe-se que Hitler foi vitorioso através dos votos lhe foram conferidos pelas massas populares, incluindo-se aí, o proletariado alemão.
Não eram apenas os devotos e beatos do stalinismo ortodoxo que se negavam a enxergar a realidade política e, por essa razão, cometer “convictamente” grandes erros. Veja-se a grande, ou mesmo imensa legião de beatos, seguidores do credo patrocinado pelo stalinismo kruchevista que propunha o chamado “caminho pacífico para o socialismo”, proposta essa que por ser inviável nos conduziu a inúmeras e desastrosas aventuras, destacando como exemplos o golpe de 1964, no Brasil; o golpe em 1965, na Indonésia de Sukarno e, o Chile de Allende, em 1973; depois dessas tragédias, decorrentes desses equívocos, o silêncio. Ou seja, a velha prática de colocar-se os seguidos e desastrosos insucessos para debaixo do tapete.
Considerando a história nesses últimos noventa anos de hegemonia do stalinismo através dos seus mais diferentes vieses, não podemos, a bem da verdade, deixar de assinalar que, o trotskismo floresceu como uma das vertentes desse stalinismo quando assumiu todos os defeitos e desvios do velho bolchevismo expressos: no monolitismo, no partido único, no ultra-centralismo, no culto à personalidade e na prática da distorção da história como arma política.
Não podemos, assim, deixar de registrar que, de fato, existiram dois Trotskys. O primeiro, o não bolchevique, que se revelou um dos maiores quadros do marxismo quando produziu, além de outros textos, a genial tese da revolução permanente e de ter criticado com veemência e fundamentação a equivocada concepção de partido de Lênin. O segundo Trotsky, aparece quando ele adere ao bolchevismo, em 1917. Para compensar a desconfiança que pesava sobre ele por sua condição de recém-convertido, empenhou-se em mostrar-se mais realista do que o rei, encampando e patrocinando uma política que, em última instância, estabeleceu as bases organizacionais para a consolidação do stalinismo. O segundo Trotsky empenhou-se em se mostrar um eterno leninista e isso não era verdade.
Derrotado pelo stalinismo ortodoxo, Trotsky tornou-se patrono da tese incorreta de que o stalinismo, ao invés de produto da derrota da revolução mundial, deu-se após a morte de Lênin por vias das maquinações, intrigas e golpes baixos perpetrados pela sinistra figura de Joseph Stalin. Esse raciocínio é de natureza estritamente moralista e como sabemos, o processo histórico é totalmente amoral. Em muitos episódios, a história bafeja canalhas, facínoras ou charlatães e em outros momentos, pune com cruel rigor personagens dotados de boa fé e portadores de conduta ilibada.
O trotskismo também produziu uma legião de beatos, pessoas acríticas, prontas a reverenciar a sua imagem e dispostas a defender o argumento de que se fosse Trotsky o sucessor de Lênin a história teria tomado outro rumo, e isso é super-valorizar o papel do indivíduo na história, desconhecendo que “o homem faz a sua história mas não a faz de acordo com sua vontade” princípio basilar do socialismo científico.
Feitas essa observações que avaliamos oportunas, pois tentam desconstruir essa tão milenar herança do seguidismo acrítico responsável por tantos e quantos equívocos e tragédias no transcurso da historia da humanidade, firmemos a necessária compreensão de que o movimento socialista tornou-se uma sucessão de incontáveis derrotas.
Tivemos a derrota da Comuna de Paris em 1871, e sobre ela, foi sabiamente dito que “os trabalhadores pretenderam tomar os céus de assalto”, ou seja, não existiam as condições objetivas para o advento do socialismo, naquele momento histórico.
Com o advento do imperialismo deram-se as chamadas condições objetivas para que do seu seio brotasse a revolução socialista. O imperialismo apresentou-se como a antessala da transformação social. Entretanto, essa transformação só poderá se dar através do embate político.
Os países da Europa Ocidental somavam maiores condições objetivas e de organização das massas trabalhadoras como pre-requisitos fundamentais para o advento de uma nova ordem econômica e social. Por essa razão, foi justamente nesses países que se travou o grande embate entre o projeto de insurreição socialista e o projeto imperialista de levar a cabo a guerra como meio de enfrentar as suas contradições.
Para fazer a guerra a burguesia precisava derrotar o discurso socialista e transformar os partidos operários em partidos social-patriotas e ela obteve pleno êxito nesse embate, e os velhos partidos socialistas sofreram um profundo processo de transmutação, tornando-se linhas auxiliares de diversos grupos burgueses.
A vitória da Revolução Russa, em 1917, liderada pelos bolcheviques, trouxe, como temos dito, exaustivamente, esperança de que esse processo de derrotas seria revertido, mas tal esperança durou pouco e a URSS, junto com a Terceira Internacional vieram a se converter nas maiores forças anti-socialistas do mundo e, a partir daí, sucederam-se as derrotas e hoje nos encontramos no momento mais profundo desse processo quando o imperialismo goza uma quase absoluta hegemonia. Quem hoje ameaça o imperialismo? O fascismo teocrático iraniano? O facínora Bin Laden? O Coronel Hugo Chávez com suas bravatas? Ora, todos eles estão possuídos de um anti-americanismo tacanho, mantendo larga distância do necessário anticapitalismo que não tem fronteiras e conservando esse nacionalismo pernicioso legado perverso do velho stalinismo que contaminou os partidos ditos comunistas e socialistas mundo a fora, deixando de lado o princípio da luta de classes.
A esquerda, desfigurada, indigente, social-patriota descambou para os estreitos limites do nacional-reformismo. Enveredou pela velha tese do socialismo evolucionário, ou seja, do caminho gradualista. Colocou na cesta do lixo o conceito de Estado e passou a corroborar com o discurso burguês de que o Estado é do povo, decorrendo daí a infame distorção estatista da esquerda, que termina por bradar a inverdade de que existe uma dicotomia entre o “público” e o privado, esquecendo, ou fingindo esquecer, que o Estado é de classe.
Escondem que o estado burguês é um instrumento a serviço da sustentação do capitalismo e as provas disso são cabais e infindas ressaltando-se, por ser bastante elucidante, a atitude recente dos ricos Estados burgueses que vieram em socorro dos banqueiros norte americanos injetando mais de um trilhão de dólares para salvar o sistema. Aqui, no Brasil, tivemos um exemplo menor quando foi criado o PROER, para injetar dinheiro “público” nos bancos nacionais e, assim, evitar uma crise em cadeia.
O socialismo evolucionário, gradualista, além de passar ao largo quanto à natureza do Estado, impinge a falsa idéia de que logrando colocar um ou outro companheiro na máquina estatal burguesa representa alguns passos rumo à gradual vitória de um projeto socialista. Imbuídos desse pensamento, não tendo clareza da diferença essencial entre governo e poder, ou melhor, imaginando que as conquistas de governos representam passos para a conquista do poder, empenharam-se em levar o grande líder metalúrgico Luis Inácio Lula da Silva à Presidência da República.
Porém, para lograr essa “vitória”, o nosso metalúrgico teve que deixar bem claro, através de sua famosa “Carta ao Povo Brasileiro” cujo destinatário real era a grande burguesia nacional e internacional, que ele, se eleito, haveria de respeitar os fundamentos da política financeira impostos pelo Plano Real vindo pelas mãos de Itamar Franco e FHC. Em outras palavras, ele deixou claro que a burguesia não necessitava temer, pois o leão era mansinho.
Dessa forma, Lula e seu partido tiveram que renunciar aos interesses históricos das classes trabalhadoras para se colocarem como instrumentos confiáveis e competentes a serviço dos interesses do sistema capitalista e isso eles fizeram de forma genial. O governo Lula cooptou uma massa de miseráveis através do “Bolsa Família” a custos módicos. Cooptou as centrais sindicais e estudantis por uma bagatela, caso comparemos as cifras das propinas aos altos lucros auferidos pelo capitalismo nacional e internacional. Transformou uma legião imensa de militantes, presumidamente de esquerda, em agentes remunerados a serviço do Estado, o que significa dizer, a serviço da burguesia.
Por essas e algumas outras razões, é que o nosso Luis Inácio Lula da Silva foi proclamado o “estadista do ano” pela cúpula do capitalismo internacional, em Copenhague. Foi por essa mesma razão que Barack Obama, liderança maior do capitalismo, aclamou Lula como: “o cara”.
Façamos empenho para que o lulismo não venha se tornar a versão brasileira do velho peronismo argentino. O peronismo argentino liquidou com o sindicalismo combativo, liquidou com a vida política na perspectiva da transformação e reduziu a Argentina a uma situação de permanente crise, sem que haja organizações socialistas de peso que apontem para uma política de transformação social. O peronismo reduziu a vida política a pó e esse mesmo perigo está prestes a ocorrer no Brasil, caso se consolide o lulismo, e o ultimo processo eleitoral deixou bem claro o completo rebaixamento ou mesmo a ausência, quase absoluta, da discussão política.
Acrescentamos, por julgar oportuno, que sendo o Estado burguês um instrumento a serviço do capitalismo, não caberá a nós, socialistas, administrá-lo. Administrar o estado burguês é tarefa histórica da classe burguesa e de seus políticos. Para os socialistas a missão que se coloca é outra: é a missão de denunciar o capitalismo, desconstruir os discursos enganosos da burguesia e da esquerda direitosa e implementar as lutas em busca da superação do capitalismo pelo socialismo, evitando a tragédia.
Não se imagine que se pode servir a dois senhores e quando Lula se apresenta como uma figura que serviu e serve simultaneamente a burguesia e aos trabalhadores ocorre que um dos dois lados está sendo enganado e, com toda certeza, não é a burguesia a vítima desse engodo.
Sabemos que as nossa colocações tendem a parecer heresias diante da imensa legião de beatos que até se esforçam em se manter enganados, fiéis à musiquinha que diz: “me engana que eu gosto”. Contudo, estamos convencidos de que somente a proclamação da verdade, a desconstrução do embuste, da fantasia, das ilusões será possível encontrarmos o caminho capaz de permitir que se evite seja a humanidade arrastada para a destruição da vida que o capitalismo, caso permaneça, nos conduzirá.
Assim sendo, cabe concluir o quanto o lulismo foi e é um atraso para a causa socialista, e mais será caso venha se consolidar, como veio a acontecer com o peronismo na Argentina, conforme fizemos referência.
Não nos passa despercebido que o momento histórico é outro, mas alertamos para o fato de que não se trata de diferenças essenciais, de diferenças de substância, mas, tão somente, de diferenças formais, de graus e, portanto, subalternas à realidade essencial, que permanece, nos seus fundamentos, igual àquelas vistas na Argentina e alhures, enquanto permanecer o capitalismo.
Reafirmamos. A vitória eleitoral de Lula, representou um grande retrocesso na medida em que fez valer para amplos setores de esquerda e para as massas populares, o discurso burguês de que o capitalismo é viável, se bem administrado. Isso é totalmente falso. Lula impôs um grande retrocesso à causa socialista quando corrompeu as centrais sindicais e estudantis, enquanto imobilizou os movimento populares, através de políticas assistencialistas que se prestam a oferecer migalhas aos povo, para assegurar a paz social necessária aos negócios do sistema. Em nome da governabilidade, Lula, que nunca houvera se aliado ao PMDB ideológico de Ulysses, Montoro, Mario Covas, Tancredo, estabeleceu uma íntima aliança como o PMDB fisiológico de Sarney, Barbalho, Calheiros, Romero Jucá e outros bandidos da chamada vida pública. Não bastasse, Lula acobertou vários episódios de corrupção e outras indecências praticados por eminentes figuras do seu partido. No seu nascedouro, o PT se dizia um partido que levaria adiante uma forma diferente de fazer política, entretanto, esse propósito não se confirmou na prática e o PT caiu na vala comum do oportunismo, da demagogia e do fisiologismo.
Não é, porém, a primeira vez na história que o capitalismo se utiliza de lideranças operárias para seus propósitos. O grande líder metalúrgico polonês, Lech Walesa, foi manipulado pelo grande capital, com as bênçãos papais, para liderar o movimento de pleno restabelecimento do capitalismo na Polônia. Walesa, como Lula, liderou movimentos grevistas em momentos de ditadura, tanto na Polônia como no Brasil. A burguesia, com certeza, haverá de construir um ou outro monumento em homenagem a essas tão prestáveis figuras, ou talvez, os releguem ao esquecimento o que seria um ato de cruel ingratidão.
Gilvan Rocha
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segunda-feira, 10 de outubro de 2011
(2 6) El Comunismo - La Revolución de Lenin Cap (1 3)
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sábado, 20 de agosto de 2011
A viagem (quase) redonda do PT
Luiz Werneck Vianna - Jornal de Resenhas
Com a expressão “viagem redonda”, metáfora-síntese do seu clássico os Donos do Poder, Raymundo Faoro queria aludir às grossas linhas de continuidade que, segundo a sua interpretação, dominavam o processo de formação histórica brasileira da colônia ao nosso tempo. Na sua explicação, tal continuidade se deveria a um fator estruturante desse processo – o patrimonialismo na ordem estatal centralizada –, nunca removido, e que, a tudo superior, se imporia como um desígnio da Providência na reprodução da vida social.
A ação da Providência nos negócios humanos é objeto de um pequeno ensaio de Hanna Arendt, “De Hegel a Marx”, contido em "A Promessa da Política" (Difel), em que confronta as posições desses autores sobre o assunto. Neste pequeno e brilhante texto, ela sustenta que só existiria uma diferença essencial entre Hegel e Marx: enquanto Hegel teria projetado sua visão histórica mundial exclusivamente para o passado, deixando sua consumação esbater-se no presente, Marx, contrariamente, a conceberia no sentido do futuro, compreendendo o presente como “simples provedor”.
Transformar o mundo
Não haveria mais porque interpretar o mundo, pois os filósofos, diz Marx na 11ª. tese sobre Feuerbach, já fizeram isso – exemplar a obra de Hegel –, cabendo, agora, transformá-lo. A ação consciente dos homens já não deveria ser prisioneira da Providência, nem vítima dos ardis com que a história parece se voltar contra as intenções dos humanos, tomando rumos que escapariam inteiramente do seu cálculo.
Estes dois registros – o da Providência e o da “vontade política” – parecem oportunos quando se considera a trajetória do Partido dos Trabalhadores (PT), às vésperas de comemorar seus 30 anos, no governo há quase oito, e que ora se credencia para disputar mais uma sucessão presidencial. Com efeito, o PT nasce, no início dos anos 1980, com destino declarado de ser um agente de ruptura com a herança perversa, sempre renovada em nossa história – “os quinhentos anos” perdidos –, a fim de instituir uma nova fundação para o país. O ator, ao recusar os caminhos da Providência, ele próprio se apresentava como providencial. A interpretação do país estaria feita, o que faltava era a vontade política de transformá-lo.
Oito anos incompletos de governo do PT, no entanto, a “viagem redonda” de seis séculos, de João 1º a Vargas, da metáfora de Faoro, parece retomar seu curso, como se o partido assumisse, inconscientemente, a tradição que pretendeu renegar. Sintomático disso, tanto a acomodação do seu sindicalismo às estruturas da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) como sua atual valorização do nacional-desenvolvimentismo, ideologia da modernização brasileira, cuja forma mais bem acabada se encontra nas formulações do ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros), agência de intelectuais criada, ao tempo do governo JK, como lugar de reflexão sobre os rumos a serem seguidos para os fins de desenvolver o país.
O DNA do PT
De batismo, porém, suas marcas de origem são opostas às da sua maturidade, pois o PT vem ao mundo como contestador da modernização à brasileira, centrada no Estado e em suas agências, e, por isso mesmo, um projeto que teria sua origem em terreno externo à sociedade civil e se realizaria sem o seu controle. Nesse sentido, o PT nasce como uma expressão do moderno, personagem da sociedade civil, e que tem como valor a sua autonomia diante do Estado. O Estado, longe de ser o lugar da representação racional da sociedade, significaria o lugar em que os interesses privados dominantes se apresentariam, em nome da modernização, como de interesse público.
Se o DNA do PT traz o registro das lutas operárias dos anos 1970 contra a estrutura corporativa sindical – daí, o motivo principal da sua aversão à era Vargas –, a teoria que vai animar a sua atuação é bem anterior à sua própria fundação, tendo sido desenvolvida, entre meados de 1950 e 1960, nas obras de alguns dos mais importantes intelectuais e cientistas sociais do país, de que são exemplos, dentre outros, Raymundo Faoro, Florestan Fernandes e Francisco Weffort. As afinidades eletivas entre as práticas do PT e o resultado de suas reflexões levaram muitos desses intelectuais, como é conhecido, a se filiarem aos seus quadros. Weffort foi seu secretário-geral, e Florestan Fernandes, influente deputado da sua bancada na Assembléia Constituinte de 1986.
Florestan, um crítico do ISEB, tinha procurado demonstrar que as coalizões pluriclassistas em que se ancorava o projeto da modernização nacional-desenvolvimentista, ao contrário de viabilizar uma emancipação da vida popular do controle exercido sobre elas pelas elites dominantes no comando do Estado, na verdade, o preservava, além de não tornar a sociedade menos desigual. Weffort, compartilhando o argumento com Florestan, assentava sua crítica, no entanto, no terreno especificamente sindical. Segundo ele, a estrutura corporativa sindical fazia o movimento operário refém do Estado e de suas manipulações populistas, levando-os a declinar dos seus interesses classistas e a abdicar da construção de uma identidade própria.
Mas será, sobretudo, nos trabalhos de Faoro que o emergente PT vai encontrar a maior parte das suas escoras intelectuais. Nosso capitalismo, na sua análise famosa, não teria sido obrigado a remover antigas elites para encontrar passagem para sua imposição. Ele teria sido gerado no ventre do patrimonialismo, preservando-se os monopólios administrados pelo Estado ou concedidos por ele, enquanto os interesses privados teriam sido abafados pela ação onipresente das agências estatais na vida econômica e social. Daí teria resultado um capitalismo politicamente orientado, confundidas as esferas pública e privada, não se revestindo a sociedade civil de autonomia diante do Estado.
“Névoa estamental”
A forma patrimonial do Estado teria ainda envolvido as relações entre as classes sociais em uma “névoa estamental”, travando o processo de formação de identidades sociais fortes e definidas, raiz da debilidade do nosso sistema de representação política e da usurpação da voz da sociedade civil pelo Estado e sua burocracia. Nesse contexto, os movimentos nacional-desenvolvimentistas, mesmo que de inspiração reformista, ao invés de vitalizarem a sociedade, reforçariam ainda mais a presença do Estado – estado-maior do projeto de modernização – e dos interesses econômicos e socialmente dominantes articulados com ele. Da modernização não deveria provir o moderno, que suporia autonomia dos sujeitos na trama do social, e sim heteronomia.
Com maior ou menor intensidade, essas referências cognitivas sobre o estado de coisas no Brasil vão se instalar no código genético do PT, vindo a se combinar com outras influências culturais. Assim com a incorporação de amplos setores provenientes do mundo da catolicidade, avessos à cultura material, e com a de numerosos segmentos da esquerda com história de resistência armada ao regime militar. A presença da esquerda católica trouxe consigo uma valorização da “alma do povo”, da espontaneidade de suas manifestações, e da autenticidade da vida popular, orientações que se demonstraram eficazes no estímulo a vários movimentos sociais, apesar do sentimento negativo que portavam quanto à política e suas instituições.
Com essa configuração heteróclita, sua opção estratégica foi a da conquista do governo – e não do Estado – pela via eleitoral. Contudo, em razão da interpretação que lhe servia de norte, o PT recusava-se a alianças com outros partidos, chegando a negar o seu palanque eleitoral a Ulysses Guimarães, líder das oposições brasileiras ao regime militar, no segundo turno da sucessão presidencial de 1989. Após a terceira tentativa de vencer a sucessão presidencial, essa política mostrou seus limites, e não à toa, em 2002, o empresário José de Alencar veio a integrar a chapa de Lula.
A ida ao centro político, movimento bem-sucedido com a vitória eleitoral, implicou uma inflexão de largo alcance. A conquista do governo não seria compreendida como recurso tático para uma posterior conquista do Estado, em uma trajetória de revolução permanente. O ator declinou do papel de herói providencial e adaptou-se às circunstâncias, com uma forte representação de empresários nos ministérios e a direção da vida econômica entregue a operadores merecedores da confiança do mercado.
História absolvida
Mas, o centro político não se constitui apenas de personagens sociais e políticos. É também uma história e um denso repertório de temas, entre os quais o do papel ativo do Estado na construção do país. Tal mudança de orientação, como natural, não se limitou a repercutir no plano superficial da política, implicando uma revisão nos juízos predominantes no governo do PT sobre o nosso passado, sobretudo no segundo mandato presidencial de Lula, em particular quanto aos governos Vargas e JK. A história do Brasil foi absolvida. Valorizam-se as agências estatais – BNDES, Banco do Brasil, Petrobrás, Caixa Econômica Federal – no papel de indutoras do desenvolvimento econômico, e, com o lançamento do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), o governo se põe à testa de um projeto de modernização.
Mais que mudanças tópicas ou de ênfase, é toda uma forma de Estado que ressurge, em particular no novo papel concedido às corporações e à representação funcional, evidente nas funções delegadas ao Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES). O Estado se amplia com a incorporação de representantes das entidades classistas de empresários e de trabalhadores, e são guindadas à condução de ministérios estratégicos as lideranças das múltiplas frações da burguesia brasileira – a industrial, a comercial, a financeira, a agrária, inclusive estes culaques à brasileira, que começaram a sua história na pequena e média propriedades –, lado a lado com as centrais sindicais e com os representantes do Movimento dos Trabalhadores sem Terra (MST).
Sob essa formatação, instituiu-se um Estado de compromisso entre classes e frações de classes com interesses contraditórios entre si, que passam a ser processados no interior do governo e arbitrados, em casos de litígio, pelo vértice do poder executivo em estilo decisionista. Tem-se, então, no âmbito do Estado a presença de um parlamento paralelo, à margem do sistema da representação política, onde se delibera sobre políticas e se decide sobre a sua implementação. Os conflitos de interesse, na lógica dessa construção, não deveriam se expressar no terreno aberto da sociedade civil, quando tendem a se encontrar com os partidos e as correntes de opinião, e sim restritos a negociações realizadas no interior de agências estatais, evitando-se, desse modo, uma radicalização que viesse a comprometer a difícil convivência entre contrários na fórmula vigente do Estado de compromisso.
O Estado como condomínio aberto a todas as classes traz também para si os movimentos sociais, como os de gênero e os de etnia. Articula-se igualmente com as Organizações Não Governamentais (ONGs), boa parte delas dependentes do seu financiamento, e, por meio de programas de assistência social, como o bolsa-família, vinculam-se diretamente os setores socialmente excluídos. Dessa complexa articulação, apequena-se o espaço para o exercício da política a partir das motivações e expectativas da sociedade civil, inclusive por parte dos partidos políticos, convertidos em partidos de Estado, destituídos de relações vivas com seus representantes. Na prática, a política se reduz a ser mais outro monopólio do Estado, e o fluxo da sua comunicação parece conhecer apenas um sentido: o de cima para baixo.
As forças que deveriam trazer a descontinuidade se tornam as portadoras da continuidade, trazendo de volta a lógica política dos processos de modernização. Com eles, os imperativos de aceleração do tempo, a via de mudanças guiadas pelo alto, e a subsunção do social ao Estado. Dessa vez, porém, a modernização não nos chega de um projeto previamente amadurecido na reflexão e nos embates político-ideológicos, mas dos acidentes do caminho.
Adaptação às circunstâncias
Nos idos de 2003, havia a alternativa da mobilização social de um governo que vinha da esquerda em torno de um programa de reformas políticas, sociais e econômicas, cujo alcance poderia experimentar um leque de possibilidades entre soluções moderadas ou radicais. As radicais, de pronto, no contexto da época, pareciam apontar para uma crise institucional que poderia inviabilizar o cumprimento do mandato. As moderadas, por sua vez, desagradando a gregos e a troianos, comprometeriam a conquista de um segundo mandato.
A opção, como se sabe, foi a adaptação às circunstâncias, garantindo-se uma linha de continuidade com o governo anterior. O êxito imprevisto desse movimento, ao garantir a estabilização do governo, concedeu-lhe o tempo para que, por ensaio e erro, viesse a experimentar, e logo a praticar com evidente sucesso, o antigo repertório da tradição republicana brasileira, e nele os temas do nacional-desenvolvimentismo, do Estado como agente de indução de economia, o papel das estatais e das corporações sociais.
Faoro talvez pudesse dizer que esse movimento de encontro do PT com um capitalismo politicamente orientado não teria sido mais uma “mistificação de cúpula”, uma vez que persistiam as estruturas garantidoras da sua reprodução. A história não deixou de ser irônica quanto ao ator que não soube interpretá-la, e que, vindo do campo do moderno, fez ressurgir a modernização, muitos dos seus personagens e de suas instituições.
De qualquer forma, este ciclo de modernização sob a condução do governo do PT, embora revele, ao tempo em que a consolida, a mesma assimetria nas relações entre o Estado e a sociedade civil nos processos desse tipo, é o mais brando, quanto ao uso de meios repressivos, dentre quantos conhecemos desde o Estado Novo – no governo JK, lembre-se, os sindicatos estavam sob estrita vigilância do Estado, e os trabalhadores do campo viviam sob forte controle social dos proprietários de terras.
Na periferia do mundo são perturbadoras as relações entre o moderno e a modernização. Se esta, da perspectiva de uma agenda democrática, não pode implicar o rebaixamento da autonomia dos seres subalternos, aquele não pode se limitar aos planos cognitivo e ético-normativo, indiferente às questões substantivas. Mas é um argumento senil, anacrônico, o que tergiversa sobre os valores da democracia, da auto-organização do social, e da autonomia do indivíduo em nome de alegadas urgências da questão social. Onde isso prevaleceu –, a história, aí, não é irônica –, não se teve nem o moderno, nem a modernização.
Luiz Werneck Vianna é professor do IUPERJ e autor de Esquerda brasileira e tradição republicana (Revan)
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sábado, 18 de junho de 2011
Capitalismo e Michael Moore: um caso mal resolvido
"Capitalismo: uma história de amor" é mais um ótimo filme de Michael Moore. Mas, o próprio diretor parece ter dificuldades em romper radicalmente com aquilo que denuncia tão bem.
Lançado cerca de um ano após a crise que derrubou a economia norte-americana, o filme tem como alvo principal a ajuda bilionária dada pelo governo americano a bancos falidos.
A crise de 2008 causou a maior quebra de empresas, perda de empregos e aumento da pobreza nos Estados Unidos desde 1929. Moore retrata o desespero de famílias perdendo suas casas e o desemprego causando tragédias pessoais. Tudo isso naquele que é considerado o país mais rico e poderoso do mundo.
O filme mostra como os causadores de toda essa desgraça ainda saíram com lucro. Os bancos receberam 700 bilhões de dólares do governo, sem precisar prestar contas de seu uso. Resultado: as demissões continuaram, os altos executivos mantiveram seus salários milionários e a roleta do cassino de Wall Street ganhou novo impulso.
Apesar de tudo isso, os Estados Unidos vivem uma antiga "love story" com o capitalismo, diz Moore. E ele quer saber por que. No entanto, a própria visão que o cineasta tem do capitalismo parece ser parte da resposta. Algumas vezes, ele dá a entender que o capitalismo já foi bom. Mais precisamente, quando havia maior concorrência. E valores como liberdade e igualdade eram respeitados.
Moore cita pessoas e valores que respeita. É o caso do presidente Franklin Roosevelt e sua "segunda declaração dos direitos", de 1944. O documento, que reconhecia direitos sociais mínimos para todos os americanos, foi anunciado pouco antes de seu autor morrer. Por isso jamais teria sido colocada em prática.
Outra referência positiva para Moore são os "pais fundadores da nação americana". Homens como George Washington, Thomas Jefferson e Benjamin Franklin. Autores da famosa e elogiada Declaração de Independência dos Estados Unidos.
Roosevelt pode até parecer alguém "do bem" entre tantos presidentes estadunidenses diabólicos. Seu famoso "New Deal" melhorou a situação de milhões de trabalhadores em meio à depressão econômica dos anos 1930. Trata-se de um pacote de medidas que geraram mais empregos e asseguraram alguma assistência social para os pobres.
No entanto, a recuperação econômica só veio mesmo com os gastos em armamentos. A entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra reaqueceu a indústria americana. Roosevelt sabia disso e não vacilou em mandar muita gente pra morte na Europa para fazer a alegria de seus amigos industriais.
Além disso, de bonzinho, Roosevelt não tinha nada. Foi ele que deu início à fabricação da bomba atômica. Morreu antes que a terrível arma ficasse pronta. Antes disso, autorizou bombardeios aéreos sobre cidades japonesas que mataram mais civis do que as explosões de Hiroshima e Nagasaki.
Roosevelt também foi o responsável pela construção de campos de concentração em terras americanas. Prisões em que foram jogados mais de 100 mil homens, mulheres e crianças cujo maior crime era sua origem japonesa.
Moore diz no filme que as coisas só melhoraram na Europa, depois da guerra, porque a equipe de Roosevelt foi para lá. Eles teriam sido responsáveis pela adoção de bons serviços públicos na Alemanha, por exemplo. Explicação simplista. O chamado "Estado de bem-estar social" é produto muito mais do medo dos governantes e patrões europeus diante da imagem positiva que os comunistas conquistaram com sua resistência heroica ao fascismo.
Quanto aos "pais fundadores", a independência em relação à Inglaterra que promoveram foi muito mais um movimento de elite em que a bucha de canhão foi o povo. Washington e Franklin estavam entre os homens mais ricos da colônia. Jefferson foi um grande proprietário de escravos. Estes, os índios, os brancos pobres e as mulheres jamais foram objeto da preocupação dos criadores da "grande pátria americana".
Em relação à boa e velha concorrência, nos anos posteriores à independência, cerca 2/3 das terras pertenciam a uns 3% da população. Entre estes, estavam, claro, os queridos "papais" da nação ianque. O nome disso era monopólio já naquela época.
No filme, Moore lê alguns trechos da Declaração de Independência. Cita os princípios de justiça e igualdade que encontra escritos ali. Mas, nada diz sobre um trecho que faz referência aos indígenas como seres "selvagens e impiedosos, que adotavam como regra de guerra a destruição sem distinção de idade, sexo e condições".
Com uma certidão de nascimento como essa não é difícil entender como o capitalismo funciona tão bem em terras americanas. Moore chega a dizer que o capitalismo representa o mal. Não tem como ser regulado. Deve ser eliminado e substituído pela democracia. Ele evita citar o socialismo. Refere-se ao conceito como "aquela palavra que também termina em 'ismo'".
Ao que parece, o cineasta é a favor de algo parecido com o que estaria em vigor na Europa e Canadá. Um sistema público decente. Um Estado que cuidasse também das necessidades e interesses dos mais pobres. É compreensível num país em que defender um sistema universal de saúde pública é tratado como proposta de comunistas ou fascistas.
Mas, o espaço para políticas públicas que realmente atendam os mais pobres é cada vez menor nos aparelhos estatais. E jamais foram tão eficientes e amplos em mais do que uma dúzia de países.
Moore cita as experiências cooperativistas como uma possível saída. É preciso democratizar os locais de trabalho. Permitir aos trabalhadores que controlem a produção, diz ele. No entanto, o nome que se costuma dar para isso é exatamente socialismo.
E a pré-condição para o socialismo é o fim da propriedade privada dos meios de produção. Sem isso, experiências solidárias de produção continuarão a ser marginais. Cooperativas são iniciativas que dificilmente sobrevivem à feroz concorrência capitalista. Ou morrem, ou tornam-se empresas que exploram seus trabalhadores como fazem as outras.
Arrancar dos patrões o enorme controle que têm sobre tais meios somente é possível através da tomada do poder pelos pobres e explorados. Não para reformar o Estado atual nem para montar outro que seja autoritário e centralizador. Mas aí já seria pedir demais para o genial documentarista estadunidense.
Moore já colabora bastante ao expor as mazelas do capitalismo em pleno centro do poder mundial. Quem sabe nosso avantajado amigo ainda se convença de que a tal história de amor sempre foi uma longa novela de terror.
Quem quiser conhecer melhor a história do império americano e das lutas de seu povo deve ler: "A história dos Estados Unidos, das origens ao século XXI", de Leandro Karnal, Sean Purdy, Luiz Estevam Fernandes e Marcus Vinícius de Morais e “Uma história do povo dos Estados Unidos", de Howard Zinn.
FONTE: MIDIA VIGIADA
SITE: http://midiavigiada.blogspot.com/
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sexta-feira, 10 de junho de 2011
Dá dó da esquerda
Lula conseguiu promover o que seu amigo e contemporâneo de poder George W. Bush proclamara como bandeira antes de ser atropelado pelo 11 de Setembro: o conservadorismo com compaixão. Tropicalizado.
A eleição no último domingo do "esquerdista" Ollanta Humala no Peru é prova de que a jabuticaba do lulismo, democrático, capitalista, inclusivo, tornou-se produto exportação, incluindo acessórios como marqueteiros.
Como com Lula, a pegada de Humala é a promessa de inserção de milhões de peruanos miseráveis no fluxo de prosperidade capitalista que tornou o Peru uma das economias mais dinâmicas no mundo.
Humala elegeu-se graças à fragmentação da direita e com o forte apoio das regiões mais pobres do Peru. Afastou-se do venezuelano Hugo Chávez e passou a ter Lula como modelo.
É uma saída pela direita global: a maior crise do capitalismo acabou expondo cristalinamente que o único sistema econômico possível hoje é o capitalismo.
Ninguém duvida que a China avança porque abraça cada vez mais o capitalismo. O mesmo acontece no Vietnã, na Indonésia, até na Índia. Na África, países que adotaram políticas econômicas pró-mercado crescem num ritmo transformador. Nos EUA, os republicanos tomaram o Congresso dos democratas, e o presidente Barack Obama não consegue escapar da imposição dos mercados de equilíbrio fiscal.
Mas é no velho continente, berço do esquerdismo moderno, que as coisas estão mais divertidas.
A esquerda européia está sendo varrida da Europa. Com a vitória da centro-direita em Portugal nesta semana, apenas 4 dos 27 chefes de governo da União Européia são de esquerda ou centro-esquerda. Até na Suécia, bastião do esquerdismo europeu, a direita se consolida.
Dá dó ler o panfleto esquerdóide britânico "The Guardian": a desolação com a onda direitista é tocante, expressa em títulos como "O mundo precisa de um novo Marx" e em questões retóricas como "e o que nós (esquerda) temos para nos manter vivos?"
Ir para o centro é a solução. Hoje só se governa com e para o centro. Mas, no século 21, o centro se deslocou violentamente para a direita. E segue se movendo nessa direção.
Sérgio Malbergier é jornalista.
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domingo, 27 de março de 2011
UMA TESE NADA ACADÊMICA...
Temos repetido com tenaz insistência que a escola, enquanto instituição, prestou-se e ainda se presta a duas finalidades bem distintas: primeiro, preparar pessoas habilitadas para cumprir os diversos ofícios que a nova sociedade de classes passou sofregamente a exigir; a segunda finalidade consiste em consolidar a ideologia que dá sustentação intelectual ao sistema de classes e camadas sociais, difundindo mentiras, fraudes, charlatanismos, engodos, superstições...
Desde o surgimento das sociedades divididas em classes e camadas sociais, existe por parte da maioria dos explorados e espoliados, um incontido desejo de igualdade, justiça e paz. Esse desejo tem sido transferido, regra geral, para um plano transcendental, como temos dito em outras tantas ocasiões com a insistência que se faz necessária.
Não é somente, porém, no campo transcendental que tem se manifestado o desejo de igualdade social. Incontáveis e sucessivos foram os episódios históricos em que se expressaram de forma contundente esse desejo, esse intento. Além dessas manifestações, de caráter prático igualitaristas, tentando fazer voltar à roda da história ao comunismo primitivo. Algumas brilhantes figuras conceberam intelectualmente uma sociedade despida da desigualdade e da injustiça social destacando-se dentre elas a figura de Thomas Morus com o seu consagrado livro “Utopia”.
Ocorreu que as sociedades dividas em classes e em camadas sociais, como é exemplo o escravismo, longe, bastante longe, estavam de se esgotar e assim, permitir o advento de uma nova ordem econômica e social que pudesse ser considerada menos injusta.
Somente com o advento do capitalismo, pós feudalismo, para respeitar obsequiosamente o esquema imposto pela “saudosa” Acadêmia de Ciência da URSS, é que surgem as condições materiais necessárias à construção de uma sociedade de iguais, isso porque o capitalismo permitiu um agigantado desenvolvimento das forças produtivas e o aguçamento delas com as relações de produção. Dito de outra forma, o capitalismo produziu as condições materiais para que o socialismo deixasse de ser um desejo, um querer, uma vontade, um sonho, uma “utopia” para se tornar uma necessidade histórica.
Junto ao surgimento do capitalismo brotaram os movimentos claramente socialistas. Dentre eles cabe destaque a Conspiração de Babeuf, em 1796, portanto sete anos apenas após a radical revolução burguesa na França. A Conspiração de Graco Babeuf ou Conspiração dos Iguais, tornou evidente que estava chegando a hora da revolução socialista, como bem retratam alguns episódios seguintes como foi levante o operário de 1848, na França, para culminar com um grande evento revolucionário - a Comuna de Paris, em 1871 momento em que as classes trabalhadoras desmantelaram o Estado burguês e estabeleceram o poder operário naquela cidade durante 72 gloriosos dias.
Talvez seja oportuno perguntar: por que fracassou a Comuna de Paris? Por que foi derrotada a primeira insurreição operária parcialmente vitoriosa? Ora, esse episódio histórico, por sua relevância, foi estudado e visto com todo rigor pelos socialistas de então. Dentre os motivos do fracasso ressaltou-se a ingenuidade da classe operária, manifestada em muitos episódios que revelava suas vacilações e preconceitos. Por exemplo: os “communards” negaram-se a lançar mão do dinheiro do Tesouro Nacional para pagar seus débitos sob o argumento de que eles eram moralmente “diferentes” e que respeitariam “o dinheiro do povo”. Outro ato de ingenuidade política foi o fato deles se negarem a executar os espiões infiltrados no seu meio prestando serviço à burguesia, pois não haveriam os insurretos de sujar suas mãos com o sangue do inimigo.
Acrescente-se à lista infinda de ingenuidades aquela em que o exército proletário parisiense negou-se a marchar sobre a vizinha cidade de Versalhes para esmagar a contra-revolução que ali se reorganizava com o objetivo de perpetrar um ataque mortal aos insurretos, como veio acontecer, ocasião em que milhares de revolucionários foram sumariamente executados, enquanto outros tantos conseguiram se evadir em busca do penoso exílio.
Mas a grande lição, ou seja, a maior de todas as lições que a Comuna de Paris nos legou, foi extraída pelo pensador alemão Karl Marx, quando disse que o operariado de Paris quis tomar os céus de assalto. Essa afirmação implicava em dizer que não haviam as condições objetivas e materiais necessárias para a construção de uma nova ordem econômica e social. Em outras palavras, diríamos que as potencialidades de progresso do capitalismo ainda não haviam se exaurido e muitas eram as tarefas próprias da burguesia a serem executadas em escala mundial.
Observe-se que enquanto os socialistas de então se debruçavam diante dos mais relevantes episódios históricos para deles tirar os ensinamentos necessários, os nossos marxistas-leninistas-trostikystas não se detiveram, nem se detêm, em analisar com a devida responsabilidade e profundidade os episódios históricos mais significativos, como a República de Weimar, a revolução Russa de 1917, a guerra civil na Espanha, a frente popular do senhor Leon Blum na França, a ascensão do nazi-fascismo na Europa ocidental, a revolução chinesa, a revolução cubana de 1959, o golpe de estado na Indonésia em 1965, o golpe no Brasil em 1964, assim como o golpe de estado no Chile que representou mais uma “aventura” do caminho pacifico para o socialismo.
Voltemos a tratar das comoções políticas do século XIX. Em paralelo a essas comoções, desenvolvia-se um maremoto de polêmicas em busca da elucidação da questão política que a ordem capitalista pôs diante dos nossos olhos. Num primeiro momento surgiu uma plêiade de intelectuais preocupados com a questão social. Foram eles os alquimistas da política chamados de socialistas utópicos. A esses louváveis senhores não faltaram brilho, talento ou genialidade. O que lhes faltara naquele contexto histórico foi o desenvolvimento maior do conhecimento como instrumento imprescindível a fim de que se pudesse construir uma ciência capaz de desfazer “mistérios” e enunciar princípios.
Na Alemanha, saltitava freneticamente de forma abrasadora, a polêmica em torno da filosofia. O grande Georg Wilhelm Friedrich Hegel deixou uma legião de discípulos que se ocuparam em se digladiar em extenuantes debates. Eram eles “os jovens hegelianos”. Dentre essas figuras, destacou-se Ludwig Feuerbach que promoveu um processo de ruptura com o velho hegelianismo, tornando-se célebre a sua afirmação de que não fôra Deus que fizera o homem e sim o homem que fizera Deus. No rastro de tão ousado pensamento desabrocharam dois grandes pensadores alemães: Friedrich Engels e Karl Marx, proclamando que à filosofia hegeliana estava de cabeça para baixo, pois a sua revolucionária dialética apoiava-se num descabido idealismo.
Esclarecendo melhor: o enciclopédico Hegel deixou em evidência que toda a existência manifestava-se pelo permanente movimento e ela, a existência, tinha como princípio um “ser absoluto” e a evolução progressista da realidade nos faria reconquistar esse ser absoluto. Diante dessa formulação, Marx e Engels encaparam a dialética hegeliana pela sua insofismável fundamentação repudiando o idealismo filosófico do velho Hegel.
Enquanto a polêmica filosófica se exarcebava na Alemanha, o movimento operário francês levava à discussão política a culminância e, na condição de exilados políticos, Marx e Engels inseriram-se nesses debates. Na ruptura com o hegelianismo, eles formularam o materialismo dialético como instrumental imprescindível para elucidação dos fatos, fossem eles históricos, políticos, sociais ou econômicos.
No primeiro momento surgiu, “como vimos”, o materialismo dialético não como elemento diletante, mas, sobretudo como instrumento capaz de nos munir de uma ferramenta para a necessária obra de transformação do mundo. Ficou universalmente famosa a afirmação de Karl Marx de que aos filósofos, até então, coubera a tarefa de interpretar o mundo e agora era chegada a hora de transformá-lo.
A história, enquanto instrumento de conhecimento, no período anterior a Karl Marx, era vista como uma sucessão de episódios circunstanciais onde estavam presentes a vontade, o querer, o não querer, o impor, o sabotar, o trair... A partir dessa ótica, a história era feita por heróis, mártires, santos, traidores, bandidos, delatores...
Essa forma de ver a história é chamada de idealista. Marx e Engels arrancaram a política do seu contexto idealista para lhes dar uma fundamentação cientifica quando disseram: “é verdade que o homem faz a história, porém não a faz de acordo com sua vontade, com o seu querer, ou não querer”.
No primeiro caso surgiu o materialismo dialético em contraposição ao materialismo idealista de Hegel. No segundo momento construiu-se o materialismo histórico em contraposição à distorcida visão idealista da história tão presente ontem e hoje, inclusive, nas hostes ditas marxistas-leninistas-trotskistas, o que é uma lástima.
Edificados os dois pilares do socialismo científico, o materialismo dialético e o materialismo histórico, buscou-se a construção do terceiro pilar que haveria de se constituir no tripé em que se assentaria essa nova ciência.
Foi com esse propósito que Karl Marx debruçou-se no estudo da economia política que tão bem vicejava na Inglaterra, destacando-se as figuras geniais de Adam Smith e David Ricardo. Aí, o “nó górdio” era a teoria do valor. Donde viria o valor atribuído às mercadorias? Dissecando a história da economia desde os primórdios, Karl Marx descobriu que o capitalismo trouxe consigo um novo tipo de mercadoria: a força de trabalho que tinha a qualidade singular de se multiplicar. Ou seja, tratava-se de uma mercadoria que produzia um valor maior do que lhe era atribuído, produzia a “mais valia”, trabalho não remunerado. Estavam dessa forma colocada as bases do socialismo como ciência. Nascia o socialismo científico, não apenas das cabeças iluminadas, mas de todo o processo de interação entre as novas condições objetivas e subjetivas (conhecimento).
A nosso ver não passa de um descaramento, de uma fraude, por parte da burguesia, tentar nos impingir uma ciência política. Ora, o objeto da ciência política é elucidar o grande enigma social, cuja premissa fundamental é a de que a história é a história da luta de classes. Uma ciência política produzida pela burguesia implicaria em pretender que essa classe aderiu ao marxismo, o que não passaria de uma bela piada.
Aliás, a fraude, o cinismo e o embuste são partes constituintes do discurso capitalista e para lhes dar sustentação, prestígio e mesmo ares de verdade, lançam mão dos mesmos “sábios” que outrora se prestaram por régios salários e fartos prestígios a condenar Galileu Galilei, Charles Darwin e outros luminares do pensamento humano.
Como dissemos, por milhares e milhares de anos, a sociedade não conheceu a escola como instituição dela separada. Uma instituição rigorosamente controlada e pronta a servir um novo momento histórico que era a divisão da sociedade em classes e em camadas sociais.
A história do conhecimento, é marcada por severos e dramáticos conflitos. A escola academia, como instituição a serviço de uma classe, impunha e impõe rigorosos limites aos debates, chegando ao ponto de promover um verdadeiro trabalho de esterilização de conteúdos “apagando o lume revolucionário” conflitante com a ordem estabelecida.
Na verdade a evolução do conhecimento algumas vezes trombou com a verdade oficial, a verdade acadêmica. Temos exemplos que merecem ser exaltados. Lembremos de Galileu Galilei que, contrariando a verdade acadêmica, teve a ousadia em afirmar que a terra não era fixa e que ela se movia. Denunciado como herege teve que ser submetido a julgamento por uma banca formada por “mestres, doutores e pós-doutores” e diante deles foi obrigado a renegar suas convicções cientificas para escapar da ardente fogueira da “fé”.
Charles Darwin desmascarou por completo a teoria criacionista defendida pelos “valiosos” acadêmicos da época e isso era uma monumental “heresia”. Ao invés do criacionismo Charles Darwin concluiu que a vida decorreu de um processo natural sem nenhuma interferência transcendental. Mais uma vez um verdadeiro sábio foi execrado pelas academias, expurgada dos meios intelectuais, excomungado pelas igrejas por professar uma verdade.
Dramática também é a história da medicina. Os “doutos” cardeais de diversos credos condenavam a prática da exumação e dissecação de cadáveres para fins de estudos. Dessa forma, valentes “profanadores”, sob as trevas das noites “roubavam” cadáveres com o risco da própria vida, para dissecá-los e descobrir, assim, os segredos do corpo humano.
Acontece uma particularidade que merece ser ressaltada. Ciências como a química, a medicina, a física, a astronomia... foram perseguidas, mas com o passar do tempo essas mesmas academias, quando conveniente ao sistema chamaram-nas para ocupar seus assentos nas cátedras que lhes foram reservadas.
É quase dispensável dizer que uma sociedade onde impera a mais cruel desigualdade social, onde se prática os mais cruéis delitos e onde se massacra a decência, só poderia existir e manter-se caso fosse construído um verdadeiro império da mentira. Isso mesmo! A desigualdade social não poderia ter existido se não fosse o rosário de mentiras, fraudes e engodos tão zelosamente construídos pela minoria de privilegiados. Conclui-se, portanto, que esse império foi e é necessária a existência da desigualdade social e que a verdade, sobretudo a verdade histórica é revolucionária, pois desvela realidade expondo a crueza das mentiras que encobrem esse mundo de injustiça social.
Para que tal obra fosse erigida necessitaria de ter-se em mãos instrumentos eficazes para tão dantesca obra. Dentre esses instrumentos destacaram-se e destacam-se as igrejas, as escolas, as tradições orais e escritas, mesmo que, aqui e ali, registrem-se algumas rusgas, alguns entreveros. Antes, porém, ter-se-ia que atribuir a essas instituições valores indiscutíveis. A igreja teria sido inspirada por espíritos superiores e infalíveis; a escola seria a expressão maior do conhecimento e não merecia ser contestada; as tradições testemunhos indiscutíveis de “verdades” milenares, e assim se edificam os mitos e crendices.
Falamos que mais das vezes as ciências subversivas terminaram por serem cooptadas e tomaram seus assentos nas academias. Com o socialismo, essa ciência, que trata de uma questão vital para o sistema, tal cooptação não poderia jamais acontecer. É bem verdade que no principio do século XX, alguns intelectuais tentaram introduzir um chamado “marxismo legal”. O que seria isso? Seria o estudo dos enigmas sociais e políticos a partir das cátedras amparados por boas remunerações e destacados por incontestes prestígios. Essa corrente, quando não ingênua era nitidamente oportunista, foi refutada veementemente pelos verdadeiros revolucionários que não aceitavam tão indecorosa impropriedade. É oportuno acentuar que se repudiava o “marxismo legal” não por uma questão estritamente moral e, sim, por uma total impossibilidade.
A história do socialismo abriga duas grandes correntes. A primeira delas é a corrente revolucionária, aquela que diz textualmente ser impossível “fazer a omelete sem quebrar os ovos”. Isso não é uma escolha, é um imperativo histórico. Afinal, para a sustentação do capitalismo, existe o Estado que congrega diversos aparatos com o objetivo de manter a qualquer custo o sistema sócio econômico vigente. Dentre esses aparatos do Estado estão desde as festejadas escolas (força civil), até as forças policiais e militares. Sendo assim, a violência que impõe a desigualdade e a injustiça, só pode ser banida com a violência libertadora das massas trabalhadoras.
O socialismo evolucionário, gradualista é completamente impraticável, pelas razões que acreditamos terem sido sobejamente colocadas no parágrafo anterior. Ocorre, no entanto, que essa corrente vem tomando substância na medida em que houve a fragorosa derrota do socialismo em escala mundial, derrota que não se pode dizer definitiva, pois assim, teríamos a própria derrota do gênero humano.
A derrota do socialismo em escala mundial promoveu um vazio teórico, promoveu a degradação da esquerda, prostituindo-a em troco de algumas benesses do aparelho de Estado. Para tanto tem contribuído a academia quando se apresenta como a quintaessência do saber. Indiscutivelmente as universidades fabricam, às carradas, técnicos e cientistas prontos para vender a sua mão de obra qualificada no auspicioso mercado de trabalho da ordem econômica e social vigente, seja para fazer bombas, armas sofisticadas ou vacinas para gripe, que cure o povo enquanto proporciona bilionários lucros aos laboratórios. No capitalismo, não existe como objetivo o bem estar e a segurança social. O seu primado é o lucro e tão somente o lucro.
A burguesia tem feito uso político desbragado da universidade como se ela fosse a tábua de salvação da hgumanidade. É necessário denunciar tão despudorada manobra política. Ao invés disso, diante dela, um grande quinhão das esquerdas agacham-se e prostram-se. Isso em escala mundial, o que beira a tragédia. No caminhar da humanidade, é notório que o conhecimento tenha sofrido serradas perseguições, mas tem sido o socialismo científico a maior vitima do sistema e é evidente que desse sistema e de seus asseclas não esperássemos outra atitude.
Conseguiu a burguesia dobrar a esquerda na Europa Ocidental no inicio do século XX, transformando revolucionários em invertebrados. De lá para cá, tudo se tornou-se mais grave. A maioria dos intelectuais progressistas passaram-se de malas e bagagens para o lado da burocracia stalinista. Uns poucos e mais escrupulosos, porém, sem a devida coragem, ampararam-se nas intermináveis discussões intelectuais sobre estética, como foi o caso de George Lukács; no academicismo estéril de Herbert Marcuse, da bela escola de Frankfurt; na confusão mental de Roger Garaudy; no existencialismo inócuo, de Jean Paul Sartre, cuja obra maior foi o pífio elogio feito à Revolução Cubana, no seu livro “Um Furacão Sobre Cuba”, que não ousa penetrar nas entranhas da revolução para assim cientificamente explicar aquele fato histórico que surpreendeu a todos, inclusive aos seus líderes.
Por razões bastantes explicáveis, o senhor Leon Trotsky e alguns mais, tentaram bravamente emergir do lamaçal das intrigas pessoais e mergulhar num honroso embate contra as “forças do mal”. Registre-se, a bem da verdade, que Leon Trotsky não pôde fugir das contingências históricas e terminou deslizando para o idealismo, imputando à tragédia da Revolução Russa a figura sinistra de Josef Stalin e isso não passa de um disparate.
Leon Trotsky chegou ao cúmulo do desvio quando, num infeliz comentário afirmou: “nunca pensei que uma simples caçada de patos pudesse determinar os rumos da história”. Trotsky reportava-se ao fato de que ele houvera entrado em férias e nessa ocasião dera-se a morte prematura de Vladimir Lênin e ele, Trotsky, não pudera participar ostensivamente do seu féretro, apresentando se como seu herdeiro. Além desse deslize, Trotsky passou a ter um juízo moral da história, ora chamando a revolução de desfigurada, ora de revolução traída, o que demonstra o fato de seu envolvimento emocional ter lhe turvado a vista. Caso contrário, teria feito como Iuli Martov e Alexandra Kollontai quando proclamaram que a sepultura da revolução socialista dera-se em 1921, por ocasião do X Congresso do Partido Comunista Russo, quando foi suprimido o direito de tendência, imposto o monolitismo, os campos de concentração e a calúnia como instrumento de prática política.
Essa visão, contudo, ainda seria totalmente insuficiente, ou melhor, incorreta. As raízes da derrota do socialismo estão presentes na Europa Ocidental com a capitulação dos Partidos Operários quando resolveram aceitar a liderança da burguesia e dar as costas à causa socialista como tão bem denunciou Rosa Luxemburgo.
No nosso caso, no Brasil de hoje, as massas trabalhadoras como fizera no tempo de Getúlio, escolheram do populismo trabalhista levado a cabo por Luiz Inácio da Silva (Lula), em troca de míseras migalhas, sobretudo aquelas destinadas à massa de excluídos sob o rotulo de “bolsa família”. Assim como os Partidos Operários levaram o capitalismo à vitória na Europa Ocidental e, por conseguinte, no mundo, não temos dúvida de que o PT esteve e estará disposto a jogar o papel de baluarte de sustentação desse sistema.
Reportando-se aos fatos da Revolução Russa, destaquemos que, em 1921, deu-se a estruturação da NEP (Nova Política Econômica) e a repressão desbragada da Oposição Operária, particularmente do sovietes de Kronstadt isso sim são elementos constitutivos do stalinismo e não como querem Trotsky e os Trotskistas, ou mesmo certos intelectuais festejados como Pierre Anderson e tantos outros péssimos profetas, sobretudo dos fatos passados. Não foi a morte de Lênin, portanto que marcou o nascimento do stalinismo, como pretende os desavisados. O stalinismo repita-se, foi produto da derrota da revolução socialista em escala mundial.
Lembremos que Trotsky produziu uma legião de seguidores que repetem no essencial a prática stalinista, da calunia, da mentira, do culto à personalidade e outros vícios. Mais grave, porém, é que o senhor Trotsky permitiu que existisse um número enorme de pessoas reproduzindo o equivocado discurso de que se houvesse Trotsky batido Stalin teria sido outro o rumo da história. A história, como já dissemos, não é produto da vontade, do querer, da tenacidade de alguns, apesar de serem atributos que, em determinados momentos, podem produzir graves conseqüências.
Não foi Josef Stalin, aquele psicopata obtuso, que levou a revolução ao fracasso. Foi à revolução mundial que foi derrotada a partir da Europa Ocidental e mais particularmente durante o governo na República de Weimar. Isso deve ser visto com acuidade e repetido exaustivamente.
Entender os destinos da humanidade e a história das revoluções recentes a partir do duelo Trotsky e Stálin, desconhecendo, em toda profundidade necessária, as práticas e concepções dos partidos operários da Europa Ocidental, principalmente os dramáticos episódios ocorridos na República de Weimar, com as seus Lulas, Zé Dirceu, Genuíno, Delubio Soares, João Paulo e outros trânsfugas, é transformar a verdade em farsa ou, para sermos generosos, em meros beatos possuídos de todas as ingenuidades possíveis, como viera acontecer com minha querida vó que morreu acreditando ser possível curar câncer com “água benta”.
Hoje, a grande crise do socialismo reside no fato de que fomos todos encerrados por dois fortes círculos de aço. No primeiro círculo estava a burguesia nas suas diversas faces, impedindo de forma obstinada, como é do seu dever, que a revolução socialista prosperasse. No segundo circulo, tivemos uma esquerda marcadamente stalinista em suas diversas faces funcionando como linha auxiliar de sustentação do sistema capitalista. Hoje, desenha-se no pantanal da ignorância cultivada e custeada pela burguesia através de suas academias, um terceiro círculo protagonizado por essa legião de acadêmicos cujo oficio maior é distorcer a história e semear ilusões.
Por fim, toda questão se reduz ao seguinte fato: teremos tempo histórico para romper esses círculos de ferro e aço que protegem o capitalismo ou eles de vitória em vitória, nos levarão ao fim da humanidade como tão bem prognosticaram Engels e posteriormente Rosa Luxemburgo?
Se coragem nos sobrou para enfrentam às câmaras de torturas, as execuções sumárias, os dolorosos exílios, redobrada coragem precisamos ter para desmontar esse imenso “Império da Mentira”.
Quem de nós está disposto a denunciar tantas fraudes? Quem estará disposto a acusar que o papa não é um mero santo? Quem ousaria imaginar que um general não seja por si um herói? Quem teria a audácia de dizer que muitos dos acadêmicos não passam de reles charlatãs? Quem, finalmente estaria disposto a dizer que a velha esquerda marxista-leninista-trostkista foi e é o maior pilar de sustentação da ordem econômica e social vigente em pleno processo de exaustão?
Gilvan Rocha
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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
GASSET E AS MASSAS
Publicado na Folha de S.Paulo, sábado, 3 de dezembro de 1977
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Nem este volume nem eu somos políticos. O assunto que aqui se trata é prévio à política e pertence a seu subsolo. A missão do chamado "intelectual" é, em certo modo, oposta à do político. A obra intelectual aspira a esclarecer as coisas, enquanto a do político, pelo contrário, consiste em confundi-las. Ser da esquerda é, como ser da direita, uma das infinitas maneiras que o homem pode escolher para ser imbecil, ambas com efeito são formas de hemiplegia moral. Há um fato que, para bem ou para mal, é o mais importante na vida pública européia. É o advento das massas ao pleno poderio social. Como as massas, por definição, não devem nem podem dirigir a sua própria existência e menos reger a sociedade, quer dizer-se que a Europa sofre agora a mais grave crise que a povos, nações, culturas cabe padecer. Chama-se esta crise "rebelião das massas".
Para compreender este formidável fato convém evitar um significado exclusivo ou primariamente político. A vida pública não é apenas política, mas, ao mesmo tempo, e ainda antes, intelectual, moral, religiosa. Compreende todos os usos coletivos e inclui o modo de vestir e o de gozar.
Visualmente denomino este fato da aglomeração, do "cheio". As cidades, casas, praias, hotéis, trens estão cheios. Começa a existir um problema —encontrar lugar. Mas o que nos surpreende tanto? As cidades não foram feitas para abrigar grandes populações, os trens não foram construídos para transportar grandes contigentes? Os componentes desta multidão não surgiram do nada. Os indivíduos que a integram preexistiam, mas de forma diferente, repartidos pelo mundo em pequenos grupos. Se antes a multidão existia, passava inadvertidamente, ocupava o fundo do cenário social, hoje adiantou-se, está no proscênio, é o personagem principal.
A sociedade é sempre uma unidade dinâmica de dois fatores: minorias e massas. As minorias são indivíduos especialmente qualificados. Massa são aqueles sem qualificação especial. Não se confunda massa com "massa operária". Massa é o homem médio —deste modo o que era quantidade vira qualidade. Esta divisão decorre de outra mais radical sobre a humanidade: temos a classe de criaturas que exigem muito de si e acumulam sobre si exigências crescentes e a classe das que não exigem de si nada especial. A rigor dentro de cada classe social há massa e minoria autêntica. Mesmo nos meios intelectuais. Repilo toda interpretação que não descubra a significação positiva oculta sob o atual império das massas. Todo destino é dramático e trágico em sua profunda dimensão. Para onde nos leva a massa? É um mal absoluto ou um bem possível?
A meu juízo quem não entende esta curiosa situação das massas não pode compreender nada do que hoje começa a acontecer no mundo. A soberania do indivíduo genérico —meta da democracia— passou de ideal jurídico a um estágio psicológico.
Quando algo que foi ideal se faz ingrediente do cotidiano, inexoravelmente, deixa de ser ideal. A generosa inspiração democrática pretendia tirar as almas humanas da servidão interna. Queria-se que o homem médio fosse senhor. Então, não se estranhe que ele agora atue por si, que reclame todos os direitos e prazeres, que imponha, decidido, sua vontade. O nível médio de hoje acha-se onde, antes, só tocavam as aristocracias. A vida humana, na totalidade, ascendeu —o soldado de hoje tem muito do capitão de ontem.
Não ressalto que a física de Einstein seja mais baixa do que a física de Newton, mas que o homem Einstein é capaz de maior exatidão e liberdade de espírito que o homem Newton.
As minorias idealistas e progressistas supõem que o desejado por elas inexoravelmente se realizará. Protegidos por esta certeza soltaram leme da História, deixaram de estar alerta, perderam a agilidade e a eficácia. A vida se lhes escapou das mãos, ficou insubmissa. Certas de que o mundo irá em linha reta retraem sua inquietude sobre o porvir e acomodam-se num presente definitivo. Não estranhe a ninguém que o mundo pareça hoje vazio de projetos, antecipações, ideais. A deserção das minorias dirigentes acha-se sempre no reverso da rebeldia das massas. A natureza está sempre aí, sustenta-se a si mesma. Mas a civilização não está aí, não se sustenta a si mesma. Se querem aproveitar-se das vantagens da civilização é preciso preocupar-se em sustentar a civilização.
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José Ortega y Gasset (1883-1955), ensaísta e filósofo espanhol, de origem aristocrática. Foi também ativo jornalista, editor e político. Chefiou a oposição intelectual republicana na ditadura de Primo de Rivera (1923-1930). Foi deputado na segunda República espanhola e governador civil de Madri. Com a eclosão da guerra civil exilou-se na Argentina e depois em Portugal. De lá, após a 2ª Guerra Mundial, reaproximou-se gradualmente da Espanha até que, em 1948, voltou definitivamente. A partir de então dedicou-se apenas à filosofia, fundando o Instituto de Humanidades. Ortega foi o líder da mais profícua escola filosófica espanhola dos últimos três séculos. Escritor prolífico, sua primeira obra foi "Meditaciones del Quijote" (1914), mas a que lhe deu fama internacional foi "A Rebelião das Massas" (1930). Nela trouxe para a ciência social, o senso trágico do pensamento espanhol: a vida é um naufrágio, não apenas para indivíduos mas para as sociedades e as medidas desesperadas empreendidas para não soçobrarem constituem a cultura humana. A noção da aristocracia do talento perpassa toda a obra de Gasset. O trecho abaixo foi extraído de "A Rebelião das Massas" (ed. Lial, Rio, 1971) em tradução de Herrera Filho.
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quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
UDR e o PCdoB
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terça-feira, 7 de dezembro de 2010
A primavera dos radicais na América Latina
Morte de Kirchner, eleição de Dilma, derrota de Chávez e novos governos centristas no Chile e Colômbia mudaram paisagem latino-americana e causarão problemas a Obama
Obviamente, as eleições americanas de meio de mandato roubaram a atenção da maioria das pessoas nas semanas que passaram, mas vários acontecimentos importantes na America Latina podem ter consequências quase do mesmo alcance, ao menos para a própria região.
Primeiro, sem nenhum alerta visível, o ex-presidente da Argentina Néstor Kirchner, que poderia voltar ao cargo, morreu de ataque cardíaco, tumultuando a situação política de seu país. Ele estava programado para entrar no ringue na disputa presidencial em dupla com sua mulher, a atual presidente Cristina, conforme haviam organizado para 2011: em vez de submetê-la a uma batalha eleitoral desgastante pela reeleição, a ideia era ele concorrer (e vencer, é claro) graças a seu absoluto controle da velha máquina peronista - incluindo sindicatos, governadores, fundos de pensão, bancos estatais, etc.
Agora, ela mesma terá de concorrer. Sua popularidade subiu depois de ter atingindo níveis terrivelmente baixos um ano atrás. Haverá um voto de simpatia para uma governante enviuvada, mas há ameaças no horizonte também. Estas se devem principalmente às investigações de acusações de corrupção contra a dupla presidencial e isso agora será um instrumento tentador não só para a oposição aos Kirchners, mas também para fogo amigo: peronistas rivais de Cristina, que poderiam não ter ousado atacar seu marido, mas não temem a viúva.
Segundo ponto, há muitos na Argentina e no exterior que sinceramente acreditam que, embora Cristina tenha construído uma carreira política própria, o poder conceitual e político provinha de seu marido, e pensam que ela era, na melhor hipótese, uma porta-voz esporadicamente eloquente. Esses observadores acreditam, com algum fundamento, que com Kirchner ausente, ela encontrará grande dificuldade e a era do casal chegará ao fim em breve.
Esse cenário não é implausível e a simpatia pelo morto não dura para sempre (exceto no caso do próprio Juan Domingo Perón). Isso alteraria o equilíbrio geopolítico na América Latina já que, para todos os fins práticos, os Kirchners vinham sendo apoiadores vigorosos, embora talvez não discípulos, da Aliança Bolivariana para a América Latina (Alba), que atualmente liga o líder cubano Fidel Castro aos presidentes Hugo Chávez (Venezuela), Evo Morales (Bolívia), Daniel Ortega (Nicarágua) e Rafael Correa (Equador) numa aliança de esquerda.
Fator Dilma. A Alba pode substituir sua perda argentina por um ganho brasileiro, Dilma Rousseff, que assumirá a presidência do Brasil em breve, foi eleita na esteira do sucesso de Luiz Inácio Lula da Silva e é amplamente vista como sua herdeira política. Sua vitória carrega um enorme impacto simbólico na condição de primeira mulher presidente do Brasil. Mas ela pode não se revelar tão moderada e moderna quanto Lula.
Ela vem de uma linhagem classicamente populista da política brasileira, uma seguidora de Leonel Brizola, o carismático governador do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul, que foi um político muito mais estatista e nacionalista do que um líder sindical de esquerda como Lula. Dilma tampouco tem o mesmo controle que Lula sobre seu partido, o Partido dos Trabalhadores. Ela precisará que seu mentor cuide da legenda ou cederá às exigências de sua base partidária - o que Lula nunca fez.
A despeito de seu pendor para o exibicionismo, Lula é um pragmático. Será realmente surpreendente se Dilma não se mostrar mais ideológica, nacionalista e, talvez, populista em política econômica e externa. Isso também alterará o equilíbrio na América Latina.
Finalmente, após a derrota eleitoral legislativa de Chávez, em setembro, ele lançou novas atividades repressivas contra sua oposição.
Ele nacionalizou (sem indenizar) uma fábrica de vidro de propriedade americana que fornece garrafas para a cervejaria Polar. A companhia Polar, por sua vez, foi responsabilizada por Chávez de fornecer boa parte do financiamento e apoio à oposição.
Valentões, supostamente associados ao governo, sequestraram e mataram três líderes da associação comercial venezuelana Fedecámaras, há duas semanas, e - como se temia - Chávez caiu em cima dos principais vitoriosos nas eleições de setembro. Maria Corina Machado, fundadora do grupo de vigilância eleitoral Súmate, recebeu mais votos do que qualquer outro candidato ao Congresso.
A empresa de seus pais, antes uma próspera companhia siderúrgica venezuelana, a segunda maior do país, foi expropriada na semana retrasada por Chávez, de novo sem indenização. Restam poucas dúvidas de que essa foi, ao menos em parte, uma forma de represália.
Então, em que pé esses acontecimentos momentosos deixam a América Latina? Dado o enfraquecimento do presidente Barack Obama, que estava especialmente engajado na América Latina para além de ocasiões formais e simbolismos, essas tendências poderão se contrapor ao que vimos até o ano passado.
Vitórias eleitorais de políticos pragmáticos, centristas, como os presidentes Sebastián Piñera, do Chile, e Juan Manuel Santos, da Colômbia, podem ter sido apenas um breve interlúdio antes de um retorno do populismo radical à região. Isso promete ainda mais problemas para Obama. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK
É EX-CHANCELER DO MÉXICO, PROFESSOR DA UNIVERSIDADE DE NOVA YORK E BOLSISTA NA NEW AMERICA FOUNDATION
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sábado, 4 de dezembro de 2010
PT e o Socialismo Real
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quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
A extrema direita
Esse episódio nos leva a fazer uma reflexão. A Terceira Internacional, burocratizada, abandonou as massas populares, o proletariado norte-americano à sua própria sorte, e a burguesia logrou impor no seio das massas o mais profundo anti-socialismo. Porém, não foi só a Terceira Internacional que procedeu com tamanho descaso diante das massas trabalhadoras norte-americanas. O Sr. Fidel Castro, dirigente da vitoriosa Revolução Cubana, limitou-se a proferir desaforos ao imperialismo ianque e esqueceu-se de se dirigir aos trabalhadores, aos imigrantes, aos negros, enfim, aos explorados e oprimidos daquele país.
Salta-nos aos olhos que o marxismo foi posto totalmente de lado quando o princípio da luta de classes foi colocado para debaixo do tapete, uma vez que o stalinismo substituiu esse princípio basilar pela divisão do mundo entre nações opressoras e nações oprimidas.
Na esteira dessa absurda distorção prosperou o nacionalismo e, pior ainda, um anti-imperialismo tosco que tem norteado os partidos ditos comunistas ou socialistas. Em razão disso, vê-se a indiscutível hegemonia que hoje goza o capitalismo em escala mundial e a consequente redução do movimento socialista.
O antiamericanismo tem dado margem a que prosperem movimentos fascistas como são: a Al Qaeda, de Bin Laden; o fascismo teocrático, de Marmud Armadinejad; o fundamentalismo desvairado da Síria e outros movimentos congêneres que fazem a alegria dos desavisados, e isso é, simplesmente, apavorante.
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terça-feira, 30 de novembro de 2010
Polêmica. 03/03/2010 - 9h30
Ex-guerrilheiro José Mujica assume a presidência do Uruguai e promete, como Lula, ser conservador na Economia. A velha esquerda está chegando ao fim?
Sim - 52%
Não - 48%
Total de votos: 230
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terça-feira, 16 de novembro de 2010
O que é alienação?
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