terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

BRIZOLA NA HISTÓRIA

Autor: CHICO ALENCAR
Publicado:
Data: 24/06/2004


O aviso da morte de Brizola me chegou através de minhas filhas adolescentes e de um jovem amigo favelado, todos entristecidos. Inusitada consternação: eles só conheceram o presidente do PDT neste seu último quarto de hora, jamais votaram nele, mas nutriam pela sua figura uma afeição e respeito que só os homens de bem provocam.

Já para a minha geração, a perda é histórica: Brizola encarnou o projeto interrompido de um Brasil mais justo, das reformas de base, e o Brasil no exílio, expulso de si mesmo, árvore arrancada, de raízes para cima. Ele também sintetizou o Brasil replantado, reformado, passado a limpo, dizendo um rotundo Não à ditadura com sua eleição memorável de 1982. Brizola, único brasileiro a ser eleito governador por dois estados, não esteve imune às contradições da política, aproximando-se do chaguismo que tanto combatera, simpatizando com mais um ano para o general Figueiredo e questionando a CPI do Collor. Essas posições provocavam polêmica porque não combinavam com ele próprio e com o simbolismo progressista que construíra.

Formado na escola dos grandes condutores da massa, do populismo dos líderes carismáticos, Brizola soube sê-lo à esquerda de um Jânio, mantendo acesa, na boa tradição trabalhista, sua sensibilidade social e sua atenção para com os de baixo, para quem tirava o chapéu e o paletó, preferindo aos escuros ternos do poder sua camisa social azul. Com seu magnetismo, gerou adesões passionais e venerações mitológicas, algumas delas, como a que produziu ofensas ao presidente Lula em seu velório no Palácio Guanabara, beirando a irracionalidade.

Brizola trouxe a educação pública para o centro do debate político e gastou com ela o principal dos recursos governamentais, compondo, com Darcy Ribeiro e Oscar Niemeyer, o trio propulsor do projeto dos CIEPs que abrigava crianças, e, por isso, era obra muito mais útil do que aquelas para passar carros ou enfeitar fachadas. Brizola foi um democrata de viés autoritário, apegado à sua militância política, pela qual arriscou a pele, e cioso de sua herança trabalhista. O trabalhismo, agora, terá que se reprogramar, na ausência de seu grande condutor.

Brizola partiu quando, mais uma vez, praticava sua verve juvenil de perene crítico, de vigoroso contestador. Morreu fazendo críticas ao governo Lula, e, reconheçamos, várias delas bem procedentes.

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