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quarta-feira, 20 de março de 2013

Quem comanda no mundo?

Com a autonomização da economia e o enfraquecimento dos estados-nação é ilusório pensar que os presidentes eleitos sejam os que têm o comando sobre o pais. Quem decide os destinos reais do povo não é o Presidente. Ele é refém do Ministro da Fazenda e do Presidente do Banco Central que por sua vez são reféns do sistema econômico-financeiro mundial a cuja lógica se submetem. Quando o Presidente Bush fala à nação muitos seguramente o escutam. Mas quando fala o presidente do Federal Reserve (Fed) a nação inteira pára. O que ele tem a dizer significa a vida ou a morte de muitos empregos e do destino de empresas.

Os donos do mundo estão sentados atrás dos bancos, são os que controlam os mercados financeiros, as taxas de juros, as infovias de comunicação, as tecnologias biogenéticas e as indústrias de informação.

Imensos conglomerados privados atuam a nivel planetário. Sem perguntar a ninguém e sem qualquer controle delapidam o patrimônio comum da humanidade em benefício próprio. Desflorestaram em poucos anos 800.000 hectares das ilhas de Bornéu, Java, Sumatra e Sulawesi. Os incêndios projetaram fumaça do tamanho de meio continente. Esses mesmos grupos mancomunados com os nossos atuam agora na floresta amazönica. As leis de proteção ambiental são inoperantes face à fúria de conseguir dólares via exportação para o pais fazer frente aos compromissos da dívida externa e interna. O agronegócio implica desflorestar, iquidar a biodiversidade, homogeneizar a produção em escala.

Esta lógica funciona no sistema globalizado mundial, criando desigualdades e devastações ecológicas lá onde se implanta. Para 2010 prevê-se que as florestas tenham dimuido em 40%. Em 2040 o aumento dos gases de efeito estufa podem provocar um aquecimento entre 1ºC a 2ºC elevando o nível das águas oceânicas a 0,5 a 1,5 metros afetando milhares de cidades costeiras. Seis milhões de hectares de terras férteis somem por ano sob o efeito da desertificação.

As doenças infecciosas de todo tipo viajam à velocidade dos mercados. A Aids é uma pandemia na Africa. A expectativa de vida da Africa subssariana diminuiu já sete anos e em outros paises como Uganda, Zimbáue, Zâmbia recuou dez anos. No ano passado a produção econômica de Quênia, por causa da Aids, caiu em 14,5%. A África é um continente abandonado à sua própria desgraca, sequer merece ser explorado. O Papa faz discursos irresponsáveis.

Se houvesse um pouco de humanidade e compaixão entre os humanos bastaria que se retirasse apenas 4% das 225 maiores fortunas do mundo para dar comida, água, saúde e educação a toda a humanidade. Estes são dados da ONU de 2004. Enquanto isso 30 milhões de pessoas ainda morrem de fome e dois bilhões são anêmicos.

Teremos tempo para que a desintegração se mostre criativa? Uma leve esperança se anuncia um pouco em todas as partes do mundo, em Seatte, em Gênova, em Porto Alegre e nos Forums Sociais Mundiais. Ai surge um anti-poder que pede uma nova justiça planetária, uma taxação significativa dos capitais especulativos, a introdução de uma renda de existência a todos os habitantes da Terra não para subsistirem mas porque simplesmente existem. A aplicação rigorosa da ética da precaução e do cuidado em questões ambientais. Esperanças. Que tenham a força da semente.


Leonardo Boff

Relatório da CIA:a idiotização do poder

Há poucas semanas me ocupei com três livros apavorantes. O primeiro do astrônomo inglês Martin Rees, Hora final, o desastre ambiental ameaça o futuro da Humanidade, o segundo do astrofísico e médico James Lovelock, formulador da teoria da Terra como superorganismo vivo, Gaia, A vingança de Gaia e o terceiro O relatório da CIA: como será o mundo em 2020. Os dois primeiros assustam porque nos chamam atenção para a sistemática violência que nossa cultura hoje mundializada, com seu nivel e produção e consumo, perpreta contra a Terra, os ecossistemas, em fim, contra a vida. Podemos discordar de seu pessimismo de base, como se estivéssemos na "ultima hora"(Rees) ou "em estado de coma"(Lovelock). Mas os dados que aduzem são objetivos e merecem ser tomados a sério para não chegarmos tarde demais na busca de saidas. Em ambos se nota amor à vida, preocupação com a Terra e cuidado para com o ser humano.

Totalmente diferente é o terceiro livro "Relatório da CIA", fruto das análises dos considerados "25 maiores especialistas de uma variada gama de disciplinas" e dos três maiores "futuristas", além de outras fontes de informação. Neles se vê o que é a cegueira do pensamento único, o que implica a crença de que não há alternativa para o sistema imperante e o materialismo mais crasso da decadente cultura ocidentalóide-norte-americana. Aqui nos defrontamos com a completa idiotização do poder.Como diriam os alemães, estes tais especialistas são rotundos "Fachidioten", idiotas especializados. Só sabem de poder.Eles não sabem nada de Terra, de ecologia, de ecossistemas, de limites de sustentabilidade da natureza. Estas palavras nem ocorrem em todo o livro. Eles parecem verdadeiros ETs: nem dá para imaginar em que planeta vivem, pois não se fala de nada daquilo que é importante e indispensável para viver: ter um pouco de comida garantida para todos, um pouco de água potável, um ar sofrivelmente respirável e uma solidariedade mínima para salvar nosso senso de humanidade. Tudo isso não existe no livro. E se, por acaso, entra é apenas na sua relevância econômica. Especialmente inexistem as populações humanas, os bilhões de famintos e sedentos, os sindicatos, os movimentos sociais, os grupos de resistência mundial, os altermundialistas e os que lutam por um outra humanidade.

O que existe então? Vontade de poder, de mais poder e somente de poder, econômico, militar, político e tecnológico. Trata-se fundamentalmente de elencar os riscos e desafios que a potência imperial, os EUA, deverá enfrentar até os anos 2020 e que cenários possíveis são discerníveis. Os temas quase obssessivos que retornam a todo o momento é a emergência da China e da India como potências mundiais que conferirão um rosto asiático à globalização, o terrorismo islâmico, as armas nucleares, biológicas e químicas acessíveis a pequenos grupos, as pandemias como a AIDS e o envelhecimento crescente dos paises centrais e a queda de sua população. Finalmente, apesar de todas as ameaças, permanecerá a hegemonia norte-americana.

Estes futurólogos infundem medo e precisamos estar atentos às estratégias que traçam pois podem nos levar, irresistivelmente, ao pior dos cenários para o planeta Terra. Lembrei-me do salmo 2 das Escrituras:"os senhores da Terra conspiram, unidos. Mas ri-se Aquele que habita os céus" pois Ele sabe quão frágil é seu poder de plasmar e conduzir a história.
Leonardo Boff

sábado, 23 de fevereiro de 2013

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

domingo, 26 de setembro de 2010

A MÍDIA COMERCIAL EM GUERRA CONTRA LULA E DILMA

A MÍDIA COMERCIAL EM GUERRA CONTRA LULA E DILMA

por Leonardo Boff

Sou profundamente a favor da liberdade de expressão em nome da qual fui punido com o silêncio obsequioso pelas autoridades do Vaticano. Sob risco de ser preso e torturado, ajudei a editora Vozes a publicar corajosamente o Brasil Nunca Mais onde se denunciavam as torturas, usando exclusivamente fontes militares, o que acelerou a queda do regime autoritário.

Esta história de vida, me avalisa fazer as críticas que ora faço ao atual enfrentamento entre o Presidente Lula e a midia comercial que reclama ser tolhida em sua liberdade. O que está ocorrendo já não é um enfrentamento de idéias e de interpretações e o uso legítimo da liberdade da imprensa. Está havendo um abuso da liberdade de imprensa que, na previsão de uma derrota eleitoral, decidiu mover uma guerra acirrada contra o Presidente Lula e a candidata Dilma Rousseff. Nessa guerra vale tudo: o factóide, a ocultação de fatos, a distorção e a mentira direta.

Precisamos dar o nome a esta mídia comercial. São famílias que, quando vêem seus interesses comerciais e ideológicos contrariados, se comportam como “famiglia” mafiosa. São donos privados que pretendem falar para todo Brasil e manter sob tutela a assim chamada opinião pública. São os donos do Estado de São Paulo, da Folha de São Paulo, de O Globo, da revista Veja na qual se instalou a razão cínica e o que há de mais falso e xulo da imprensa brasileira. Estes estão a serviço de um bloco histórico, assentado sobre o capital que sempre explorou o povo e que não aceita um Presidente que vem deste povo. Mais que informar e fornecer material para a discusão pública, pois essa é a missão da imprensa, esta mídia empresarial se comporta como um feroz partido de oposição.

Na sua fúria, quais desesperados e inapelavelmente derrotados, seus donos, editorialistas e analistas não têm o mínimo respeito devido à mais alta autoridade do pais, ao Presidente Lula. Nele vêem apenas um peão a ser tratado com o chicote da palavra que humilha.

Mas há um fato que eles não conseguem digerir em seu estômago elitista. Custa-lhes aceitar que um operário, nordestino, sobrevivente da grande tribulação dos filhos da pobreza, chegasse a ser Presidente. Este lugar, a Presidência, assim pensam, cabe a eles, os ilustrados, os articulados com o mundo, embora não consigam se livrar do complexo de vira-latas, pois se sentem meramente menores e associados ao grande jogo mundial. Para eles, o lugar do peão é na fábrica produzindo.

Como o mostrou o grande historiador José Honório Rodrigues (Conciliação e Reforma) “a maioria dominante, conservadora ou liberal, foi sempre alienada, antiprogresssita, antinacional e nãocontemporânea. A liderança nunca se reconciliou com o povo. Nunca viu nele uma criatura de Deus, nunca o reconheceu, pois gostaria que ele fosse o que não é. Nunca viu suas virtudes nem admirou seus serviços ao país, chamou-o de tudo, Jeca Tatu, negou seus direitos, arrasou sua vida e logo que o viu crescer ela lhe negou, pouco a pouco, sua aprovação, conspirou para colocá-lo de novo na periferia, no lugar que contiua achando que lhe pertence (p.16)”.

Pois esse é o sentido da guerra que movem contra Lula. É uma guerra contra os pobres que estão se libertando. Eles não temem o pobre submisso. Eles tem pavor do pobre que pensa, que fala, que progride e que faz uma trajetória ascedente como Lula. Trata-se, como se depreende, de uma questão de classe. Os de baixo devem ficar em baixo. Ocorre que alguém de baixo chegou lá em cima. Tornou-se o Presidene de todos os brasileiros. Isso para eles é simplesmente intolerável.

Os donos e seus aliados ideológicos perderam o pulso da história. Não se deram conta de que o Brasil mudou. Surgiram redes de movimentos sociais organizados de onde vem Lula e tantas outras lideranças. Não há mais lugar para coroneis e de “fazedores de cabeça” do povo. Quando Lula afirmou que “a opinião pública somos nós”, frase tão distorcida por essa midia raivosa, quis enfatizar que o povo organizado e consciente arrebatou a pretensão da midia comercial de ser a formadora e a porta-voz exclusiva da opinião pública. Ela tem que renunciar à ditadura da palavra escrita, falada e televisionada e disputar com outras fontes de informação e de opinião.

O povo cansado de ser governado pelas classes dominantes resolveu votar em si mesmo. Votou em Lula como o seu representante. Uma vez no Governo, operou uma revolução conceptual, inaceitável para elas. O Estado não se fez inimigo do povo, mas o indutor de mudanças profundas que beneficiaram mais de 30 milhões de brasileiros. De miseráveis se fizeram pobres laboriosos, de pobres laboriosos se fizeram classe média baixa e de classe média baixa de fizeram classe média. Começaram a comer, a ter luz em casa, a poder mandar seus filhos para a escola, a ganhar mais salário, em fim, a melhorar de vida.

Outro conceito innovador foi o desenvolvimento com inclusão soicial e distribuição de renda. Antes havia apenas desenvolvimento/crescimento que beneficiava aos já beneficiados à custa das massas destituidas e com salários de fome. Agora ocorreu visível mobilização de classes, gerando satisfação das grandes maiorias e a esperança que tudo ainda pode ficar melhor. Concedemos que no Governo atual há um déficit de consciência e de práticas ecológicas. Mas importa reconhecer que Lula foi fiel à sua promessa de fazer amplas políticas públicas na direção dos mais marginalizados.

O que a grande maioria almeja é manter a continuidade deste processo de melhora e de mudança. Ora, esta continuidade é perigosa para a mídia comercial que assiste, assustada, o fortalecimento da soberania popular que se torna crítica, não mais manipulável e com vontade de ser ator dessa nova história democrática do Brasil. Vai ser uma democracia cada vez mais participativa e não apenas delegatícia. Esta abria amplo espaço à corrupção das elites e dava preponderância aos interesses das classes opulentas e ao seu braço ideológico que é a mídia comercial. A democracia participativa escuta os movimentos sociais, faz do Movimento dos Sem Terra (MST), odiado especialmente pela VEJA faz questão de não ver, protagonista de mudanças sociais não somente com referência à terra mas também ao modelo econômico e às formas cooperativas de produção.

O que está em jogo neste enfrentamento entre a midia comercial e Lula/Dilma é a questão: que Brasil queremos? Aquele injusto, neocoloncial, neoglobalizado e no fundo, retrógrado e velhista ou o Brasil novo com sujeitos históricos novos, antes sempre mantidos à margem e agora despontando com energias novas para construir um Brasil que ainda nunca tínhamos visto antes.

Esse Brasil é combatido na pessoa do Presidente Lula e da candidata Dilma. Mas estes representam o que deve ser. E o que deve ser tem força. Irão triunfar a despeito das má vontade deste setor endurecido da midia comercial e empresarial. A vitória de Dilma dará solidez a este caminho novo ansiado e construido com suor e sangue por tantas gerações de brasileiros.

*teólogo, filósofo, escritor e representante da Iniciativa Internacional da Carta da Terra.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

A Sociedade Mundial da Cegueira

O poeta Affonso Romano de Sant'Ana e o prêmio Nobel de literatura, o portugues José Saramago, fizeram da cegueira tema para críticas severas à sociedade atual, assentada sobre uma visão reducionista da realidade. Mostraram que há muitos presumidos videntes que são cegos e poucos cegos que são videntes.

Hoje propala-se pomposamente que vivemos sob a sociedade do conhecimento, uma espécie de nova era das luzes. Efetivamente assim é. Conhecemos cada vez mais sobre cada vez menos. O conhecimento especializado colonizou todas as áreas do saber. O saber de um ano é maior que todo saber acumulado dos últimos 40 mil anos. Se por um lado isso traz inegáveis benefícios, por outro, nos faz ignorantes sobre tantas dimensões, colocando-nos escamas sobre os olhos e assim impedindo-nos de ver a totalidade.

O que está em jogo hoje é a totalidade do destino humano e o futuro da biosfera. Objetivamente estamos pavimentando uma estrada que nos poderá conduzir ao abismo. Por que este fato brutal não está sendo visto pela maioria dos especialistas nem dos chefes de Estado nem da grande mídia que pretende projetar os cenários possíveis do futuro? Simplesmente porque, majoritariamente, se encontram enclausurados em seus saberes específicos nos quais são muito competentes mas que, por isso mesmo, se fazem cegos para os gritantes problemas globais.

Quais dos grandes centros de análise mundial dos anos 60 previram a mudança climática dos anos 90? Que analistas econômicos com prêmio Nobel, anteviram a crise econômico-financeira que devastou os países centrais em 2008? Todos eram eminentes especialistas no seu campo limitado, mas idiotizados nas questões fundamentais. Geralmente é assim: só vemos o que entendemos. Como os especialistas entendem apenas a mínima parte que estudam, acabam vendo apenas esta mínima parte, ficando cegos para o todo. Mudar este tipo de saber cartesiano desmontaria hábitos científicos consagrados e toda uma visão de mundo.

É ilusória a independência dos territórios da física, da química, da biologia, da mecânica quântica e de outros. Todos os territórios e seus saberes são interdependentes, uma função do todo. Desta percepção nasceu a ciência do sistema Terra. Dela se derivou a teoria Gaia que não é tema da New Age mas resultado de minuciosa observação científica. Ela oferece a base para políticas globais de controle do aquecimento da Terra que, para sobreviver, tende a reduzir a biosfera e até o número dos organismos vivos, não excluidos os seres humanos.

Emblemática foi a COP-15 sobre as mudanças climáticas em Copenhague. Como a maioria na nossa cultura é refém do vezo da atomização dos saberes, o que predominou nos discursos dos chefes de Estado eram interesses parciais: taxas de carbono, níveis de aquecimento, cotas de investimento e outros dados parciais. A questão central era outra: que destino queremos para a totalidade que é a nossa Casa Comum? Que podemos fazer coletivamente para garantir as condições necessárias para Gaia continuar habitável por nós e por outros seres vivos?

Esses são problemas globais que transcendem nosso paradigma de conhecimento especializado. A vida não cabe numa fórmula, nem o cuidado numa equação de cálculo. Para captar esse todo precisa-se de uma leitura sistêmica junto com a razão cordial e compassiva, pois é esta razão que nos move à ação.

Temos que desenvolver urgentemente a capacidade de somar, de interagir, de religar, de repensar, de refazer o que foi desfeito e de inovar. Esse desafio se dirige a todos os especialistas para que se convençam de que a parte sem o todo não é parte. Da articulação de todos estes cacos de saber, redesenharemos o painel global da realidade a ser comprendida, amada e cuidada. Essa totalidade é o conteúdo principal da consciência planetária, esta sim, a era da luz maior que nos liberta da cegueira que nos aflige.

Leonardo Boff á autor de A nova era: a consciência planetária, Record (2007)

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

quarta-feira, 2 de junho de 2010

A causa principal da saída dos católicos da Igreja

"A causa principal da saída dos católicos é a falta de inovação no seio da Igreja, é a rigidez dogmática de seus ensinamentos, é a falta de bom senso nas questões de moral e de sexualidade onde ela mostra um rosto cruel e sem piedade, é a proibição de se fazer qualquer criação no campo litúrgico, mesmo em se tratando de culturas diferentes como aquela dos indígenas e dos afro-descendentes. A maioria dos católicos não está mais sentindo sua igreja como um lar espiritual. Ou sofre e tolera com dor a mediocrização a que todos estão submetidos ou simplesmente abandona a Igreja. O papa deve enfrentar-se com esta questão. Temo que siga o caminho mais fácil de culpabilizar os outros e não fazer auto-crítica sobre o tipo de presença que a Igreja está tendo na sociedade"
Leonardo Boff

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Pessimismo capitalista e Darwinismo social

Que fazer quando uma crise como a nossa se transforma em sistêmica, atingindo todas as áreas e mostra mais traços destrutivos que construtivos? É notório que o modelo social montado já nos primórdios da modernidade, assentado na magnificação do eu e em sua conquista do mundo em vista da acumulação privada de riqueza não pode mais ser levado avante. Apenas os deslumbrados do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do governo Lula, acreditam ainda neste projeto que é a racionalização do irracional. Hoje percebemos claramente que não podemos crescer indefinidamente porque a Terra não suporta mais nem há demanda suficiente. Este modelo não deu certo, pelas perversidades sociais e ambientais que produziu. Por isso, é intolerável que nos seja imposto como a única forma de produzir como ainda querem os membros do G-20 e do PAC.

A situação emerge mais grave ainda quando este sistema vem apontado como o principal causador da crise ambiental generalizada, culminando com o aquecimento global. A perpetuação deste paradigma de produção e de consumo pode, no limite, comprometer o futuro da biosfera e a existência da espécie humana sobre o planeta.
Como mudar de rumo? É tarefa complexíssima. Mas devemos começar. Antes de tudo, com a mudança de nosso olhar sobre a realidade, olhar este subjacente à atual sociedade de marcado: o pessimismo capitalista e o darwinismo social.

O pessimismo capitalista foi bem expresso pelo pai fundador da economia moderna Adam Smith (1723-1790), professor de ética em Glasgow. Observando a sociedade, dizia que ela é um conjunto de indivíduos egoistas, cada qual procurando para si o melhor. Pessimista, acreditava que esse dado é tão arraigado que não pode ser mudado. Só nos resta moderá-lo. A forma é criar o mercado no qual todos competem com seus produtos, equilibrando assim os impulsos egoistas.

O outro dado é o darwinismo social raso. Assume-se a tese de Darwin, hoje vastamente questionada, de que no processo da evolução das espécies sobrevive apenas o mais forte e o mais apto a adaptar-se. Por exemplo, no mercado, se diz, os fracos serão sempre engolidos pelos mais fortes. É bom que assim seja, dizem, senão a fluidez das trocas fica prejudicada.

Há que se entender corretamente a teoria de Smith. Ele não a tirou das nuvens. Viu-a na prática selvagem do capitalismo inglês nascente. O que ele fez, foi traduzi-la teoricamente no seu famoso livro: "Uma investigação sobre a natureza e as causas da riqueza das nações"(1776) e assim justificá-la. Havia, na época, um processo perverso de acumulação individual e de exploração desumana da mão de obra.

Hoje não é diferente. Repito os dados já conhecidos: os três pessoas mais ricas do mundo possuem ativos superiores à toda riqueza de 48 países mais pobres onde vivem 600 milhões de pessoas; 257 pessoas sozinhas acumulam mais riqueza que 2,8 bilhões de pessoas o que equivale a 45% da humanidade; o resultado é que mais de um bilhão passa fome e 2,5 bilhões vivem abaixo da linha da pobreza; no Brasil 5 mil famílias possuem 46% da riqueza nacional. Que dizem esses dados se não expressar um aterrador egoismo? Smith, preocupado com esta barbárie e como professor de ética, acreditava que o mercado, qual mão invisível, poderia controlar os egoismos e garantir o bem estar de todos. Pura ilusão, sempre desmentida pelos fatos.

Smith falhou porque foi reducionista: ficou só no egoismo. Este existe mas pode ser limitado, por aquilo que ele omitiu: a cooperação, essencial ao ser humano. Este é fruto da cooperação de seu pais e comparece como um nó-de-relações sociais. Somente sobrevive dentro de relações de reciprocidade que limitam o egoismo. É verdade que egoismo e altruismo convivem. Mas se o altruismo não prevalecer, surgem perversões como se nota nas sociedades modernas assentadas na inflação do "eu" e no enfraquecimento da cooperação. Esse egoismo coletivo faz todos serem inimigos uns dos outros.

Mudar de rumo? Sim, na direção do "nós", da cooperação de todos com todos e na solidariedade universal e não do "eu" que exclui. Se tivermos altruismo e compaixão não deixaremos que os fracos sejam vítimas da seleção natural. Interferiremos cuidando-os, criando-lhes condições para que vivam e continuem entre nós. Pois cada um é mais que um produtor e um consumidor. É único no universo, portador de uma mensagem a ser ouvida e é membro da grande família humana.

Isso não é uma questão apenas de política, mas de ética humanitária, feita de solidariedade e de compaixão.

Leonardo Boff é autor de Princípio compaixão e cuidado, Vozes (2007).

quarta-feira, 24 de março de 2010

A hora e a vez dos asiáticos

A hora e a vez dos asiáticos

Se considerarmos os desdobramentos da crise econômico-financeira atual constatamos uma preocupante inércia.

Os EUA conseguiram dobrar os europeus na decisão de manter o mercado como eixo central da economia com a promessa de controles e regulações que ainda não foram tomadas.

Barac Obama se inclinou na direção de Wall Street e com dinheiros dos contribuintes salvou e apoiou bancos que foram os principais vilões da crise.

Mais e mais se mostra um presidente que obedece à lógica de um império em franca decadência, cujo única força que realmente conta é sua capacidade de matar todo mundo e de destruir a vida do planeta. Essa é a verdade que ninguém gosta de dizer e de ouvir.

A ajuda que os G-20 em abril de 2009 prometeram em Londres aos países vulneráveis, um trilhão e cem bilhões de dólares, somente 5% foram realmente concedidos. Esta ajuda é 360 vezes menor que os 18 trilhões de dólares destinados para salvar as falidas instituições financeiras dos países ricos.

A especulação financeira corre solta como antes da crise. Não sem razão, os dois proeminentes prêmios Nobeis de economia, Joseph Stiglitz e Paul Krugman, prevêem para breve uma nova crise mais grave que a anterior. Vivemos gaiamente como nos tempos de Noé, comendo, bebendo e nos divertindo.

Mesmo assim a atual crise produziu ou reforçou três fenômenos que merecem ser notados.

O primeiro é uma desglobalização que se dá aravés de uma regionalização da economia: a criação de grupos regionais, como Mercosul, Alba, Nafta, BRIC, ASEAN(10 paises entre os quais, Birmania, Indonesia, Singapura etc), OCDE, Comunidade Européia, OSC (Organização de Shangai com China, Rússia, Kazaquistão etc) e outros.

As políticas são coordenadas para evitar crises e com bancos regionais fortes, dispensando o FMI.

O segundo é o deslocamento do centro de gravidade do Atlântico Norte para o Pacífico e a Asia. Aqui estão 44% de todas as reservas mundiais.

O PIB da China é da ordem de 7,8 trilhões de dólares e é ela que sustenta o consumo dos EUA; do Japão é de 4,5 trilhões; da Coréia do Sul é de 1,3 trilhões; e da Indonésia é de 932,100 bilhões.

As reservas destes quatro países soma 7,34 trilhões de dólares. Marx nos deixou esta lição: a economia atrái pós si a política, a cultura e a hegemonia do mundo. Os asiáticos pretenderão moldar o processo mundial com traços asiáticos especialmente chineses. É a vez deles.

Por fim, o surgimento de uma ação mundial coletiva contra a atual situação crítica. Ela nasce de uma profunda decepção e de muita raiva existentes no mundo. Agora já são 60 milhões de desempregados.

Dentro de pouco serão mais de cem milhões. Tudo indica que a solução para o aquecimento e para a crise ecológica generalizada não poderá vir da política, perpassada de interesses nacionais e de muita corrupção.

Estão surgindo esboços de Organizações de Salvação da Humanidade e da Vida. Líderes, grupos, movimentos, setores religiosos, associações, articulações mundiais, de forma desesperada, quererão tomar a história em suas mãos.

Milhões de refugiados climáticos forçarão os limites políticos de muitas nações em busca de sobrevivência.

Haverá manifestacões multitudinárias de descontentes diante dos bancos, dos parlamentos e dos palácios de governo exigindo medidas drásticas para garantir a seguridade alimentar, postos de trabalho, água potável, proteção contra as devastações dos eventos extremos. Quem resistirá às multidões enraivecidas?

A economia do puro crescimento para o consumo, motor da economia capitalista e do PAC do governo Lula, no fundo diz:”às favas com a natureza e que se danem as gerações futuras; nós queremos continuar crescendo e aumentar o PIB pois é isso que nos faz potência”.

Mas todos gritarão: “Basta, seus geocidas. Queremos uma economia verde que nos faça viver e que seja adequada à nova situação da Terra”. Sem essa viragem dificilmente escaparemos da vingança de Gaia.

Disse-o e honrei a minha consciência.
Leonardo Boff

segunda-feira, 20 de julho de 2009

A falta que faz ao Papa um pouco de marxismo

A nova encíclia de Bento XVI Caritas in Veritate de 7 de julho último é uma tomada de posição da Igreja face à crise atual. O complexo das crises que atingem a humanidade e que comportam ameças severas sobre o sistema da vida e seu futuro demandaria um texto profético, carregado de urgência. Mas não é isso que recebemos senão uma longa e detalhada reflexão sobre a maioria dos problemas atuais que vão da crise econômica ao turismo, da biotecnologia à crise ambiental e projeções sobre um Governo mundial da Globalização. O gênero não é profético, o que suporia“uma análise concreta de uma situação concreta”. Esta possibilitaria investir contra os problemas em tela na forma de denúncia-anúncio. Mas não é da natureza deste Papa ser profeta. Ele é um doutor e um mestre. Elabora o discurso oficial do Magistério, cuja perspectica não é de baixo, da vida real e conflitiva, mas de cima, da doutrina ortodoxa que esfuma as contradições e minimaliza os conflitos. A tônica dominante não é a da análise, mas da ética, do dever-ser.

Como não faz análise da realidade atual, extremamente complexa, o discurso magisterial permance principista, equilibrista e se define por sua indefinição. O subexto do texto, ou o não-dito no dito, remete a uma inocência teórica que inconscientemente assume a ideologia funcional da sociedade dominante. Já se nota na abordagem do tema central – o desenvolvimento – hoje tão criticado por não tomar em conta os limites ecológicos da Terra. Disso a encíclica não fala nada. A visão é de que o sistema mundial se apresenta fundamentalmente correto. O que existe são disfunções e não contradições. Esse diagnóstico sugere a seguinte terapia, semelhante a do G-20: retificações e não mudanças, melhorias e não troca de paradigma, reformas e não libertações. É o imperativo do mestre: “correção”, não a do profeta:”conversão”.

Ao lermos o texto, longo e pesado, terminamos por pensar: como faria bem ao atual Papa um pouco de marxismo! Este, a partir dos oprimidos, tem o mérito de desmascarar as oposições presentes no sistema atual, pôr à luz os conflitos de poder e denunciar a voracidade incontida da sociedade de mercado, competitiva, consumista, nada cooperativa e injusta. Ela representa um pecado social e estrutural que sacrifica milhões no altar da produção para o consumo ilimitado. Isso caberia ao Papa profeticamente denunciar. Mas não o faz.

O texto do Magistério, olimpicamente fora e acima da situação conflitiva atual, não é ideologicamente “neutro”como pretende. É um discurso reprodutor do sistema imperante que faz sofrer a todos especialmente os pobres. Isso não é questão de Bento XVI querer ou não querer mas da lógica estrutural de seu tipo de discurso magisterial. Por renunciar a uma análise critica séria, paga um preço alto em ineficácia teórica e prática. Não inova, repete.

E ai perde uma enorme oportunidade de se dirigir à humanidade num momento dramático da história, a partir do capital simbólico de transfomação e de esperança, contido na mensagem cristã. Esse Papa não valoriza o novo céu e a nova Terra, que podem ser antecipados pelas práticas humanas, apenas conhece essa vida decadente e, por si mesma insustentável (seu pessimismo cultural) e a vida eterna e o céu que ainda virão. Afasta-se assim da grande mensagem bíblica que possui consequências políticas revolucionárias ao afirmar que a utopia terminal do Reino da justiça, do amor e da liberdade só será real na medida em que se construirem e anteciparem, nos limites do espaço e do tempo histórico, tais bens entre nós.

Curiosamente, abstraindo de laivos fideistas recorrentes (“só através da caridade cristã é possviel o desenvolvimento integral”), quando se “esquece” do tom magisterial, na parte final da encíclica, introduz coisas sensatas como a reforma da ONU, a nova arquitetura econômico-financeira internacional, o conceito do Bem Comum do Globo e a inclusão relacional da família humana.

Parafraseando Nietzsche:”quanto de análise crítica o Magistério da Igreja é capaz de incorporar”?



Leonardo Boff é autor de Igreja:carisma e poder, Record 2005.

sábado, 13 de junho de 2009

A filosofia pode nos ajudar

Paul Krugman, premio Nobel de economia de 2008 e um dos mais argutos críticos do curso da economia mundial, escreveu recentemente num editorial do New York Times que os próximos três a quatro meses serão, possivelmente, os mais importantes de toda a história dos EUA. Eu acrescentaria, talvez os mais importantes para futuro de toda humanidade. Trata-se de definir o curso das coisas. De repente, a humanidade se vê diante da pergunta que ecoou fortemente no Fórum Social Mundial em Belém: “como construir uma sociedade na qual todos possamos viver juntos, a natureza incluída, nesse pequeno e já velho planeta”?

A questão é grave demais para ser entregue apenas aos economistas. O que afeta a todos, todos têm direito de se manifestar e ajudar a decidir.

Cresce a convicção nos meios pensantes que o paradigma da modernidade ocidental hoje globalizado entrou em crise pelo seu próprio esgotamento e por efeito de implosão. É semelhante a uma árvore que chegou ao seu clímax e então tomba, fatalmente, por haver esgotado sua energia vital. Assim, digamos-lhe o nome, o capitalismo alcançou o seu fim num duplo sentido: fim como realização de suas virtualidades e fim como termo final e morte.

Logicamente, se acompanharmos as discussões internas dos grupos organizados pela ONU com nomes notáveis como Stiglizt, prémio Nobel de economia e outros, para pensar alternativas à crise, damo-nos conta da perplexidade geral. A tendência é reanimar um moribundo com o neo-keynesiasmo, forma suave do neoliberalismo com a presença mais orgânica do Estado na economia. Outros tentam pela via do ecosocialismo muito presente no FSM de Belém. É uma opção promissora. Mas não fez ainda, a meu ver, a virada completa que implica uma nova concepção da Terra como Gaia e a superação do antropocentrismo conferindo cidadania também à natureza. Querem, com razão, um desenvolvimento ecologicamente respeitoso da natureza, mas ainda no quadro do desenvolvimento. Ora, conhecemos a lógica voraz do desenvolvimento. Melhor, precisamos antes de uma retirada sustentável do que de um desenvolvimento sustentável. Seria o começo da realização do ecosocialismo.

Quer dizer: com os recursos técnicos, financeiros e com a infra-estrutura material já criada pela globalização, teríamos condições de socializar um modo de vida sustentável para todos. A Terra, colocada sob o descanso sabático, poderia se autoregenerar e sustentar a todos. Viveríamos mais com menos. Mas como somos culturalmente bárbaros e eticamente sem piedade, não tomamos esta decisão politica. Preferimos tolerar que milhões morram do que mudarmos de rumo. E assim gaiamente continuamos a consumir, sem consciência de que logo aí na na frente um abismo nos espera.

Podemos e merecemos um destino melhor. E este não é apenas possível, mas necessário. E é aqui que os filósofos podem nos ajudar. Há dezenas de anos, muitos deles vêm afirmando que a excessiva utilização da razão em função do lucro e da mercantilização de tudo, à custa da pilhagem da Terra, nos levou à crise atual. Para resgatar a sanidade da razão precisamos enriquece-la com a razão sensível, estética e cordial na qual se funda a ética e uma visão solidária da vida. Ela é a mais adequada à nova fase do encontro das culturas e da unificação da história humana. Ou então prosseguiremos por um caminho trágico e sem retorno.
Leonardo Boff