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sábado, 11 de maio de 2013

quarta-feira, 20 de março de 2013

Quem comanda no mundo?

Com a autonomização da economia e o enfraquecimento dos estados-nação é ilusório pensar que os presidentes eleitos sejam os que têm o comando sobre o pais. Quem decide os destinos reais do povo não é o Presidente. Ele é refém do Ministro da Fazenda e do Presidente do Banco Central que por sua vez são reféns do sistema econômico-financeiro mundial a cuja lógica se submetem. Quando o Presidente Bush fala à nação muitos seguramente o escutam. Mas quando fala o presidente do Federal Reserve (Fed) a nação inteira pára. O que ele tem a dizer significa a vida ou a morte de muitos empregos e do destino de empresas.

Os donos do mundo estão sentados atrás dos bancos, são os que controlam os mercados financeiros, as taxas de juros, as infovias de comunicação, as tecnologias biogenéticas e as indústrias de informação.

Imensos conglomerados privados atuam a nivel planetário. Sem perguntar a ninguém e sem qualquer controle delapidam o patrimônio comum da humanidade em benefício próprio. Desflorestaram em poucos anos 800.000 hectares das ilhas de Bornéu, Java, Sumatra e Sulawesi. Os incêndios projetaram fumaça do tamanho de meio continente. Esses mesmos grupos mancomunados com os nossos atuam agora na floresta amazönica. As leis de proteção ambiental são inoperantes face à fúria de conseguir dólares via exportação para o pais fazer frente aos compromissos da dívida externa e interna. O agronegócio implica desflorestar, iquidar a biodiversidade, homogeneizar a produção em escala.

Esta lógica funciona no sistema globalizado mundial, criando desigualdades e devastações ecológicas lá onde se implanta. Para 2010 prevê-se que as florestas tenham dimuido em 40%. Em 2040 o aumento dos gases de efeito estufa podem provocar um aquecimento entre 1ºC a 2ºC elevando o nível das águas oceânicas a 0,5 a 1,5 metros afetando milhares de cidades costeiras. Seis milhões de hectares de terras férteis somem por ano sob o efeito da desertificação.

As doenças infecciosas de todo tipo viajam à velocidade dos mercados. A Aids é uma pandemia na Africa. A expectativa de vida da Africa subssariana diminuiu já sete anos e em outros paises como Uganda, Zimbáue, Zâmbia recuou dez anos. No ano passado a produção econômica de Quênia, por causa da Aids, caiu em 14,5%. A África é um continente abandonado à sua própria desgraca, sequer merece ser explorado. O Papa faz discursos irresponsáveis.

Se houvesse um pouco de humanidade e compaixão entre os humanos bastaria que se retirasse apenas 4% das 225 maiores fortunas do mundo para dar comida, água, saúde e educação a toda a humanidade. Estes são dados da ONU de 2004. Enquanto isso 30 milhões de pessoas ainda morrem de fome e dois bilhões são anêmicos.

Teremos tempo para que a desintegração se mostre criativa? Uma leve esperança se anuncia um pouco em todas as partes do mundo, em Seatte, em Gênova, em Porto Alegre e nos Forums Sociais Mundiais. Ai surge um anti-poder que pede uma nova justiça planetária, uma taxação significativa dos capitais especulativos, a introdução de uma renda de existência a todos os habitantes da Terra não para subsistirem mas porque simplesmente existem. A aplicação rigorosa da ética da precaução e do cuidado em questões ambientais. Esperanças. Que tenham a força da semente.


Leonardo Boff

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Mundo perde 200km² de florestas por dia

A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) fez um novo levantamento que revela que 200 quilômetros quadrados de florestas estão sendo dizimadas por dia no mundo. A queda do setor imobiliário nos países ricos força um recuo na demanda por madeira. A FAO afirma que há uma queda de investimentos, o que deve afetar os esforços de gerência de reservas e de madeira certificada.

Dessa forma, existe o receio de que governos reduzam os investimentos no setor de energia limpa, além de serem afetadas iniciativas que dependam de créditos externos para a redução de emissões.

Entre 2000 e 2005, o planeta perdeu 7,3 milhões de hectares de florestas, segundo o levantamento. A FAO alerta que, na América do Sul, o desmatamento não deve ser reduzido nos próximos anos.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Novo projeto do Código Florestal Brasileiro: barbaridade ou solução para produtores na ilegalidade?


Debate com o deputado federal Aldo Rebelo (PCdoB-SP), relator do projeto, e Fábio Feldmann, ambientalista, autor do capítulo sobre meio ambiente da Constituição de 1988 e fundador da Fundação SOS Mata Atlântica

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Pecuária e soja já desmataram 45% de terra indígena em Mato Grosso

Pecuária e soja já desmataram 45% de terra indígena em Mato Grosso
A Terra Indígena Marãiwatsede, no muicípio de São Félix do Araguaia, norte de Mato Grosso, sofre com invasão da pecuária ilegal: cerca de 90% de sua área está ocupada ilegalmente, e a Fundação Nacional do Índio (Funai) já identificou 68 fazendas no território indígena.

A informação é da repórter Liana Melo, em matéria do jornal O Globo. De acordo com a reportagem, um levantamento do Sistema de Proteção da Amazônia (Sipam) mostra que a pecuária e a soja já desmataram 45% da mata nativa da TI Marãiwatsede, área habitada pelos índios Xavante.

Até mesmo o prefeito de São Félix do Araguaia é dono de uma fazenda dentro da terra indígena. Filemon Gomes Costa Limoeiro (PPS/MT) possui uma fazenda de 250 hectares, onde cria 400 cabeças de gado. O prefeito disse à reportagem que está recorrendo da decisão da Justiça Federal de Cuiabá que considerou os índios como donos da terra, e disse que vai querer indenização para sair da área.

O grupo JBS-Friboi, a maior empresa de alimentos do mundo, também comprava carne ilegal. A partir de outubro de 2009, quando o frigorífico passou a rastrear sua carne após a pressão de ONGs e do Ministério Público, o grupo retirou da lista de fornecedores 17 propriedades no Mato Grosso. Cinco delas estavam em terras indígenas, inclusive na Marãiwatsede.

Sojicultores também ameaçam a região. De acordo com Verena Glass, autora do estudo "Impactos da soja sobre Terras Indígenas no estado do Mato Grosso", da ONG Repórter Brasil, a produção de soja estimula a degradação, erosão, empobrecimento e desertificação do solo, contaminação de cursos d'água e disseminação das queimadas em terras indígenas.

Acuados pelos fazendeiros e pecuaristas invasores, os xavante se vêem obrigados a portar armas de fogo na defesa de seu território. "O branco é o que mais desmata aqui. Todos os anos pedimos para ele parar com a destruição, mas ele diz que a mata é dele e vai derrubar", diz o cacique Damião Paradzané.
Glória Vasconcelos

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Balela

Quem defende com tanto empenho a mudança na legislação ambiental é obrigado a dizer que considera o aquecimento global uma balela. Será que tudo que andam dizendo é balela?

terça-feira, 31 de agosto de 2010

A Sociedade Mundial da Cegueira

O poeta Affonso Romano de Sant'Ana e o prêmio Nobel de literatura, o portugues José Saramago, fizeram da cegueira tema para críticas severas à sociedade atual, assentada sobre uma visão reducionista da realidade. Mostraram que há muitos presumidos videntes que são cegos e poucos cegos que são videntes.

Hoje propala-se pomposamente que vivemos sob a sociedade do conhecimento, uma espécie de nova era das luzes. Efetivamente assim é. Conhecemos cada vez mais sobre cada vez menos. O conhecimento especializado colonizou todas as áreas do saber. O saber de um ano é maior que todo saber acumulado dos últimos 40 mil anos. Se por um lado isso traz inegáveis benefícios, por outro, nos faz ignorantes sobre tantas dimensões, colocando-nos escamas sobre os olhos e assim impedindo-nos de ver a totalidade.

O que está em jogo hoje é a totalidade do destino humano e o futuro da biosfera. Objetivamente estamos pavimentando uma estrada que nos poderá conduzir ao abismo. Por que este fato brutal não está sendo visto pela maioria dos especialistas nem dos chefes de Estado nem da grande mídia que pretende projetar os cenários possíveis do futuro? Simplesmente porque, majoritariamente, se encontram enclausurados em seus saberes específicos nos quais são muito competentes mas que, por isso mesmo, se fazem cegos para os gritantes problemas globais.

Quais dos grandes centros de análise mundial dos anos 60 previram a mudança climática dos anos 90? Que analistas econômicos com prêmio Nobel, anteviram a crise econômico-financeira que devastou os países centrais em 2008? Todos eram eminentes especialistas no seu campo limitado, mas idiotizados nas questões fundamentais. Geralmente é assim: só vemos o que entendemos. Como os especialistas entendem apenas a mínima parte que estudam, acabam vendo apenas esta mínima parte, ficando cegos para o todo. Mudar este tipo de saber cartesiano desmontaria hábitos científicos consagrados e toda uma visão de mundo.

É ilusória a independência dos territórios da física, da química, da biologia, da mecânica quântica e de outros. Todos os territórios e seus saberes são interdependentes, uma função do todo. Desta percepção nasceu a ciência do sistema Terra. Dela se derivou a teoria Gaia que não é tema da New Age mas resultado de minuciosa observação científica. Ela oferece a base para políticas globais de controle do aquecimento da Terra que, para sobreviver, tende a reduzir a biosfera e até o número dos organismos vivos, não excluidos os seres humanos.

Emblemática foi a COP-15 sobre as mudanças climáticas em Copenhague. Como a maioria na nossa cultura é refém do vezo da atomização dos saberes, o que predominou nos discursos dos chefes de Estado eram interesses parciais: taxas de carbono, níveis de aquecimento, cotas de investimento e outros dados parciais. A questão central era outra: que destino queremos para a totalidade que é a nossa Casa Comum? Que podemos fazer coletivamente para garantir as condições necessárias para Gaia continuar habitável por nós e por outros seres vivos?

Esses são problemas globais que transcendem nosso paradigma de conhecimento especializado. A vida não cabe numa fórmula, nem o cuidado numa equação de cálculo. Para captar esse todo precisa-se de uma leitura sistêmica junto com a razão cordial e compassiva, pois é esta razão que nos move à ação.

Temos que desenvolver urgentemente a capacidade de somar, de interagir, de religar, de repensar, de refazer o que foi desfeito e de inovar. Esse desafio se dirige a todos os especialistas para que se convençam de que a parte sem o todo não é parte. Da articulação de todos estes cacos de saber, redesenharemos o painel global da realidade a ser comprendida, amada e cuidada. Essa totalidade é o conteúdo principal da consciência planetária, esta sim, a era da luz maior que nos liberta da cegueira que nos aflige.

Leonardo Boff á autor de A nova era: a consciência planetária, Record (2007)

quinta-feira, 15 de julho de 2010

A solução da madrugada

Cidades imensas como São Paulo tornaram-se intransitáveis, irrespiráveis. Desde a volta às aulas deste ano, o morador do principal centro econômico do país se sente prisioneiro da entropia — mais crescimento, mais confusão, mais velocidade, mais paralisia.

Ofereço uma sugestão gratuita: descobrir a madrugada!

O dia tem quatro períodos de 6 horas. Das 6h às 12h, a cidade trabalha. Das 12h às 18h, faz compras, busca filhos na escola, corre para casa. Das 18h às 24h, freqüenta escolas, faculdades ou cursos livres, namora, diverte-se. Sem falar naqueles que, em casa, continuam trabalhando...

Mas o que fazer da meia-noite em diante? Por que não dormir em horários alternativos, como já fazem trabalhadores noturnos de fábricas, postos de saúde?

Criar vida coletiva madrugadeira. Faculdade pela madrugada. Cinema na madrugada. Esporte de madrugada. Novos horários para serviços ‘madruguistas’. Em locais que não perturbem o justo sono dos outros. Redistribuição espontânea/induzida dos turnos existenciais.

Acordarei às 23h. Tomarei meu café madrugal. Irei trabalhar. Ou estudar. Ou pagarei as contas nos bancos (abertos). Cuidarei de assuntos burocráticos. Às 6 da manhã, almoçarei. Ao meio-dia, fim do dia. Em casa, jantar... Descanso, família, amigos. Às 16h, cama, longe do rush.

Muitos notívagos se sentem inúteis nas chamadas horas mortas. Salvam-nos a internet, a tela da TV, a leitura. Insones, passarão a movimentar a madrugada urbana cheia de vida.

Se metade da população tiver opções madrugadeiras, todos respiraremos melhor. Madrugada, palavra proveniente do latim vulgar maturicare, madurar, amadurecer mais cedo, antecipar-se ao caos.

Em plena madrugada, haverá mais luzes acesas, mais transporte coletivo, o metrô circulará 24 horas, restaurantes, lanchonetes e lojas em geral de portas abertas. Haverá clientes sempre, em toda parte.

"Deus ajuda a quem cedo madruga", profetizaram os antigos. Essa idéia mesmo, aliás, fiquei mentando (a mente trabalha depois da meia-noite) às 4 da matina.

Que a energia acumulada e perdida na madrugada venha à tona nos escritórios, academias de ginástica, serviço público, consultórios médicos, lugares de diversão.

Quantos já não fazem da madrugada espaço e tempo vitais?

Mais do que rodízio de automóveis, rodízio de gente. Digamos que 50% da população passe a acordar às 23h, depois de uma boa tarde-noite de sono. A outra metade estará colocando o pijama e sonhará com os anjos, sem ter vivido o pesadelo das ruas apertadas, das filas enervantes, da correria que mata.

Gabriel Perissé é doutor em educação pela USP e escritor.

Website: http://www.perisse.com.br/

quinta-feira, 8 de julho de 2010

sábado, 17 de abril de 2010

Clarinha em 2047

Desde 2005, quando nasceu a minha única filha, Maria Clara, comecei a pensar mais seriamente sobre o planeta que a minha geração está construindo para os nossos filhos e filhas. Não faço a menor idéia de como será o mundo em 2047, quando a Clarinha tiver os mesmos 42 anos que tenho hoje, mas tudo indica que vamos deixar para essas crianças uma Terra muito distinta daquela que encontramos quando nascemos. E não fazemos tudo que é possível para que seja uma Terra melhor.

Assim, a cada ano no Dia do Meio Ambiente, vem uma culpa enorme pelo fato de a minha geração não ter conseguido sequer encaminhar a solução para problemas chave para o planeta. De mudanças no clima à introdução de seres transgênicos na agricultura e na alimentação, passando pela perda acelerada e irreparável de diversidade biológica e a contaminação irreversível da maioria dos recursos hídricos de superfície. Tudo nos leva a dimensões da existência que nunca experimentamos antes.

Aqui no Brasil também colaboramos forte para a incógnita ambiental. Radicalizamos um padrão de crescimento econômico baseado na ultraexploração da natureza e anualmente seguimos perdendo milhares de quilômetros de florestas – vide os índices que o Inpe acabou de mostrar nesta semana. Tudo para garantir o superávit fiscal de cada dia, independentemente dos brutais efeitos sobre a terra, a água e o ar e as pessoas.

Há muito eu estimo que os seres humanos haviam intervido no ambiente além de nossa capacidade de reverter as intervenções, mas preferia não enfrentar esse fato em toda sua gravidade. Essa fatalidade histórica era demais para mim Infelizmente, terminei por confirmar minha intuição em um final de tarde de janeiro de 2003.

Naquele dia, eu entrevistei para o falecido O Pasquim o físico austríaco Fritjof Capra, autor dos best sellers "Tao da Física" (1975) e "O Ponto de Mutação" (1982). Capra é um visionário que alia sensibilidade pessoal a um profundo conhecimento científico de física quântica. Em seus livros, que se tornaram referência para o movimento ambientalista ocidental, ele anteviu macrotendências ecológicas dramáticas para o futuro da humanidade. É uma espécie de Julio Verne ambiental a enxergar décadas antes aquilo que a maioria constata muito tempo depois.

Lá pelas tantas na entrevista, Capra deixou escapar algo que me surpreendeu: ele acredita que o ponto de mutação da Terra, o ponto a partir do qual não há retorno, já passou.

"Eu decidi não ficar paralisado pelo medo de reconhecer que é muito tarde", deixou escapar. Fisguei a isca e perguntei: "O que o senhor quer dizer com "muito tarde"?`. "Que podemos chegar a um ponto crítico entre 10 e 20 anos. Podemos chegar a uma situação sem volta. Eu me refiro aos danos causados pelas mudanças do clima, pelo aquecimento global, pela extinção de espécies, que tem sido tão grande que o planeta pode simplesmente nunca se recuperar". E mais não disse, talvez receoso pelos efeitos que tal declaração, com o peso da autoria de quem a fez, alcançasse mundo afora.

Por isso escrevo este artigo ácido como uma chuva sulfurosa. Não me sinto mais no direito de passar outro Dia do Meio Ambiente criando para mim e para quem me lê a impressão falsa de que está tudo mal, mas há uma saída logo ali na frente. Que a qualquer momento um redentor descerá à Terra e consertará as opções civilizatórias erradas que a espécie humana fez.

Criar a Clarinha nesse contexto é um enorme desafio, por não saber exatamente em que direção o mundo caminha. Assim, como o Capra, para não me sentir emparedado recorro ao raciocínio do filósofo italiano Antonio Gramsci: podemos ser pessimistas na avaliação, mas precisamos ser otimistas na ação. Aliás, também a Anistia Internacional vai nesse sentido. Recentemente, avaliou como "fracasso" a implementação da Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, embora demande de todos os governos a urgência de colocá-la em prática.

É certo que a minha geração não tem culpa sozinha pelas opções que se vêm construindo ao longo da História, mais especificamente a partir da Revolução Industrial. Ali a humanidade optou pelos combustíveis fósseis para fornecer energia às máquinas que então começavam a modelar o sistema produtivo. Nossos antepassados sequer imaginaram que a queima da madeira, do carvão, do gás e dos óleos combustíveis produziriam os gases causadores das mudanças no clima que se mantêm ativos por séculos.

Mas, a minha geração – em verdade, a nossa geração, caro leitor - tem a obrigação ética e moral de deixar para a Clarinha e todas as crianças (todas mesmo, inclusive as crianças não brancas e pobres de todos os cantos do planeta) uma Terra equilibrada. No mínimo porque será uma tremenda covardia se os nossos filhos crescerem e perceberem que deixamos sem rumo nem direção o enorme avião Terra em que os embarcamos.

Carlos Tautz é jornalista.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Desaquecimento humano

Autor: Chico Alencar
Publicado: Jornal do Brasil
Data: 10/12/2009


Estudiosos da UFRJ, USP, Unicamp e Embrapa alertam: mantidas as condições do atual modelo econômico, até o fim deste século a Amazônia sofrerá perda de 40% da cobertura florestal da área sul-sudeste-leste, que se transformará em savana. O rio Amazonas terá redução da sua vazão em até 30%, o rio Paraná em 53% e o rio São Francisco minguará 70%. No Nordeste, cuja temperatura aumentará até 8ºC, é prevista uma diminuição das chuvas entre 2 e 2,5 milímetros por dia até 2100! Isso afetará todo o país – lar de um quinto das espécies do planeta, espaço da maior biodiversidade da Terra.
Na contramão deste aquecimento, que só não acontecerá se mudarmos radicalmente o modelo de organização produtiva hoje vigente, há um esfriamento de valores constitutivos do ser humano.
A crise ambiental está na ordem do dia e nunca houve tanto debate sobre a doença do planeta. Para ser elevado, porém, ele precisa estar vinculado a visão de mundo, aos destinos da Humanidade, ao tipo de ser humano e de sociedade que até aqui forjamos e que aspiramos. Comprometer quem analisa.
É urgente questionar os estímulos da vida cotidiana no mundo urbano-capitalista. Somos permanentemente seduzidos pelo individualismo consumista, pela cultura da vaidade e da notoriedade, pela lógica do efêmero e da novidade, pela ânsia da compensação financeira. Cada um precisa ser um “vencedor” dentro do novo código da alma, que é o do “dize-me o que compras que dir-te-ei quem és”. Afogamo-nos num poluído mar de necessidades artificiais.
Há um ser humano padrão constituído pela negação da esfera pública da existência e da política. Esta é, cada vez mais, atividade tecnificada, previsível, programada, sem dinamismo, prisioneira do ambiente de negócios e, nas campanhas das cifras milionárias. Não magnetiza, não atrai, não fascina e não alimenta os desejos da pessoa comum, do “homo-consumericus”. “Telemáquinas criadoras do consenso”, na feliz definição de Joel Rufino dos Santos, preenchem o vazio do presente e do futuro. O grande ideólogo da atualidade, é a publicidade que reforça a ilusão do ter.
Neste quadro dramático, cabe reiterar a urgência de uma nova sociedade, tópica e utópica, e sem divórcio entre valores idealizados e prática concreta, conjuntural. É preciso forjar novos paradigmas de pensamento, promovendo a “descolonização do imaginário”, aposentando dogmas. Marx e Lênin, com suas formulações que seguem nos auxiliando para a análise da sociedade de classes, viveram num tempo em que inexistiam a energia atômica, a televisão, a indústria cultural, os sindicatos de massa, a matéria plástica, o computador... O proletariado de seu tempo, e mesmo o de meio século atrás, não é igual ao de agora.
Os setores mobilizáveis para as transformações sociais, na perspectiva de uma sociedade igualitária, são hoje mais amplos e diversos, por um lado. E mais dominados, por outro, pelas sutilezas da exploração, pelo vigor simbólico das forças da alienação. A indicação ao conformismo é eletrônica e massiva: neofatalismo. A imoralidade permanente do Capital reside na exploração e alienação do trabalho, na reprodução da desigualdade (sob a farsa da “igualdade de competição”), na mercantilização de tudo, na chamada “ética das trocas pagas”, na corrupção sistêmica - segundo a Transparência Brasil, 70% das empresas brasileiras gastam até 3% do seu faturamento anual com propinas.
Que forças sociais e indivíduos querem, de fato, buscar novos rumos para a Humanidade?

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Vitrine do futuro

Autor: Chico Alencar
Publicado: O GLOBO
Data: 12/12/2009


Para além das esperanças e frustrações que Conferências Mundiais sobre clima possam gerar, há atitudes de vida que medem os rumos que a civilização, ainda que cada vez mais padronizada, tende a tomar. Tratasse de sustentar ou contestar políticas globais também com posturas cotidianas e pessoais, mas nem por isso menos políticas. Por compreender, desde Montesquieu, que a “virtude cidadã” precede e embasa a boa lei. Que o macro começa no micro.

Por coerência e para nossa sobrevivência como espécie dotada de razão e movida a paixão.

Somos carne e espírito, barro e luz. Somos capazes de superação, perseguimos transcendência, aspiramos eternidades. Espiritualidade só existe praticada: é espiritualizar-se.

É questionamento diário do aparente sem-sentido do mundo. É a não aceitação da existência como efêmera trajetória, destinada ao nada, que por isso deve ser usufruída imediata e sofregamente. É a negação do fundamentalismo de mercado que o sistema que tudo “coisifica” tenta absolutizar, oferecendo na vitrine, como objeto de consumo, nossos desejos de beleza e harmonia.

Assim como educar é ensinar a olhar para fora e para dentro, espiritualizar-se é dotarmo-nos de grandeza, de atenção, daquilo que nos faz sentir que a vida vale a pena ser vivida: o amor, o sentimento solidário de pertença, o compromisso de deixar o mundo melhor do que quando nele chegamos.

Ecologia é decorrência: percepção da trajetória da nossa casa, a Terra , nesse pluriverso de galáxias em expansão, e do maravilhoso fenômeno da articulação de elementos biológicos, físicos e químicos que, há treze bilhões de anos, produz a energia da vida, da qual somos parte, complexa e frágil. Sinergia vital que tantas vezes tentamos subjugar, produzindo, em nome do “progresso”, esgotamento, superaquecimento e insustentabilidade.

Leonardo Boff, com sabedoria profética, lembra que “ingressamos numa nova era, a ecozóica”: ou sobreviveremos, com uma mudança radical do nosso modo de ser, de produzir, de consumir, de conviver — metanoia, conversão — ou pereceremos todos, aterrados por lixo, intoxicados por gases, degradados pelo veneno que nós mesmos, na Torre de Babel do “crescimentismo”, construímos.

Ecologia é atitude: reação contrária à onda de necessidades artificiais a que somos induzidos, perdida a fronteira do supérfluo. Resgatar nossa dimensão espiritual e ecológica é contestar a lógica do efêmero, da “novidade” que consola, do videocapitalismo, demiurgo do “homo consumericus”: não penso, não existo, só assisto. E clico, deleto, ensaco, poluo e me endivido. E logo me desfaço, pois há novas demandas — que nem sei se tenho...

Ser ecológico é negar a cultura da vaidade a serviço da felicidade privada. É ser arauto do realismo utópico, do inédito viável: reavaliar, reeducar, reestruturar, reciclar, reduzir, redistribuir, redemocratizar.

Viver mais simplesmente, para que simplesmente todos possam viver.

sábado, 23 de janeiro de 2010

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

A grande chance de Lula

Carlos Tautz-



Vencedor, Lula já mostrou que é – mesmo antes de ter liderado a campanha pelas Olimpíadas no Rio em 2016.

Em 2003, demonstrou ser ambicioso, ao propor a exportação para o restante do planeta do seu Fome Zero.

Mas, se realmente tiver visão histórica e 500 mil réis de coragem, Lula decide que o Brasil assumirá metas grandiosas de redução de gases causadores do efeito estufa (GEE) e demandará que os Estados Unidos, a Europa e a China também o façam.

Uma ação deste tipo por parte do Brasil é uma das poucas ações capazes de levar o mundo a reduzir suas emissões. É a grande chance do planeta – e de Lula também.

Essa equação, porém, esbarra em dois limites: 1 – Lula não dá a menor bola para a questão ambiental; e 2 – Ele concorda com o modelo econômico de exploração intensiva de recursos naturais vigente no Brasil.

É este modelo, consolidado em grandes projetos vinculados às demandas do mercado externo, que induzem o desmatamento e as queimadas, fonte da ampla maioria dos GEE totais que fazem do Brasil um dos maiores emissores da atualidade.

Apesar de seus limites individuais, Lula tem um senso afinado de oportunidade.

Se por mais não for, apenas esse tirocínio já deveria levá-lo a se interessar pela questão climática.

Até porque, nas pré-negociações da CoP15, que agora ocorrem em Bangkok, na Tailândia, os Estados Unidos, central nesse problema por ser o maior emissor, voltaram a criar dificuldades para avançar no Protocolo de Kyoto 2 (Kyoto 1 vence em 2012).

Os diplomatas brasileiros têm a obrigação de dizer com todas as letras ao mandatário brasileiro que aí está a oportunidade de projetar o Brasil em nível global.

Se ainda não alertaram o presidente, devem fazê-lo correndo, porque estamos a pouco tempo da CoP15, a conferência dos países signatários da Convenção do Clima, que ocorre de 7 a 18 de dezembro em Copenhague, Dinamarca.

É de lá que sairá o novo regime de emissões que irá vigorar a partir de 2012.

Pelo fato de ser grande emissor (como EUA e China), mas não ter atualmente obrigação de reduzir suas emissões (é considerado um país ainda em desenvolvimento, como China e Índia), o Brasil transita com facilidade entre o grupo dos grades emissores ricos e dos grandes emissores pobres.

Além disso, a burocracia do Itamaraty conseguiu alguns dos postos centrais das negociações da CoP15 e tem capacidade inclusive de colocar em pauta temas polêmicos.

Por todas essas características, o Brasil é um ator principal na trama do clima.

De grandes empresários a ambientalistas, todos vêm dizendo isso ao governo e solicitando que o Brasil se entregue de corpo e alma às negociações de Copenhague, porque lá podem se definir medidas que levarão ou n ão o planeta a aquecer nas próximas décadas.

O Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, da ONU, estimam que precisamos reduzir em 40% as emissões totais nos próximos anos, ao nível de 1990, para que o aumento médio da temperatura do planeta não ultrapasse os 2oC.

Mas, poucos países têm concordado com essas metas.

A Noruega, grande produtor de petróleo, exemplo para o Brasil no marco institucional do pré-sal, concorda com os 40%.

A União Européia empacou nos 20% e os EUA em Bangkok voltaram a ser intransigentes e não falam mais em metas.

Lula não se pauta na questão do clima pela xadrez internacional. O que define sua postura autista em relação a esse problema são as relações internas que o Estado brasileiro mantém com os maiores agentes indutores do desmatamento.

Foi sob seu governo que o BNDES resolveu ser sócio dos megafrigoríficos Friboi, Marfrig e Bertin, que estão entre os maiores indutores do desmatamento por comprarem gado criado irregularmente em terra desmatada.

A chave para a cobrança está aí. O presidente somente será constrangido a assumir o protagonismo do clima em nível internacional se houver o rebatimento interno.



Carlos Tautz é jornalista