quarta-feira, 10 de setembro de 2008

A tentação bélica dos radicais

Coluna (Nas entrelinhas) publicada no Correio Braziliense.

Desta vez, os fundamentalistas de dedo no gatilho são candidatos ao topo da cadeia de comando da maior potência militar do planeta

Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br


Lendo o título desta coluna você pode achar que o assunto aqui será o Irã. Ou o Hezbollah. Errado. O tema deste artigo são os Estados Unidos. A idéia veio-me à cabeça enquanto assistia a reportagens sobre a convenção do Partido Republicano que indicou John McCain e Sarah Palin para concorrer a presidente e vice daquele país nas eleições de novembro.

Enxergar a política, inclusive a americana, com facciosismo ou paixão é sempre complicado. Em meados de agosto, por exemplo, o colunista Thomas Friedmann publicou no The New York Times artigo mostrando como a arrogância imperial da administração democrata de Bill Clinton está na raiz das tensões atuais entre a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e a Rússia.

A rigor, não há distinções essenciais entre o que os Estados Unidos fizeram em Kosovo e o que vêm fazendo no Iraque. Nesse aspecto, Clinton não foi muito diferente do que é George W. Bush. Digamos que a diferença talvez esteja na maior capacidade de colar um sorriso nos lábios enquanto se vende o peixe podre.

Nos Estados Unidos, como em qualquer outro lugar, a inércia e as forças centrípetas (as que puxam para o centro) pressionam o poder em direção a determinadas políticas moldadas pelo establishment, políticas geralmente embaladas no papel bonito das “razões de Estado”. Há exceções? Sim, nas grandes rupturas, tão raras que acabam ganhando destaque nos livros de História. Mas a regra é a acomodação. Barack Obama não fugirá dela, se eleito. Assim como Luiz Inácio Lula da Silva não fugiu.

Na análise política e histórica, entretanto, é preciso sempre estar atento ao novo, ao improvável. E o novo nesta eleição americana é que os candidatos do Partido Republicano começam a escorregar para um extremismo belicoso, com fortes traços fundamentalistas. Considerando que o presidente dos EUA é, teoricamente, um sujeito que tem o poder de destruir o planeta, sobram motivos para preocupação.

O hoje senador John McCain foi prisioneiro de guerra no Vietnã. A opinião dele é conhecida: os Estados Unidos só não saíram vitoriosos na Indochina porque não empregaram força militar suficiente. Quem sabe algumas bombas atômicas ou de hidrogênio não tivessem tido sobre os vietnamitas o efeito que as explosões em Hiroshima e Nagasaki tiveram sobre os japoneses na Segunda Guerra Mundial, não é? Isso é John McCain, um sujeito que parece tentado a usar o poder de fogo dos EUA para reescrever a própria biografia.

A maluquice não é incomum na história americana. Em 1945, o general George Patton pretendia aproveitar a suposta fraqueza do exército soviético, que registrava 10 milhões de soldados e oficiais mortos (os militares americanos mortos entre 1941 e 1945 foram meio milhão), para atacar a União Soviética. Por isso, Patton foi colocado na geladeira pelo presidente Harry Truman. Na década seguinte, outro general, Douglas MacArthur, quis transformar a Guerra da Coréia num conflito total contra a China, recém-convertida ao comunismo. Foi demitido na hora, pelo mesmo Truman. Que acabou aceitando o armistício que levou à atual divisão da península coreana.

Malucões sempre houve e haverá no ambiente militar, assim como na política. Especialmente quando o excesso de poder e força nutre a ilusão da onipotência. O remédio para esse risco é conhecido. Como dizia Georges Clemenceau, ao refletir sobre as pilhas de mortos inúteis na frente franco-alemã no conflito 1914-18, a guerra é importante demais para ser deixada a critério dos generais. Ou seja, para cada militar que acha possível resolver tudo na bala é preciso que haja um líder político pragmático com ascendência para lhe dar ordens.

E a vice de McCain, Sarah Palin? Ela pensa que os Estados Unidos cumprem no Iraque uma missão divina. Precisa mais? Acho que não. O mundo que ponha as barbas de molho. Desta vez, os fundamentalistas de dedo no gatilho são candidatos ao topo da cadeia de comando da maior potência bélica do planeta, algo que não acontecia desde Barry Goldwater, em 1964. E com chances de ganhar. Num mundo em que a continuidade dos padrões de consumo, prosperidade e domínio dos Estados Unidos exige o controle cada vez maior de fontes de riqueza de outros países, inclusive das nações emergentes com aspiração a potência.

Daí o título desta coluna. Tomara que ela esteja totalmente errada.

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