quinta-feira, 11 de junho de 2009
Cala boca Paulo Renato!
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E o separatismo
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Agora aguenta excelência!
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Tratem os problemas com a objetividade necessária
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Marcadores: Debates, Pimenta, Política Nacional
A felicidade presidencial
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Marcadores: Aposentados, Política Nacional
CQC - Rafael Cortez na comemoração da Revolução Farroupilha
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Não chegou o momento de pedir o afastamento do larápio?
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Ciro embaixador no Iraque
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Marcadores: Pimenta, Política Nacional
Ainda há muito a aprender
The Economist faz uma análise detalhada da educação brasileira desde o legado cultural da colonização portuguesa que fazia da escola uma instituição da Casa Grande, reservada à elite abastada, até a influência negativa dos sindicatos dos professores no desenvolvimento da educação. Lembra, por exemplo, que são despendidos enormes recursos orçamentários em um modelo de escola que não funciona. Conforme mostra a revista – assunto que já comentei neste espaço – investimos em educação um percentual em relação ao PIB maior do que o da Coréia do Sul. No entanto, quanta diferença de desempenho.
A revista inglesa tem absoluta razão ao demonstrar que o déficit educacional é o grande freio do desenvolvimento do Brasil, que apesar de ter apresentado progresso político e econômico continua em posição de inferioridade em relação ao próprio terceiro-mundo. No fundo somos aquele gigante que despertou da sonolência dos séculos, mas permanece analfabeto. A publicação também encontra o “x” do problema ao demonstrar a inversão de prioridade de um sistema educacional que investe mais nas universidades do que no ensino fundamental.
Não é possível mesmo esperar resultado de um modelo empenhado em simular o aprendizado. Não estou a dizer apenas da falta de qualificação dos professores e da estrutura precária das instituições de ensino. Especialmente percebo que o tempo de permanência do aluno na sala de aula – fato que a reportagem da revista inglesa deixou escapar – é um dos grandes fatores que alimentam o ralo educacional. Como imaginar uma escola eficiente em que o estudante tem, com muito esforço, uma carga horária líquida de aprendizado inferior a quatro horas diárias?
A reportagem da revista está corretíssima, mas faltou comentar a necessidade de se instituir no Brasil a Escola em Tempo Integral, como ocorre lá no Hemisfério Norte. Sem a iniciativa, daqui a 20 anos teremos um ministro da Educação, ainda que competente, cheio de esperança de que estará a fazer algo de fundamental para as faladas próximas gerações quando não conseguirá gerir o desenvolvimento humano de quem está por aí imerso no analfabetismo funcional. Como disse a revista inglesa, ainda há muito a aprender.
Demóstenes Torres é procurador de Justiça e senador DEM-GO
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Descobriram agora
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quarta-feira, 10 de junho de 2009
Senador Simon e a candidatura própria
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A Miss motosserra para vice do Serra
A senadora Kátria Abreu a miss motosserra vai ganhando uma em cima da outra, seus adversários, os ambientalistas, vão só acumulando derrotas, não faltará quem defenda a miss motosserra para vice do Serra.
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Nadando de braçada
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Curtindo o feriadão
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‘Se nos negarem a CPI, vamos ao Ministério Público’
Do Blog do Josias:
Acomodado no posto de relator da CPI das ONGs, Arthur Virgílio tornou-se a principal desculpa do governo para postergar o início da investigação da Petrobras.
A despeito disso, o líder tucano não cogita desocupar a cadeira que ocupou na semana passada. Prefere responder à tática governista com a obstrução.
Em entrevista ao blog, disse que o adiamento da CPI da Petrobras “é inútil”. Afirma que o tucanato está colecionando dados sobre malfeitos praticados na estatal.
“Já temos muitas denúncias. Estão sendo sistematizadas por uma equipe técnica. São denuncias sérias”.
Acrescenta: “Se nos negarem a CPI, vamos ao Ministério Público”. Leia abaixo a entrevista:
- Como vai funcionar a obstrução ensaiada pela oposição?
Será feita onde aparecer oportunidade para fazê-la, no plenário e nas comissões.
- Há limites?
É óbvio que tem limites. Será uma obstrução seletiva. Não cairemos na armadilha que o governo costuma armar. Se aparece alguma matéria de interesse nacional, não ficaremos numa camisa de força.
- Vão obstruir a medida provisória do programa Minha Casa, Minha vida?
Não há porque obstruir uma matéria como essa. Não somos doidos. Mas também não quer dizer que precisamos votar para ontem. A medida provisória tem tempo. Não é nenhuma sangria desatada. Vamos ver o que é preciso corrigir. Não existe projeto perfeito. Além disso, não tenho porque acreditar que o impasse perdure além do tempo de validade dessa medida provisória.]
- Acha, então, que o impasse será superado?
Creio que sim. É uma irracionalidade. Eles dizem que nós faltamos com a palavra. Na semana passada, aceitamos adiar a instalação da CPI da Petrobras mediante o compromisso do líder do governo [Romero Jucá, PMDB-RR] de que ela começaria a funcionar nesta quarta. Independentemente do que ocorresse na CPI das ONGs. Está registrado nos anais. Basta consultar as notas taquigráficas.
- Acredita que será instalada?
Não será. Eles vão protelar mais uma vez. Marcaram para o meio-dia. Sabem que os companheiros deles arranjaram passagem para deixar Brasília antes das 11h.
- O que fazer?
Além de recorrer à obstrução, que nos é facultada pelo regimento, temos o caminho do Procuradoria. Se nos negarem a CPI, vamos ao Ministério Público.
- Tem o que levar à Procuradoria?
Já temos muitas denúncias. Estão sendo sistematizadas por uma equipe técnica. São denuncias sérias. É inútil eles ficarem nessa luta inglória pelo adiamento da CPI. A gente leva tudo para o Ministério Público.
- Essa decisão está tomada?
Sem dúvida. Faremos isso nas duas CPIs, a das ONGs e a da Petrobras.
- O governo alega que a oposição rompeu o acordo na CPI das ONGs?
O argumento é furado. Eles acham bonito ter os dois postos de controle na CPI da Petrobras e acham ruim a gente ter os dois na outra. Fomos obrigados a ter o controle nas ONGs porque há dois anos que eles estão enrolando, sem investigar nada. Hoje apresentei roteiro de trabalho completo.
- Esse roteiro inclui apurações engavetadas?
É basicamente o que estava engavetado. Considerando-se as apurações sugeridas, a CPI das ONGs é ótima. Sob o ângulo do que foi providenciado ela não existiu.
- Aloizio Mercadante condiciona a instalação da CPI da Petrobras à devolução da relatoria das ONGs à oposição. Insiste em que houve quebra de acordo.
O que o Aloizio não diz é que eles estão quebrando uma praxe. Nós somos o bloco de maior bancada. PSDB e DEM tem 27 senadores. Pela proporcionalidade, temos direito a um dos postos de comando nas CPIs. Ao negar esse direito, eles criam um clima selvagem no Senado. Tinham tanto respeito pela praxe que concordaram em compartilhar a CPI das ONGs. Agora, como pintou outra CPI que é vista como capital para eles, não querem mais compartilhar. Só há uma razão para isso.
- Que razão?
Tenho a impressão de que eles tem medo de que a gente saiba mais do que realmente sabemos. E o que a gente sabe já é de meter medo.
- O que a oposição sabe?
Já levantamos um histórico da empresa. Já sabemos quem é sério e quem não é. Tanto que o tal petista Guilherme Estrella [diretor de Exploração e Produção da Petrobras] nós decidimos ressalvar. É pessoa direita. Não temos o que dizer dele. Não podemos dizer o mesmo de outros personagens.
- Por exemplo.
Não temos a mesma confiança em relação a Paulo Roberto Costa [diretor de Abastecimento], Renato Duque [diretor de Serviços] e Wilson Santarosa [gerente-executivo de Marketing]. Esses, por exemplo, nós estamos olhando com lupa. Não merecem de nós a mesma confiança que depositamos no doutor Estrella.
- O que há de concreto nessa sistematização de denúncias?
É muita coisa. Na hora própria, vai aparecer. Instalada a CPI, vamos entrar com dezenas de requerimentos. Inviabilizado esse caminho, vamos ao Ministério Público.
- O PT diz que, sob FHC, não teve nem presidência nem relatoria de CPI.
O argumento é pueril. Nessa época, eles só tinham oito senadores. Eram do tamanho do PTB de hoje, que tem sete. Os partidos que tinham o direito de participar do comando de CPIs eram o DEM, então PFL, o PSDB e o PMDB. Eles queriam o quê? Seria o mesmo que exigir agora que o PTB presida ou relate CPIs. A comparação é exdrúcula. Juntos, PSDB e DEM tem 27 senadores.
- Mercadante alega que a oposição quer CPI em Brasília e bloqueia CPIs em São Paulo e no Rio Grande do Su. Verdade, não acha?
Esse é outro velho argumento do PT. São adeptos da seguinte teoria: eu não te investigo e tu não me investigas. Essa é uma pergunta que o Aloizio Mercadante tem que fazer aos deputados estaduais desses Estados, não a mim. Perguntem ao governador [José] Serra, à governadora Yeda [Crusius], pra mim não. Se for necessário fazer CPIs nesses Estados, que façam. Não tenho nada contra. Diziam que não teve CPI no governo FHC. Houve 21 em oito anos. Uma delas, a do Proer, investigou até o Banco Central.
- O que acha do argumento de que a CPI obscurece o debate do pré-sal?
Esse debate é relevante e não tem porque ser evitado. Temos tanto cuidado com o pré-sal que estamos preservando o diretor dessa área, o doutor Guilherme Estrella. O que não aceitamos é que, a pretexto de privilegiar o debate estratégico, fechemos os olhos para a o aparelhando da Petrobras. A turma lá continua malversando com essa conversa de pré-sal. Não aceitamos que se coloque acima da lei uma empresa que deve respeito às leis.
- O PSDB quer privatizar a Petrobras?
Não. É o contrário disso. Queremos reestatizar a empresa. Queremos evitar que ela vire uma PDVSA [a estatal petrolífera da Venezuela] Já investigamos o presidente Lula no mensalção, investigamos o presidente Collor no impeachment. Por que a Petrobras não pode ser investigada? A empresa por acaso virou o dogma da Virgem Maria?
- Receia que CPI nem seja instalada?
Por ora, não chego a tanto. Até porque vai chegar uma hora em que os fatos vão se impor às manobras.
- Trabalha com a hipótese de abrir mão da relatoria da CPI das ONGs?
Não. Eles, se quiserem, que perpetrem a violência. Podem fazer, dispõem de número para isso. Mas não será com a nossa concordância. Mostramos um plano de trabalho. Talvez não sejam capazes de cumpri-lo. Mas não terão como fugir dele.
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‘Sem acordo, CPI da Petrobras é comissão natimorta’
Ag. Senado
Depois de dois adiamentos, a instalação da CPI da Petrobras foi marcada para o meio-dia desta quarta (10). Não será instalada, contudo.
A exemplo do que fez na semana passada, a bancada do governo decidiu esvaziar a sessão. Na linha de frente da articulação, Aloizio Mercadante falou ao blog.
O líder do PT condicionou o início da investigação da Petrobras à devolução da relatoria da CPI das ONGs ao governista Ignácio Arruda (PCdoB-CE).
Disse que, mantido o impasse, nenhuma das duas CPIs irá adiante.
“Sem acordo, uma CPI, a da Petrobras, é comissão natimorta. A outra, das ONGs, fica inviabilizada porque não daremos quorum para deliberação”. Vai abaixo a entrevista:
- Por que não será instalada a CPI da Petrobras?
Criou-se um impasse. A oposição contribuiu decisivamente. Eles sabem que não podem fazer o estão fazendo.
- Refere-se a troca do relator da CPI das ONGs?
Sim. Fizemos um acordo. Honramos. Demos a presidência da CPI das ONGs para a oposição. Ficamos com a relatoria. O presidente era o Raimundo Colombo [DEM-SC]. No ano passado, quiseram trocar. Indicaram o Heráclito [Fortes, DEM-PI]. Elegemos novamente o presidente deles. Não é admissível que queiram afastar o relator do nosso bloco [Ignácio Arruda, PCdoB-CE], nomeando outro [Arthur Virgílio, PSDB-AM].
- Não é prerrogativa do presidente da CPI indicar o relator?
Formulamos uma questão de ordem. Cabe ao presidente responder. Se ele nega, podemos recorrer ao plenário da CPI. Em última instância, ao plenário do Senado.
- Se aceitou compartilhar o comando na CPI das ONGs, por que o governo não aceita que o presidente da CPI da Petrobras seja da oposição?
Podemos fazer acordo numa comissão e não fazer na outra. Antes da formalização da CPI, houve um acordo. Seria feita uma audiência pública com o presidente da Petrobras. O PSDB rompeu esse acordo. Temos a prerrogativa de não compartilhar o comando da comissão. Chegamos a um impasse.
-As duas CPIs ficam inviabilizadas?
Corre-se esse rico. Sem acordo, uma CPI, a da Petrobras, é comissão natimorta. A outra, das ONGs, fica inviabilizada porque não daremos quorum para deliberação.
- Estão dispostos a transigir?
Se não recuarem nas ONGs, não há como. Somos maioria. Nos oito anos de FHC eles nunca nos deram presidência ou relatoria de CPIs.
- PT e PMDB já se entenderam quanto aos nomes do relator e do presidente?
Não voltei a tratar desse assunto. Mas na hora em que recsolver o impasse das ONGs isso também se resolve.
- É verdade que sua relação com Renan Calheiros é conturbada?
Diferenças pessoais e políticas entre líderes partidários são próprias da democracia. Os meus compromissos com esse governo estão muito acima dessas diferenças. Então, vou trabalhar para superá-las.
- Lula disse que chamaria os dois para uma convera. Foi chamado?
Não. Mas ele já conhece a minha opinião. Acho que o relator da CPI deveria ser alguém que tenha consistência para tratar de um tema complexo e sensível como é a Petrobras.
- Essa pessoa é o Romero Jucá?
Creio que é um nome adequado. É o líder do governo, tem experiência parlamentar e vivência de política publica. Preenche as condições para ser um bom relator.
- Não receia que a obstrução da oposição paralise o Senado?
Não. Agora é véspera de feriado. O quorum está baixo. Na semana que vem vai ter quorum é vamos votar. Obstrução tem limite. Vai chegar a medida provisória do programa Minha Casa, Minha vida. Eles vao derrubar? O Lula vai dizer: estávamos querendo fazer um milhao de casas e não será mais possível porque a oposição não deixou aprovar a legislação. Acha que a oposição sustenta uma posição como essa?
- Os sucessivos adiamentos não passam a idéia de que o governo receia a investigação da Petrobras?
Não se trata disso. O que se discute é que tínhamos um acordo na CPI das ONGs. Eles não tem legitimidade, votos e amparo regimental para destituir o nosso relator.
- Não há o que ser investigado na Petrobras?
A melhoria do padrão de gestão da empresa é uma boa agenda. Mas não é isso o que querem. A Petrobras está se transformando em palco de disputa política.
- Não crê na sinceridade de propósitos da oposição?
Se o PSDB acha que CPI é o caminho para aprimorar a Petrobras, por que não tem CPI em São Paulo? Por que não instalam a CPI para investigar o governo gaúcho? No Senado, eles tem assinaturas para instalar CPIs. Só acho que o debate é outro.
- Qual é o debate?
A grande questão é: O que vamos fazer com o pré sal? As reservas serão mantidas sob controle do Estado ou vão continuar sendo privatizadas pelo regime de concessão? Como vamos repartir os royalties do petróleo?
- Acha que a investigação impede esse debate?
Em 74, a Venezuela descobriu suas megareservas. Celso Furtado escreveu um ensaio. Dizia que o futuro da Venezuela dependia da discussão que fosse feita naquela época sobre o petróleo. Seria a primeira nação desenvolvida da América Latina ou ficaria prisioneira do petróleo. Uma visão profética. Aqui, considerando-se o desvirtuamento do debate sobre a Petrobras, corremos o risco de cometer equívocos semelhantes."
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terça-feira, 9 de junho de 2009
MINC; O PT, E A QUESTÃO DO MEIO AMBIENTE
No início, o preconceito marcava a ótica das empresas, assim como dos sindicatos e partidos – especialmente os de esquerda - sobre a questão ecológica. Na visão contábil estreita dos paradigmas teóricos da economia no século passado, o custo ambiental não era levado em consideração para a formação dos preços e, em geral, as empresas não gostavam dos ambientalistas. Empresários e sindicalistas viam nos ecologistas um fator de pressão pela elevação dos custos em função da necessidade de investimentos na recuperação ou preservação do ambiente, que a produção nos moldes antigos gerava.
Muita gente ainda não assimilou essa compreensão. Os sindicatos não gostavam dos ambientalistas, pois viam na elevação dos custos de produção e dos preços dos produtos daí decorrente, um fator de desaquecimento da economia, e, conseqüentemente, de restrição à geração de empregos. Além dessa visão obtusa, os partidos de esquerda, em geral ligados à luta sindical, agregavam outro preconceito à forma como viam os ambientalistas. A luta pela preservação do meio ambiente era vista como um passa-tempo romântico de jovens desocupados.
Quem participou do surgimento e ascensão do movimento ambientalista no Brasil nos anos 1970 e durante a década de 1980, sabe do que se está falando. Segmentos do movimento ambientalista brasileiro tentaram aproximar o PT de sua causa, oportunizando visitas de deputados do Partido Verde alemão ao Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, então presidido por Vicente Paulo da Silva, o Vicentinho, e da própria direção nacional do PT. Na diplomacia tudo se passava como se as simpatias fossem recíprocas. Pura hipocrisia.
Foi com o crescimento dos Verdes em âmbito mundial, e com o surgimento de Chico Mendes, um “sindicalista-ambientalista”, que as coisas mudaram um pouco. Hoje em dia, como o ambientalismo ganhou a simpatia das amplas maiorias sociais; empresas; sindicatos e partidos viram-se obrigados a mudar sua postura em relação à questão ambiental. Atualmente, são raras as grandes empresas do setor industrial, entidades civis representativas, partidos e governos que não tenham suas políticas ambientais. Alguns mudaram e abraçaram a causa por assimilarem sinceramente a compreensão correta de que a preservação do meio ambiente é essencial à sustentabilidade da vida no planeta. Outros mudaram, seja no meio empresarial, seja no meio sindical ou político, por razões de mercado. Isto é, como as maiorias acham a questão ambiental relevante, é uma questão de sobrevivência política ou econômica dar importância ou transparecer que se dá importância à ecologia.
Hoje, o conceito de sustentabilidade é estratégico para o desenvolvimento de empresas e nações. Ele envolve algo mais complexo do que a preservação do meio ambiente apenas, como em geral é compreendido. Trata-se de aprender a sobreviver numa sociedade que se articula como rede distribuída e na qual a mudança constante e veloz é ingrediente intrínseco à dinâmica dos processos sociais, econômicos, políticos e culturais. É nesse contexto que a aceitação da ideia de que é impossível controlar a natureza vai sendo, gradativamente, substituída pela ideia de que é preciso aprender a conviver em harmonia com ela. Isso muda a concepção paradigmática que se tem da ciência, e também, da gestão da economia, das empresas e das políticas públicas em geral. Numa sociedade capitalista a preservação do maior ambiente pode ser uma atividade lucrativa, além de essencial à sobrevivência dos negócios e da sociedade em geral. No momento em que os empreendedores entenderem isso, andaremos a passos largos na direção da preservação da natureza.
No entanto, assim como há inúmeras empresas que usam o marketing ecológico como fraude para encobrir práticas que, de fato, não incorporaram o paradigma ecológico à sua visão da economia e da produção, há partidos políticos que fazem o mesmo. No caso dos partidos, a adesão se dá por mera questão de captação de votos no mercado político, sem que, de fato, essas agremiações dêem a devida importância à questão ambiental em sua visão de mundo, em seus programas de governo e em suas práticas cotidianas. Esse é o caso do PT.
Não se está aqui a defender uma visão fundamentalista e religiosa do ambientalismo. Hoje em dia, todas as religiões e correntes de pensamento político têm os seus “xiitas”. O fundamentalismo sempre existiu, mas hoje ele é mais uma das tantas doenças sociais da pós-modernidade. O debate sobre os transgênicos foi emblemático no sentido de mostrar até onde pode ir o “xiitismo” ambientalista no Brasil. Mas foi, também, extremamente educativo no sentido de comprovar até onde vai a “devoção” do PT à causa ambiental.
Em meio à tempestade de informações contraditórias que a mídia divulga sobre os benefícios e malefícios simultâneos de determinados produtos de consumo, só resta entregar à sorte o destino da nossa saúde. A guerra de marketing entre fabricantes de produtos alimentícios, farmacêuticos, de combustíveis e outros, converteu em pseudonotícia o que é, de fato, “jornalanda”. Isto é, propaganda disfarçada de jornalismo científico. Se fosse possível, o ideal seria somente consumir produtos naturais. Mas, vá saber o que é realmente natural nas prateleiras dos supermercados?
O debate mundial sobre biocombustíveis é notório caso de guerra de lobbies na mídia. O debate sobre aquecimento global, idem. Poucos sabem que há uma corrente de cientistas boicotada pela mídia e pelas agências de financiamento de pesquisa, que afirma que o aquecimento atual tem causas naturais e cíclicas. Enquanto isso, muita gente ganha audiência, votos e dinheiro fazendo estardalhaço em sentido contrário. Quem tem razão? Não dá para saber. Pode-se escolher um lado, mas ao fazê-lo, se estará agindo com se escolhe um time de futebol para torcer.
Ouvindo-se especialistas, por exemplo, aprende-se que não há transgênicos em geral. As conclusões da ciência se aplicam exclusivamente a cada produto pesquisado. Caso a caso. Aprende-se, também, que as conclusões a que a Ciência já chegou são sobre os efeitos de curto prazo dos transgênicos, alguns comprovadamente inofensivos, se considerados os efeitos sobre a saúde humana no espaço de tempo em que as pesquisas foram realizadas. Não há resultados sobre os efeitos de longo prazo, simplesmente por que não há prazo suficiente transcorrido entre a criação dos produtos e seu consumo prolongado. Conseqüentemente, ainda não sabemos qual o efeito potencial do consumo prolongado da maioria dos produtos geneticamente modificados. Assim como também não sabemos os efeitos do consumo prolongado de Coca-Cola, água mineral engarrafada, açúcar refinado, água encanada e tratada (?), margarina, salsichas, etc.
Dessa maneira, a atitude mais sensata e inteligente é incentivar a continuidade das pesquisas, pois estão em jogo, além de questões estratégicas sobre o futuro da economia das nações, a alimentação da humanidade e a extinção da fome no mundo nos próximos anos. Assim, rotular os produtos com selos de identificação, de forma a que o consumidor possa escolher livremente, sobre o risco que assume correr, é solução no mínimo sensata.
Politizar e ideologizar a questão dos transgênicos, nessas circunstâncias - como de resto quaisquer questões relacionadas à ecologia - é algo que somente interessa aos fundamentalistas românticos, aos políticos mal intencionados, interessados em manipular eleitoralmente a desinformação ou a ingenuidade dos incautos. Na juventude, o romantismo e a ingenuidade são méritos. Depois de certa idade, é indicador de falta de experiência; ou de inteligência.
A aproximação do PT com o ambientalismo se viabilizou por motivos eleitoreiros. E, foi facilitada por Chico Mendes, cujo discurso articulava, de forma coerente, a questão da preservação do meio ambiente com as questões ligadas à sobrevivência econômica, dos trabalhadores extrativistas, autoproclamados “povos da floresta”, organizados num movimento de repercussão internacional que proporcionou a ascensão política da ministra do Meio Ambiente.
A combativa senadora Marina Silva foi às lágrimas ante a opção da cúpula do governo do qual participava e segue defendendo, pelo pragmatismo econômico em detrimento das posições dos ecologistas com relação à edição da MP dos transgênicos. Pragmáticos na garantia do faturamento das exportações de soja e de olho no potencial opositor do próspero setor do agronegócio, como possível obstáculo à reeleição de Lula, o Palácio do Planalto cedeu às pressões dos produtores rurais. Com isso, abriu sérias arestas com os ambientalistas, a ponto de quase, já naquela época, demitir-se a ministra do Meio Ambiente, um verdadeiro ícone internacional do movimento. Imaginem-se as pressões que levaram a sua demissão agora.
De olho na penetração eleitoral dos ambientalistas; e sempre preocupados com sua imagem perante a opinião pública nacional e internacional, os petistas resolveram compensar os ecologistas, nomeando Carlos Minc, um “verde pragmático”, para substituir Marina Silva.
Minc é rápido. Percebeu a armadilha e tratou de virar a trajetória da bala para o atirador. Por que Marina Silva caiu? Obviamente porque contrariava interesses que, quem a substituiu espera que o novo ministro não contrarie mais. Se não, porque mudar de ministro? As circunstâncias são evidentes, ainda que Minc se recuse a vestir a carapuça de alguém que veio para desbloquear o que a ex-ministra barrava.
Fernando Gabeira, um legítimo franco atirador da política brasileira, que jamais poderá ser acusado de falta de inteligência ou de falta de senso de oportunidade, e cujos compromissos com a causa ambiental são insuspeitos, errou depois de velho ao imaginar que o PT não era o que é. Mas teve o suficiente desprendimento de cair fora do governo ao perceber o erro, certamente por descobrir quais são os verdadeiros compromissos do PT com a causa da ecologia. Muitos de seus companheiros do PV seguem no governo e aliados do PT. Com o tempo aprenderão o que Gabeira já aprendeu. E o que, talvez, Marina Silva esteja aprendendo.
Carlos Minc que se cuide. Chegou sua vez de enfrentar essa contradição. O PAC enpacou. Governo e produtores rurais, por razões distintas, querem dobrar a espinha de Minc. Chegou a hora da verdade. Ou Lula apóia Minc, ou prioriza seus interesses eleitorais.
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segunda-feira, 8 de junho de 2009
Jogo do Poder com Aécio Neves (6 de 6)
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domingo, 7 de junho de 2009
Brizola e a revolução chinesa
Blog da br historia
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Revolução de exportação
Quem teria feito esta provocação, aos berros, durante a Primeira Conferência de Solidariedade com os Povos da América Latina, em Havana, no ano de 1967? Ninguém menos do que o líder cubano Fidel Castro. Pelo menos é o que diz um dos mais surpreendentes documentos secretos divulgados esta semana pela CIA.
Segundo a Inteligência americana, Fidel Castro teria feito várias tentativas de exportar para o Brasil uma revolução nos moldes da cubana, antes mesmo do golpe militar de 1964.
Seu principal investimento seria em Francisco Julião, que comandava as ligas camponesas no Nordeste, a quem deu ajuda financeira e armas.
Segundo os americanos, Fidel teria insuflado a dissidência o PC do B, descontente com a postura apaziguadora de Luiz Carlos Prestes, então líder do PCB, e ligado à URSS.
"Castro incentivava os dissidentes brasileiros a organizar atividades de guerrilha o mais rapidamente possível, em coordenação com demonstrações em massa nas cidades", diz o relatório da CIA.
Paranóia dos americanos em época de guerra fria, que acabou contaminando os militares brasileiros, ou ameaça real? Qual a sua opinião?
blog da br história
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CPI da Petrobras: o que tem lá no fundo
Artur Henrique Silva Santos
É revoltante assistir velhos personagens do PSDB e do ex-PFL falarem em "moralidade", "comportamento republicano" e outros valores que eles sempre foram pródigos em pisotear.
Há muitos mecanismos de fiscalização e controle sobre as empresas, privadas ou públicas. Mecanismos de Estado e até mesmo de mercado, importantes para apurar possíveis desvios e corrigi-los se houverem. Defendemos a intensificação desses instrumentos e da efetividade deles.
A Petrobras, por ter maioria acionária pertencente à União, deve mesmo prestar contas de sua gestão, com maior rigor até que outras corporações, a título de exemplo e para fazer valer seu papel social em todos os momentos. A CUT sempre defendeu isso e acredita inclusive que deve haver participação social direta na gestão, com a presença de representantes eleitos pelos trabalhadores e pelos demais setores produtivos.
Que fique claro de uma vez. Tem de haver controle, mas não pode ser o controle do PSDB e do ex-PFL. A instalação da CPI - que o próprio ex-PFL achava precipitada, ligeira demais - tem evidente conotação eleitoral, e todos pelas ruas sabem disso. Dentre os objetivos inconfessáveis da oposição, o que mais aparece é a tentativa de inviabilizar o governo Lula.
Outras intenções perversas ainda não são tão evidentes assim. O papel dos movimentos sociais é trazer essas razões para a superfície, através das mobilizações que já iniciamos a partir da última quinta, no Rio de Janeiro.
Quais essas razões? Os movimentos sociais e os partidos de esquerda estão elaborando propostas e pressionando o governo federal para a implementação de uma nova lei do petróleo, que acabe com os leilões para exploração das jazidas e especialmente para garantir que as imensas riquezas da camada pré-sal sejam geridas por um fundo social soberano. Através desse fundo, parte expressiva dos resultados financeiros da comercialização do petróleo seria destinada para programas e políticas públicas de educação, combate à pobreza, cultura, saúde, infraestrutura, pesquisa, segurança e outras, destinadas ao pagamento da dívida social existente em nosso país.
Com a possibilidade cada vez maior de nascer um novo marco regulatório com essas características, a CPI, detonada a partir de denúncias que os mecanismos de controle podem facilmente resolver, é uma iniciativa oportunista de implodir uma mudança de tamanha monta.
Assim, a oposição espera manter tudo como está, com a vigência da legislação criada no governo FHC e que permite a multinacionais e ao capital especulativo continuar se apropriando das reservas brasileiras. Lembremos que a fonte de energia representada pelo petróleo é cada vez mais escassa no mundo, especialmente nos países do Hemisfério Norte. Segundo dados apresentados em nosso Seminário Energia, Desenvolvimento e Soberania, realizado ano passado, os Estados Unidos têm reservas próprias para mais quatro anos, no máximo. O PSDB e o ex-PFL, artíficies da privatização tresloucada dos anos 1990, portam-se como a 4ª Frota estadunidense, que passou a lançar olhares ameaçadores sobre nossa costa assim que foi anunciada a descoberta do pré-sal, quando a era Bush começava a naufragar.
Além de querer minar possibilidades de futuro, a oposição não hesitará em causar a interrupção de obras que têm investimentos da Petrobrás. Há muitos projetos, seja no âmbito do PAC ou não, com investimentos vindos dessa estatal. Se a CPI se degenerar totalmente, pode comprometer desde já obras essenciais para o desenvolvimento regional e nacional. Num cenário de crise internacional e sendo a Petrobrás o maior investidor do país - 92% de todos os investimentos puxados por estatais e com desembolso maior que a própria União - a oposição quer fazer o Brasil patinar em meio à crise.
Agora, através de ações na mídia, tentam vincular nossas mobilizações a patrocínios ou convênios que os movimentos sociais receberam da empresa. Esquecem de dizer que entidades empresariais, incluindo a mídia, e ONGs ligadas à oposição também recebem esse tipo de investimento, algo comum a uma empresa do porte da Petrobrás. De nossa parte, podemos dizer com tranquilidade que todas as ações da CUT Nacional em parceria com qualquer empresa ou órgão do governo foram realizadas e suas prestações de contas aprovadas pelos órgãos controladores.
Artur Henrique Silva Santos é presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT).
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DOCUMENTÁRIO / MATAS DO ATLÂNTICO - PARTE II
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ERIC HOBSBAWM
O desafio da razão: Manifesto para a renovação da história
É tempo de restabelecer a coalizão daqueles que desejam ver na história uma pesquisa racional sobre o curso das transformações humanas, contra aqueles que a deformam sistematicamente com fins políticos e simultaneamente, de modo mais geral, contra os relativistas e os pós-modernos que se recusam a admitir que a história oferece essa possibilidade. A análise é de Eric Hobsbawm.
Eric Hobsbawm
"Até agora, os filósofos não fizeram mais do que interpretar o mundo; trata-se de mudá-lo." Os dois enunciados da célebre "Teses sobre Feuerbach", de Karl Marx, inspiraram os historiadores marxistas. A maioria dos intelectuais que aderiram ao marxismo a partir da década de 1880 —entre eles os historiadores marxistas— fizeram isso porque queriam mudar o mundo, junto com os movimentos operários e socialistas; movimentos que se transformariam, em grande medida devido à influência do marxismo, em forças políticas de massas.
Essa cooperação orientou de maneira natural os historiadores que queriam transformar o mundo na direção de certos campos de estudo —fundamentalmente, a história do povo ou da população operária— os quais, se bem atraíam naturalmente as pessoas de esquerda, não tinham em sua origem nenhuma relação particular com uma interpretação marxista. Por outro lado, quando esses intelectuais deixaram de ser revolucionários sociais, a partir da década de 1890, com freqüência também deixaram de ser marxistas.
A revolução soviética de outubro de 1917 reavivou esse compromisso. Lembremos que os principais partidos social-democratas da Europa continental abandonaram completamente o marxismo apenas na década de 1950, e às vezes ainda depois disso. Essa revolução gerou, também, o que poderíamos chamar de uma historiografia marxista obrigatória na URSS e nos Estados, que depois foi adotada por regimes comunistas. A motivação militante foi reforçada durante o período do antifascismo.
A partir da década de 1950 essa tendência começou a decair nos países desenvolvidos —mas não no Terceiro Mundo— apesar de que o considerável desenvolvimento do ensino universitário e a agitação estudantil geraram, dentro da universidade, na década de 1960, um novo e importante contingente de pessoas decididas a mudar o mundo. Contudo, apesar de desejar uma mudança radical, muitas delas já não eram abertamente marxistas, e algumas já não eram marxistas em absoluto.
Esse ressurgimento culminou na década de 1970, pouco antes do início de uma reação massiva contra o marxismo, mais uma vez por razões essencialmente políticas. Essa reação teve como principal efeito —exceto para os liberais, que ainda acreditam nisso— o aniquilamento da idéia de que é possível predizer, apoiados na análise histórica, o sucesso de uma forma particular de organizar a sociedade humana. A história havia se dissociado da teleologia.
Considerando as incertas perspectivas que se apresentam aos movimentos socialdemocratas e social-revolucionários, não é provável que assistamos a uma nova onda politicamente motivada de adesão ao marxismo. Mas devemos evitar cair em um centrismo ocidental excessivo. A julgar pela demanda de que são objeto meus próprios livros de história, comprovo que ela se desenvolve na Coréia do Sul e em Taiwan, desde a década de 1980, na Turquia, desde a década de 1990, e que há sinais de que atualmente avança no mundo árabe.
A virada social
O que aconteceu com a dimensão "interpretação do mundo" do marxismo? A história é um pouco diferente, ainda que paralela. Concerne ao crescimento do que se pode chamar de reação anti-Ranke, da qual o marxismo constituiu um elemento importante, apesar de que isso nem sempre foi totalmente reconhecido. Tratou-se de um movimento duplo.
Por um lado, esse movimento questionava a idéia positivista segundo a qual a estrutura objetiva da realidade era, por assim dizer, evidente: bastava com aplicar a metodologia da ciência, explicar por que as coisas tinham ocorrido de tal ou qual maneira e descobrir wie es eigentlich gewessen (como ocorreu realmente). Para todos os historiadores, a historiografia se manteve e se mantém enraizada em uma realidade objetiva, ou seja, a realidade do que ocorreu no passado; contudo, não está baseada em fatos e, sim, em problemas, e exige investigação para compreender como e por que esses problemas —paradigmas e conceitos— são formulados da maneira em que são o em tradições históricas e em meios socioculturais diferentes.
Por outro lado, esse movimento tentava aproximar as ciências sociais da história e, em conseqüência, englobá-las em uma disciplina geral, capaz de explicar as transformações da sociedade humana. Segundo a expressão de Lawrence Stone, o objeto da história deveria ser "propor as grandes perguntas do por quê". Essa "virada social" não veio da historiografia, senão das ciências sociais —algumas delas incipientes como tais— que naquele momento firmavam-se como disciplinas evolucionistas, ou seja, históricas.
Na medida em que é possível considerar Marx como o pai da sociologia do conhecimento, o marxismo —apesar de ter sido denunciado erradamente em nome de um suposto objetivismo cego— contribuiu para dar o primeiro aspecto desse movimento. Além disso, o impacto mais conhecido das idéias marxistas —a importância outorgada aos fatores econômicos e sociais— não era especificamente marxista, ainda que a análise marxista pesou nessa orientação, que estava inscrita em um movimento historiográfico geral, visível a partir da década de 1890, e que culminou nas décadas de 1950 e 1960, para benefício da geração de historiadores à qual pertenço, que teve a possibilidade de transformar a disciplina.
Essa corrente socio-econômica superava o marxismo. A criação de revistas e instituições de história econômico-social às vezes foi obra —como na Alemanha— de socialdemocratas marxistas, como ocorreu com a revista Vierteljahrschrift em 1893. Não aconteceu da mesma maneira na Grã Bretanha, nem na França, nem nos Estados Unidos. E inclusive na Alemanha, a escola de economia, marcadamente histórica, não tinha nada de marxismo. Somente no Terceiro Mundo do século XIX (Rússia e os Balcãs) e no do século XX, a história econômica adotou uma orientação principalmente social-revolucionária, como toda "ciência social". Em conseqüência disto, foi muito atraída por Marx.
Em todos os casos, o interesse histórico dos historiadores marxistas não se centrou tanto na "base" (a infra-estrutura econômica) como nas relações entre a base e a superestrutura. Os historiadores explicitamente marxistas sempre foram relativamente escassos.
Marx influenciou a história principalmente através dos historiadores e dos pesquisadores em ciências sociais que retomaram as questões que ele colocava, tenham eles trazido, ou não, outras respostas. Por sua vez, a historiografia marxista avançou muito em relação ao que era na época de Karl Kautsky e de Georgi Plekhanov, em boa parte graças à sua fertilização por outras disciplinas (fundamentalmente a antropologia social) e por pensadores influenciados por Marx e que completavam seu pensamento, como Max Weber.
Se destaco o caráter geral dessa corrente historiográfica, não é por vontade de subestimar as divergências que contém, ou que existiam no seio de seus componentes. Os modernizadores da história colocaram-se as mesmas questões e consideravam-se comprometidos nos mesmos combates intelectuais, seja que tenham buscado inspiração na geografia humana, na sociologia durkheimiana e nas estatísticas, como na França (simultaneamente, a escola dos Anais e Labrousse), ou na sociologia weberiana, como a Historische Sozialwissenschaft na Alemanha Federal, ou mesmo no marxismo dos historiadores do Partido Comunista, que foram os vectores da modernização da história na Grã Bretanha, ou que, pelo menos, fundaram sua principal revista.
Uns e outros consideravam-se aliados contra o conservadorismo na história, mesmo quando suas posições políticas ou ideológicas eram antagônicas, como Michael Postan e seus alunos marxistas britânicos. Essa coalizão progressista encontrou expressão exemplar na revista Past & Pressent, fundada em 1952, muito respeitada no ambiente dos historiadores. O sucesso dessa publicação foi devido que os jovens marxistas que a fundaram opuseram-se deliberadamente à exclusividade ideológica, e a que os jovens modernizadores provenientes de outros horizontes ideológicos estavam dispostos a juntar-se a eles, uma vez que sabiam que as diferenças ideológicas e políticas não eram um obstáculo para o trabalho conjunto.
Essa frente progressista avançou de maneira espetacular entre o final da Segunda Guerra Mundial e a década de 1970, naquilo que Lawrence Stone denomina "o amplo conjunto de transformações na natureza do discurso histórico". Isso até a crise de 1985, quando ocorreu a transição dos estudos quantitativos para os estudos qualitativos, da macro para a micro-história, das análises estruturais aos relatos, do social para os temas culturais. Desde então, a coalizão modernizadora está na defensiva, igual que seus componentes não marxistas, como a história econômica e social.
Na década de 1970, a corrente dominante em história tinha sofrido uma transformação tão grande, especialmente sob a influência das "grandes questões" colocadas ao modo de Marx, que escrevi estas linhas: "Com freqüência é impossível dizer se um livro foi escrito por um marxista ou por um não-marxista, a menos que o autor anuncie sua posição ideológica. Espero com impaciência o dia em que ninguém se pergunte se os autores são marxistas ou não". Mas, como também apontava, estávamos longe de semelhante utopia.
Desde então, pelo contrário, foi necessário sublinhar com maior energia qual pode ser a contribuição do marxismo para a historiografia. Coisa que não acontecia há muito tempo. Também porque é preciso defender a história contra aqueles que negam sua capacidade de ajudar-nos a compreender o mundo, e porque novos desenvolvimentos científicos transformaram completamente o calendário historiográfico.
No plano metodológico, o fenômeno negativo mais importante foi a edificação de uma série de barreiras entre o que ocorreu, ou o que ocorre, em história e nossa capacidade para observar esses fatos e entendê-los. Esses bloqueios obedecem à recusa em admitir que existe uma realidade objetiva, e não construída pelo observador com fins diversos e mutáveis, ou ao fato de afirmar que somos incapazes de superar os limites da linguagem, ou seja, dos conceitos, que são o único meio que temos para poder falar do mundo, incluindo o passado.
Essa visão elimina a questão de saber se existem esquemas e regularidades no passado, a partir dos quais o historiador pode formular propostas significativas. Contudo, também há razões menos teóricas que levam a essa recusa: argumenta-se que o curso do passado é contingente demais, ou seja, que é preciso excluir as generalizações, uma vez que praticamente tudo poderia ocorrer ou teria podido ocorrer. De modo implícito, esses argumentos miram todas as ciências. Vamos passar por alto tentativas mais fúteis de voltar a velhos conceitos: atribuir o curso da história a altos responsáveis políticos ou militares, ou à onipotência das idéias ou dos "valores"; reduzir a erudição histórica à busca —importante mas em si insuficiente— de uma empatia com o passado.
O grande perigo político imediato que ameaça a historiografia atual é o "antiuniversalismo": "minha verdade é tão válida quanto a sua, independente dos fatos". Esse antiuniversalismo seduz naturalmente a história dos grupos identitários em suas diferentes formas, para a qual o objeto essencial da história não é o que ocorreu, mas como isso que ocorreu afeta os membros de um grupo em particular. De modo geral, o que conta para esse tipo de história não é a explicação racional, mas a "significação"; não o que ocorreu, mas como sentem o que ocorreu os membros de uma coletividade que se define por oposição às demais em termos de religião, de etnia, de nação, de sexo, de modo de vida, ou de outras características.
O relativismo exerce atração sobre a história dos grupos identitários. Por diferentes razões, a invenção massiva de contra-verdades históricas e de mitos, outras tantas tergiversações ditadas pela emoção, alcançou uma verdadeira época de ouro nos últimos trinta anos. Alguns desses mitos representam um perigo público —em países como a Índia durante o governo hinduísta, nos Estados Unidos e na Itália de Silvio Berlusconi, para não mencionar muitos outros dos novos nacionalismos, acompanhados ou não de manifestações de integrismo religioso.
De qualquer modo, se por um lado esse fenômeno deu lugar a muito palavrório e bobagens nas margens mais longínquas da história de grupos específicos —nacionalistas, feministas, gays, negros e outros— por outro, gerou desenvolvimentos históricos inéditos e extremamente interessantes no campo dos estudos culturais, como o "boom da memória nos estudos históricos contemporâneos", como Jay Winter o denomina. Os Lugares de Memória, coordenados por Pierre Nora, é um bom exemplo.
Reconstruir a frente da razão
Diante de todos esses desvios, é tempo de restabelecer a coalizão daqueles que desejam ver na história uma pesquisa racional sobre o curso das transformações humanas, contra aqueles que a deformam sistematicamente com fins políticos e simultaneamente, de modo mais geral, contra os relativistas e os pós-modernos que se recusam a admitir que a história oferece essa possibilidade. Dado que entre esses relativistas e pós-modernos há quem se considere de esquerda, poderiam surgir inesperadas divergências políticas capazes de dividir os historiadores.
Portanto, o ponto de vista marxista é um elemento necessário para a reconstrução da frente da razão, como foi nas décadas de 1950 e 1960. De fato, a contribuição marxista provavelmente seja ainda mais pertinente agora, dado que os outros componentes da coalizão dessa época renunciaram, como a escola dos Anais de Fernand Braudel e a "antropologia social estrutural-funcional", cuja influência entre os historiadores foi tão importante. Esta disciplina foi particularmente perturbada pela avalanche em direção à subjetividade pós-moderna.
Contudo, enquanto os pós-modernos negavam a possibilidade de uma compreensão histórica, os avanços nas ciências naturais devolviam à história evolucionista da humanidade toda sua atualidade, sem que os historiadores percebessem cabalmente. E isto de duas maneiras. Em primeiro lugar, a análise do DNA estabeleceu uma cronologia mais sólida do desenvolvimento desde o aparecimento do homo sapiens como espécie. Em particular, a cronologia da expansão dessa espécie originaria da África para o resto do mundo, e dos desenvolvimentos posteriores, antes do aparecimento de fontes escritas. Ao mesmo tempo, isso evidenciou a surpreendente brevidade da história humana —segundo critérios geológicos e paleontológicos— e eliminou a solução reducionista da sociobiologia darwiniana.
As transformações da vida humana, coletiva e individual, durante os últimos dez mil anos, e particularmente durante as dez últimas gerações, são consideráveis demais para serem explicadas por um mecanismo de evolução inteiramente darwiniano, pelos genes. Essas transformações correspondem a uma aceleração na transmissão das características adquiridas por mecanismos culturais e não genéticos; poderia dizer-se que se trata da revanche de Lamarck contra Darwin, através da história humana. E não serve de muito disfarçar o fenômeno com metáforas biológicas, falando de "memes" ao invés de "genes". O patrimônio cultural e o biológico não funcionam da mesma maneira.
Em síntese, a revolução do DNA requer um método particular, histórico, de estudo da evolução da espécie humana. Além disso, vale a pena mencioná-lo, proporciona um marco racional para a elaboração de uma história do mundo. Uma história que considere o planeta em toda a sua complexidade como unidade dos estudos históricos, e não como um entorno particular ou uma região determinada. Em outras palavras: a história é a continuação da evolução biológica do homo sapiens por outros meios.
Em segundo lugar, a nova biologia evolucionista elimina a estrita distinção entre história e ciências naturais, já eliminada em grande medida pela "historicização" sistemática destas ciências nas últimas décadas. Luigi Luca Cavalli-Sforza, um dos pioneiros multidisciplinares da revolução DNA, fala do "prazer intelectual de encontrar tantas semelhanças entre campos de estudo tão diferentes, alguns dos quais pertencem tradicionalmente aos pólos opostos da cultura: a ciência e as humanidades". Em síntese, essa nova biologia nos liberta do falso debate sobre o problema de saber se a história é ou não uma ciência.
Em terceiro lugar, ela nos leva inevitavelmente para a visão de base da evolução humana adotada pelos arqueólogos e os pré-historiadores, que consiste em estudar os modos de interação entre nossa espécie e seu meio ambiente, alem do crescente controle que ela exerce sobre esse meio. O que eqüivale essencialmente a fazer as perguntas que já fazia Karl Marx.
Os "modos de produção" (seja qual for o nome que se quiser dar-lhes) baseados em grandes inovações da tecnologia produtiva, das comunicações e da organização social —e também do poder militar— são o núcleo da evolução humana. Essas inovações, e Marx era consciente disso, não ocorreram e não ocorrem por elas mesmas. As forças materiais e culturais e as relações de produção são inseparáveis; são as atividades de homens e mulheres que constroem sua própria história, mas não no "vácuo", não fora da vida material, nem fora do seu passado histórico.
Do neolítico à era nuclear
Consequentemente, as novas perspectivas para a história também devem nos levar a essa meta essencial de quem estuda o passado, mesmo que nunca seja cabalmente realizável: "a história total". Não "a história de tudo", mas a história como uma tela indivisível onde todas as atividades humanas estão interconectadas. Os marxistas não são os únicos que se propuseram esse objetivo —Fernand Braudel também fez isso— mas foram eles que o perseguiram com mais tenacidade, como dizia um deles, Pierre Vilar.
Entre as questões importantes que suscitam estas novas perspectivas, a que nos leva à evolução histórica do homem é essencial. Trata-se do conflito entre as forças responsáveis pela transformação do homo sapiens, desde a humanidade do neolítico até a humanidade nuclear, por um lado, e por outro, as forças que mantêm imutáveis a reprodução e a estabilidade das coletividades humanas ou dos meios sociais, e que durante a maior parte da história as neutralizaram eficazmente. Essa questão teórica é central.
O equilíbrio de forças inclina-se de maneira decisiva em uma direção. E esse desequilíbrio, que talvez supere a capacidade de compreensão dos seres humanos, supera com certeza a capacidade de controle das instituições sociais e políticas humanas. Os historiadores marxistas, que não entenderam as conseqüências involuntárias e não desejadas dos projetos coletivos humanos do século XX, talvez possam, desta vez, enriquecidos por sua experiência prática, ajudar a compreender como chegamos à situação atual.
Tradução: Naila Freitas / Verso Tradutores
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sábado, 6 de junho de 2009
SEPARATISMO
Costumam fazer enquetes sobre um novo país, formado apenas pelos estados do Sul, com expressivos índices de aprovação. Algumas pesquisas incluem São Paulo e só mesmo o desconhecimento mútuo poderia juntar paulistas e a indiada da fronteira. Parece que a idéia do separatismo ganha força à medida que cresce a decepção com essa coisa que nos cobra tanto imposto e que só serve para alimentar corruptos, defender direitos humanos de bandidos, encher os bolsos dos vagabundos com as esmolas do governo, liberar assassinos confessos, entre outros expedientes, como o índice pluviométrico de crimes.
Eu também vou aderir a idéia do separatismo. Acho bom que São Paulo seja incorporado às margens do rio Uruguai. Ou que a araucária seja o símbolo da região do Ibicuí. Seria maravilhoso que o chapéu de caubói do interior paulista fosse adotado em Itaqui, ou que as esporas fossem usadas no Bexiga. Teríamos um país de Primeiro Mundo, mas não seria o ideal. Sugiro algumas pequenas mudanças na idéia original, sem querer desfazer as bases dessa genial solução para todos os nossos problemas.
Esquecem de incluir Minas e seria de muito bom tom convidar não o Aecinho, mas Milton Nascimento. Seríamos compatriotas do Clube da Esquina, já pensou? Haveria problema em comer carne de búfalo xucro dos sertões mineiros, mas meus olhos faíscam só em pensar numa potência, com Minas sendo o famoso “plus a mais”, invenção suprema da linguística tautológica. Mas assim mesmo o separatismo, que não daria bola para esses botocudos horrendos que habitam as outras regiões, não seria assim de última geração se não comportasse ou convidasse o Rio de Janeiro.
Ah, o Rio do Tom, do Chico, do Cartola, do Vinícius. Bom lugar para uma capital, não é mesmo? Assim teríamos a bossa unida a Carlos Drummond de Andrade, as garotas de Ipanema tomando mate, o Pão de Açúcar sendo símbolo de uma nação que não se restringiria ao Itaimbezinho ou à praia da Joaquina. O Rio traria o charme necessário, mas a emenda não ficaria completa se não fosse incluído o Espírito Santo, que é o mar de Minas e praticamente uma continuação do Rio. E para não perder a pose e incrementar ainda mais o separatismo de Primeiríssimo Mundo, anexaríamos a Bahia, com Salvador e tudo.
Já pensou? Combinar Jayme Caetano Braun e Caetano Veloso? O Recôncavo e a região dos Lagos? Pelotas e Feira de Santana? O mundo se deslumbraria com esse lugar maravilhoso que criaríamos com nosso furor separatista. E para assombrar mais ainda os gringos, teríamos a manha de incluir no projeto o Nordeste inteiro, pois é de lá que vem as olindas, os mamulengos, os arrecifes, a Paraíba , o Luiz Gonzaga e toda aquela riqueza infinitamente fantástica que faria a glória de um novo membro das Nações Unidas.
E já que tem muita gente de olho na mata, anexaríamos a Amazônia, com Amapá, Roraima, Manaus, Ver-o-Peso e tudo o mais. E sendo assim, ainda, de quebra, colocaríamos no novo mapa os dois Mato Grosso, mais Goiás e Tocantins. Pronto. Estaria assim feito o carreto. Uma nação orgulhosa, à parte, que começaria tudo de novo e teria em praça pública seus grandes heróis, como o Andrada da Independência, que não deixou os ingleses comprarem a ilha de Santa Catarina, mais Caxias, Osório, Zumbi, princesa Isabel, Dom Pedro II e todos os cidadadãos que deram seu sangue para nos separar de franceses, holandeses, castelhanos, portugueses.
Proponho que batizem o novo território de Brasil. Soa bem. E quando a gente ouvir o hino que escolhermos para ele, não só levaríamos a mão no peito e cantaríamos a letra inteirinha, do Virandô ao Berço Esplêndido. Mas também choraríamos de emoção, pela honra de pertencer a um legado de tanta luta e tanta grandeza. E quando alguém quisesse vir com idéia de desmembrar o novo território, que chamaríamos de Pátria Amada, não teríamos dúvidas. Pegaríamos em armas.
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Segundo semestre cruento
Tal como no PT, há na oposição duas facções principais em divergência: a dos carnívoros e a dos vegetarianos. A primeira, que tem no líder tucano no Senado Arthur Virgílio seu expoente, quer ir às últimas conseqüências. A vegetariana, simbolizada no governador de São Paulo, José Serra, não aprova a estratégia.
Quer um confronto civilizado, não cruento. Está em pleno vigor um pacto de não-agressão entre ele e a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Roussef, pré-candidata do governo à sucessão presidencial. O pacto foi selado quando da compra da Nossa Caixa pelo Banco do Brasil, ano passado, que irrigou os cofres do tesouro estadual e garantiu recursos para os dois anos finais da gestão Serra.
Desde então, satisfeito com o colchão de R$ 45 bilhões em seu orçamento, Serra jamais investiu duramente contra o governo federal. Sempre que se encontram em público, ele, Dilma e Lula trocam amabilidades. Sabem que há uma guerra eleitoral aguardando-os, em trincheiras opostas, mas a exercitam, enquanto podem, em punhos de renda. Em meio aos dilemas da oposição, o governo age e reage.
Empenha-se em blindar as CPIs, sobretudo a da Petrobrás, que expõe Dilma Roussef. Afinal, ela esteve no comando daquela estatal no primeiro mandato de Lula, quando foi titular do Ministério das Minas e Energia e presidiu o Conselho de Administração da empresa.
Lula, por enquanto, não está pessoalmente em pauta. Não é o objeto de nenhuma das CPIs. Mas conhece o poder predador de cada uma delas e as balas perdidas (e sobretudo as achadas) que inevitavelmente disparam. Já manejou o estilingue por muitos anos e, agora que é vidraça, trata de investir na redução de danos.
As CPIs funcionam muito mais de fora para dentro. Facções contrariadas das empresas ou instituições sob investigação alimentam a mídia, fortalecida agora pela internet, com dossiês, documentos e denúncias, criando fatos que a CPI não pode ignorar. Fica a reboque deles, sendo impossível não agir. Daí seu teor imponderável, que apavora os governos, qualquer governo.
Acresce a tudo isso, no caso presente, que pelo menos duas delas, a da Petrobrás e a do Dnit, que ainda não estrearam, podem chegar ao ano que vem. O governo manobra para adiar a instalação da CPI da Petrobrás, mas o tiro pode lhe sair pela culatra.
A CPI tem 180 dias de vigência, prorrogáveis por mais 180 dias, descontados os do recesso. Há, portanto, a hipótese de que venham a desembocar no início oficial (porque informalmente já começou) da campanha eleitoral.
A oposição carnívora lembra a lição que lhe deixou o Mensalão. Naquela oportunidade, decidiu poupar Lula, na expectativa de que os fatos o fizessem “sangrar” (expressão usada na época) espontaneamente em público, tirando-o do processo sucessório. Evitou investir no impeachment, receosa dos transtornos que pudesse ocasionar, mobilizando contra si os movimentos sociais.
O falecido senador Antonio Carlos Magalhães, na ocasião na linha de frente da oposição, acreditava que Lula, escaldado pelo Mensalão, perderia eleição “até para um poste”. Não perdeu. Perdeu dois de seus principais ministros – Antonio Palocci e José Dirceu -, viu seu partido perder a aura de vestal, mas conseguiu se preservar, dar a volta por cima e se reeleger.
A idéia agora é não repetir o equívoco e ir às últimas conseqüências, o que não significa derrubar Lula (até porque ninguém levaria isso a sério), mas chamuscar a candidatura de Dilma Roussef e o governo como um todo. Assunto não faltará, até porque as caixas pretas de Petrobrás, Dnit e ONGs têm a reputação de abrigar segredos que, conforme dizia Nélson Rodrigues, não se confessam nem a um médium depois de morto.
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Vargas
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Pré-sal ou pré-escola?
O açúcar gerou riqueza, mas não emancipou o povo do Nordeste, nem deixou o país mais civilizado. O ouro serviu mais para embelezar Portugal e enriquecer a Inglaterra do que para desenvolver o Brasil. A industrialização fez do Brasil uma potência econômica, mas ao custo de uma sociedade campeã em violência e desigualdade.
Com o pré-sal não será diferente. Depois de gastar centenas de bilhões, aproveitando toda a reserva a um preço satisfatório do petróleo, o resultado final será igual ao dos anteriores. Terá apenas duas diferenças: o custo financeiro será muito maior, sacrificando o presente; e os impactos ecológicos muito maiores, sacrificando o futuro. Como o ouro acabou, o petróleo do pré-sal acabará. Ou será substituído, como foi a borracha.
Outra vez, prisioneiro da economia baseada em recursos naturais, o Brasil não percebe que a saída está em se transformar em produtor de conhecimento: ciência, tecnologia, cultura. O único recurso capaz de superar dificuldades, substituir obsolescências e dinamizar a economia é o conhecimento: capaz de explorar o pré-sal, e mais – de inventar substitutos para o petróleo.
E para ter ciência e tecnologia, é preciso investir na pré-escola de todas as crianças. Por isso, no longo prazo, a pré-escola é mais importante do que o pré-sal.
Lamentavelmente, essa não é visão da nossa sociedade. Um clássico da literatura de esquerda diz que o subdesenvolvimento da América Latina foi provocado pelas “veias abertas” que provocaram a sangria dos recursos naturais de nosso continente. Na verdade, o atraso decorre do abandono da educação de nossas populações e a resultante impossibilidade de construir uma forte infra-estrutura científica e tecnológica. Mais do que as “veias abertas”, foi o “abandono dos cérebros” que atrasou o continente. Se, ao longo dos séculos, o Brasil tivesse perdido seu patrimônio natural mas investido na educação de seu povo, hoje, na época da economia do conhecimento, estaríamos na linha de frente do desenvolvimento econômico.
Finalmente, diversos projetos têm surgido visando à vinculação dos royalties do petróleo com investimentos na educação. O presidente da República também de apropriou da ideia de que parte dos recursos do pré-sal seja canalizada para financiar a educação. No entanto, o risco é que, de novo, os investimentos na educação sejam adiados para um futuro distante. E quando o pré-sal começar a dar resultado, o Brasil tenha perdido mais uma geração e o pré-sal se torne outra ilusão, adiando a revolução de que o Brasil tanto precisa. Além disso, de pouco servirá investir em educação daqui a alguns anos se, até lá, não tivermos cuidado das crianças que estão em idade pré-escolar hoje.
O Brasil não pode nem precisa esperar o pré-sal para investir nas suas crianças. Não pode porque o futuro estará na economia do conhecimento, não na exportação petrolífera. Não precisa, porque já dispõe dos recursos necessários. Vincular a revolução educacional à hipotética e futura exploração da reserva do pré-sal é um suicídio nacional.
“Adotar” todas as crianças em idade pré-escolar – com tudo o que for preciso para iniciar o desenvolvimento intelectual das futuras gerações – custará, no máximo, R$15,5 bilhões por ano, o equivalente 1% do que será gasto com o PAC, o pré-sal, a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016, caso o Rio de Janeiro seja a cidade escolhida. Mas para fazer o PAC, a Copa e as Olimpíadas, ninguém propõe esperar o pré-sal.
A pré-escola é mais importante, construtiva, viável, ética, barata e sustentável do que o pré-sal. Entre pré-escola e pré-sal, três letras a mais fazem uma radical diferença no futuro do País.
Cristovam Buarque (PDT-DF) é senador
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sexta-feira, 5 de junho de 2009
Mídia Sem Máscara ENTREVISTA Guilherme Afif Domingos
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Jorge Forbes - Somos ou Estamos Corruptos?
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quinta-feira, 4 de junho de 2009
História secreta da simulação da renúncia de Sarney
Plano envolveu conversas reservadas com Lula e Dilma
José Cruz/ABr
Brasília respirou, entre terça e quarta-feira, a expectativa de uma renúncia planejada para não acontecer. Moído por uma crise que o persegue há cinco meses, José Sarney pôs em marcha uma estratégia definida por um de seus aliados como “Plano Jânio Quadros”.
Jânio, como se sabe, renunciou à presidência da República, em agosto de 1961, seis meses e 23 dias depois de ter sido empossado. Em texto manuscrito, de cunho enigmático –“forças terríveis levantam-se contra mim”—, comunicou a decisão ao Congresso e voou para São Paulo.
Esperava que o Legislativo recusasse a renúncia e que o povo fosse às ruas clamar por seu retorno. Não ocorreu nem uma coisa nem outra. O resto é história. Sarney –“um Jânio sem álcool”, na definição ouvida pelo blog— simulou a renúncia para “voltar” a um cargo que lhe foge. Sem o inconveniente de deixar a cadeira.
Para livrar sua “presidência” das aspas que a conspurcam, Sarney tramou uma ressurreição “nos braços do PT”. Deu-se o seguinte:
1. Na manhã de quarta, Sarney recebeu em sua mansão, no Lago Sul, Aloizio Mercadante e Ideli Sanvatti. Foram contar a ele um segredo de polichinelo. Na noite anterior, a bancada do PT posicionara-se a favor do seu afastamento. Licença de um mês. Sarney refugou. Licença não tiraria. Ou o PT o apoiava ou renunciaria.
2. Sem que Mercadante e Ideli suspeitassem, Sarney armava a reação desde a tarde da véspera, quando a notícia sobre a cara virada do PT lhe chegara aos ouvidos. Em segredo, conversara pelo telefone com Lula, que estava na Líbia. Queixara-se da movimentação do petismo. Ouvira de Lula críticas acerbas ao PT. O presidente chamara de amadores os senadores de seu partido. E tranquilizara Sarney.
3. Lula acionaria, desde a Líbia, a ministra Dilma Rousseff e o chefe de gabinete dele, Gilberto Carvalho. Ordenou-lhes que agissem para deter o “amadorismo” do PT. Na noite de terça, enquanto a bancada petista apreciava o pedido de licença de Sarney –7 votos a favor e 4 contra– o “alvo” reunia-se secretamente com Dilma e Carvalho, na casa da ministra.
4. Sob orientações de Lula e de olho na preservação do apoio do PMDB à sua candidatura presidencial, Dilma acalmou Sarney. Pediu que aguardasse o retorno do chefe. Tudo seria solucionado, disse. Assim, Lula e sua principal ministra já haviam vendido a Sarney o apoio do PT, que Mercadante e Ideli diziam não existir.
5. Sarney tinha razões para escorar-se no governo. O plenário fervia. Três partidos exigiram a sua licença: PSDB, PDT e até o DEM. Sem o PT, sua “presidência”, já comprometida pelas aspas, poderia virar cinzas. Na conversa com Mercadante e Ideli, testemunhada por Renan Calheiros, Sarney, na pele de “Jânio sóbrio”, como que devolveu o problema ao PT e ao governo. Parecia jogar o seu futuro numa única mão de cartas. Mas a renúncia era teatro.
6. Quatro dias antes, no início da noite de um domingo frio de Brasília, um Sarney apegado ao cargo e seu escudeiro Renan Calheiros tiveram uma primeira reunião sigilosa com com Lula. Dera-se na Granja do Torto. Lula se preparava para a viagem à Líbia. Àquela altura, a fuga do DEM tinha a forma de uma ameaça, pendurada nas manchetes pelo líder José Agripino Maia. Sarney e Renan pareciam descrer. Pelo sim, pelo não, decidiram testar os limites do apoio de Lula. Não havia limites. O presidente prometeu-lhes apoio irrestrito.
8. Tampouco o PSDB, parceiro de oposição do DEM, levava a sério os arroubos de Agripino. “Não vão chegar a tanto”, dizia, na segunda-feira, o presidente tucano Sérgio Guerra ao dissidente peemedebista Jarbas Vasconcelos. Estavam no aeroporto de Cumbica, em São Paulo. Retornavam de uma viagem a Estocolmo. Àquela altura, Agripino já havia costurado o rompimento.
9. O líder ‘demo’ entendera-se com os “formadores de opinião” de sua bancada. Até o sereno Marco Maciel apoiara a tese do afastamento de Sarney. A decisão do DEM foi vendida ao público como “consensual”. Meia-verdade. De 14 senadores, três saíram da reunião como votos vencidos: Eliseu Resende (MG), ACM Jr. (BA) e Heráclito Fortes (PI).
10. Primeiro-secretário da Mesa presidida por Sarney, Heráclito ponderou que o rompimento poderia empurrar Sarney para a reunúncia. Pintou um cenário de caos. Agripino atalhou a argumentação com uma idéia que sabia inviável: “Por que não uma candidatura própria, de Marco Maciel? Ficava claro que, além de romper com Sarney, o DEM já esboçava a sucessão. Agripino prevaleceu.
12. Apresentado à tese da constituição do grupo de senadores insignes, Sarney simulou interesse. Disse que iria pensar. Os tucanos disseram-lhe que nem precisaria se licenciar do cargo. Bastaria um afastamento informal. Não queriam ver Sarney pelas costas. De quebra, sondaram-no sobre a disposição de instalar a CPI da Petrobras. “Parece que nem a oposição está interessada”, provocou Sarney.
13. O tucanato estava, sim, interessado. Sarney e Renan trataram de levar esse interesse ao caldeirão da crise como mais uma ameaça ao governo. Em seus diálogos, deixaram antever que, ao menor sinal de abandono, o PMDB ajudaria a abrir a CPI.
14. Lula manteve a mão estendida. Mal posou na base aérea de Brasília, na noite de quarta, discou para Sarney. Antes, telefonara para Ideli Salvatti, que lhe relatara um encontro ameno de Sarney com dez dos 12 senadores do PT. Só Marina Silva e Eduardo Suplicy ousaram repisar a tese da licença diante de Sarney. A bancada parecia ceder à pressão. Lula sentiu o pulso de Sarney e agendou uma conversa com ele. Seria na quinta. Foi transferida para sexta. O presidente quis, primeiro, avistar-se com o PT.
15. Lula testemunhou ao vivo o “amadorismo” que pressentira à distância. Cinco senadores petistas defenderam a licença de Sarney. Em resposta, reduziu a crise do Senado a uma “guerra política”. Lembrou 2010 e apelou à governabilidade. Encurralado, o PT reunirá sua bancada, de novo, na próxima terça. De antemão, Lula disse a Sarney, nesta sexta, que entregará a mercadoria que prometera. Se conseguir, José ‘Quadros’ Sarney ganhará sobrevida para continuar conduzindo o Senado. Não se sabe para onde.
Josias de Souza
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Marcadores: Política Nacional, Senado
quarta-feira, 3 de junho de 2009
Datafolha apura alta de Dilma e tamanho do 'Lula 3'
São duas as principais novidades. A primeira: a petista Dilma Rousseff encurtou a distância que a separa do tucano José Serra.
No principal cenário, Dilma subiu cinco pontos desde março. Amealha agora 16% das intenções de voto. Está tecnicamente empatada com Ciro Gomes (PSB), com 15%.
Serra caiu três pontos percentuais. Desceu para 38%. E a dianteira que o separava de Dilma declinou oito casas –de 30 para 22 pontos percentuais.
Detalhe relevante: entre os que disseram ter tomado conhecimento da doença de Dilma (65%), a maioria (81%) aprovou o modo como foi divulgada a notícia.
Detalhe relevantíssimo: uma legião de eleitores (45%) acha que é muito importante na hora de decidir o voto o fato de o candidato não ter problemas de saúde.
Eis a segunda novidade: a emenda constitucional que permitiria a Lula concorrer a um terceiro mandato divide o país praticamente ao meio.
De acordo com o Datafolha, a proposta é apoiada por 47% dos brasileiros. Outos 49% a rejeitam.
Significa dizer que a simpatia pela macumba que leva ao “Lula 3” aumentou. Em novembro de 2007, a rejeição à tese da re-reeleição era bem maior: 63%.
Naquela época, apenas 37% dos entrevistados avalizavam a mandracaria. Uma encrenca que, por sorte, tem poucas chances de se materializar.
Primeiro por falta de tempo. Teria de ser aprovada no Congresso até setembro. Segundo por desinteresse. Lula jura que não quer. Mais: desautorizou a manobra.
Seria um contra-senso que o presidente abraçasse o imponderável no instante em que sua candidata, com doença e tudo, atinge o seu patamar mais vistoso.
De resto, o Datafolha também apurou que a aprovação ao governo Lula roça o patamar que ostentava em novembro do ano passado.
Naquele mês, a gestão Lula era considerada ótima ou boa por 70% dos brasileiros com mais de 16 anos. Em março, declinara para 65%. Agora volta às nuvens: 69%.
Mantido esse cenário, ainda que o destino conspire contra a saúde de Dilma, Lula dispõe de prestígio e tempo suficientes para levar à proveta um outro candidato.
Não precisa empurrar para dentro de sua biografia a galinha preta de um terceiro mandato incerto.
Escrito por Josias de Souza
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terça-feira, 2 de junho de 2009
VOVÔ ROUBOU MINHA HERANÇA
por Ralph J. Hofmann
Meu amigo Jayme Copstein escreve uma crônica da qual respeitosamente pinço os seguintes parágrafos:
“E foi assim, com os oficiantes falando da mensagem de amor do Natal até que um deles decidiu transformar o púlpito em tribuna e explicar a origem das desgraças nacionais: o roubo do nosso ouro pelos colonizadores portugueses.
Apesar de a pregação ter muito pouco a ver com o Natal de Jesus, fiquei matutando sobre o destino do ouro “roubado” como disse o pregador. Como Portugal jamais conseguiu ser uma nação rica, quem ficou com ele? Um pouco mais de investigação haveria de revelar o nome dos receptadores.
Como sempre procuro luzes para iluminar a minha ignorância, falei a alguém ao lado das minhas preocupações em identificar os intrujões. Disse-me o vizinho que pregador estava enganado. Que fora Dom João VI, quando foi embora do Brasil que levou todo o nosso ouro. Acrescentou enfático: “Foi ele quem ensinou o nosso povo a roubar!”
Não tive muito que dizer. D. João VI deixou o Brasil em 1821 e já se vão 187 anos, tempo mais que suficiente para mudar os costumes. Mas, como a minha inteligência é tão pequena, não pude perceber a genialidade desse homem, tão perito na arte, a ponto de antecipar em mais de um século, por exemplo, a invenção da cueca, criada com o fim exclusivo de transportar mensalões não contabilizados e depois desvirtuada para substituir os prosaicos ceroulões daquela época.”
Nem D. João VI dava sinais externos de riqueza excepcional ao chegar de volta a Portugal, nem as próximas geração da coroa portuguesa demonstraram acesso a tais riquezas e nesta altura já não se minerava grandes fortunas no Brasil.
Mas Portugal foi um dos principais clientes das indústrias de porcelana, tapeçaria e tecidos luxuosos estabelecidos na França por Henrique IV, e fortalecidos por seu neto Luiz XIV assessorado pelo Cardeal Richelieu e Mazarin ao tempo de Luiz XV. A França não minerava, mas recolhia ouro, poderio militar e grandeza.
Tirem-se as conclusões. O rombo foi muito antes de 1808 a 1820.
Mas também vamos discutir o assunto por outro prisma.
À época o Brasil era um domínio de Portugal. Portugal era uma monarquia. O chefe de estado era o Rei. Donde levar o ouro para Portugal era lícito pelas leis da época. Não pagar os impostos seria a ilicitude. Não tivesse falhado a inconfidência mineira a história seria outra. Podia ser injusto. Poderia ser uma justificativa para alijar o opressor. Mas não alijaram. Preferiram acertar-se. Compor-se com a coroa. Trair a conjura dos companheiros mineiros. Aceitar a carga de impostos por uma percentagem menor não revelando o quanto haviam realmente escondido dos cobradores ao longo de uma década.
Mas isto não nos lembra algo mais atual? A carga de impostos chega aos 40%. O governo “made in Brazil” cobra como e fossemos um povo conquistado. “Vae victi”, é o que nos diz quando reclamamos,” ai dos vencidos”. E o povo o que faz? Aplaude. Ou pelo menos, segundo consta, 73% aplaudem. O poeta e autor alemão Erich Kaestner uma vez disse numa conferência. “É triste sorver da cáca em que estás nadando.” Os 73% de aprovação são literalmente um sinal de que a cáca está sendo apreciada por muitos. Ou será outro conto do vigário. Jeitinho, que nem Tiradentes pagar pelos muitos. Os muitos recebendo um tapinha nas mão e simplesmente passando a recolher os impostos em bases correntes.
Cada período da história precisa ser julgado à luz dos costumes da época em que ocorreram. No tempo da derrama não se contestava o direito do rei taxar aos mineradores. Afinal, eram concessões da coroa. Alegava-se o valor da importância ser demasiado se os atrasados fossem cobrados. Isto quebraria a indústria do ouro.
E cá para nós, o ouro não construía um Portugal maior e mais eficaz. Construía um Portugal perdulário em que o rei mantinha seus nobres satisfeitos e gordos com sinecuras bem pagas pelas colônias (não só do Brasil mas de Timor e Damão, Macau e Coromandel, Angola e Moçambique. As fábricas de Porcelana em Sèvres festejavam, as tecelagens de Lyon também. Os ingleses entraram na corrida muito mais tarde. Par o momento satisfaziam-se com o saque, particularmente quando Portugal passou a ser propriedade do dei da Espanha. Idéia!!! Terão os espanhóis também se remunerado com ouro Brasileiro?
Mas a realidade é uma só. Um grupo de bárbaros ocupou o Brasil. Ainda está exaurindo o ouro do povo. Cobra impostos sobre impostos sobre impostos. Aplica em compra de simpatizantes uma pequena parte. A maior parte embolsa remunerando-se pela extenuante tarefa de saquear-nos, tarefa que herdou dos governantes brasileiros do tempo do Reino Unido de Portugal e Algarves, digamos que o avô do atual regime.
Enquanto isto Robin Hood dorme seu sono final em sua cova à sombra dos salgueiros da floresta de Sherwood. Não vai atacar os cobradores de impostos e resgatar o Rei Ricardo Coração de Leão, que poderia trazer paz e felicidade ao reino.
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segunda-feira, 1 de junho de 2009
O ESTILO: ENTRE SER GOVERNO COM POPULARIDADE E SER GOVERNO POPULAR
Desde o início da gestão Lula, vários cientistas sociais travaram um debate acadêmico a respeito do seu estilo de governar. A despeito das inconfessas divergências de natureza partidária, uma das polêmicas iniciais foi a característica carismática explorada por Lula desde a campanha eleitoral. Esta foi a proposta do sociólogo José de Souza Martins. Em entrevista concedida ao jornal Folha de S. Paulo, em novembro de 2002, Martins analisou o discurso de Lula como sedutor, porque a aparência do líder carismático é de alguém igual a todos, mas que carrega um dever social. É igual e diferente, ao mesmo tempo. E é diferente porque foi escolhido, quase um sacrifício. Sugeriu que Lula possui tal característica carismática, construída historicamente pela Igreja Católica progressista. Inicialmente, elaborada por padres progressistas do ABC paulista, mas que se espraiou pelo país através das Comunidades Eclesiais de Base.
A proposição analítica de José de Souza Martins parece promissora, mas revela-se insuficiente para a dinâmica e composição efetiva da gestão Lula. Na verdade, confunde criatura com criação. Lula possui traços carismáticos desenvolvidos desde sua época de líder sindical. Este perfil foi trabalhado nos anos 80. É possível recuperar fotos de assembléias de metalúrgicos no estádio da Vila Euclides em que faixas imensas eram ladeadas pela figura de Jesus Cristo e o perfil de Lula. Nunca houve ingenuidade em relação à produção simbólica da liderança de Lula. Contudo, o governo Lula (e, conseqüentemente, o lulismo) não se resume a este estilo pessoal. A composição básica do governo Lula atualiza alguns elementos centrais do ideário da esquerda latino-americana (que, aliás, lança mão, de tempos em tempos, do discurso carismático). O profissionalismo e o etapismo político (que define a política de alianças táticas e estratégicas, para utilizar o jargão histórico das correntes marxistas) constituem a pauta que orientou a ação do PCB, em especial, ao longo de seus primeiros cinqüenta anos de existência. Também compõe este ideário o projeto desenvolvimentista-progressista. No caso do lulismo, o projeto desenvolvimentista se subordinou á lógica de alianças, ao projeto etapista, embora mantenha a articulação pluriclassista que geraria a governabilidade necessária para que o Estado promova as reformas historicamente necessárias. O Estado, assim, permanece no lulismo como protagonista da ação pública. Como se percebe, ocorre uma ruptura significativa com o ideário original do PT, onde a sociedade civil organizada era protagonista das mudanças sociais e políticas.
O carisma de Lula, portanto, compõe uma estratégia racional de gestão. Não possui os elementos clássicos do messianismo, a oposição aos limites impostos pela tradição ou legalidade. Ao contrário, os traços carismáticos são empregados como mediação e não como fim. O arco de alianças é forjado a partir da capacidade de Lula em atrair e seduzir amplas massas sociais e, de outro lado, pela segurança que pode garantir aos agentes econômicos. Esta dupla face possibilita uma avaliação, por parte das forças políticas que integram o arco de alianças governistas, sobre os riscos e vantagens da composição. O carisma é um recurso utilizado à exaustão como um diferencial do lulismo, um ganho para a estabilidade do país. Não deixa de potencializar o vanguardismo de esquerda, na medida em que personaliza esta capacidade de governo ou é veladamente trabalhada como instrumento essencial para a estabilidade do país, até que a pauta reformista se complete. Assim, fica evidente que as reformas que garantirão a segurança para o mercado geram um custo social e político que outro líder não teria condições de conduzir. O apelo carismático possui este lugar e papel.
Este ingrediente especial do lulismo, fundado na oratória carismática-cristã, somado à prática organizativa clássica da esquerda e projeto econômico de caráter liberal, cria um poderoso repertório político, embora insuficiente para desenhar um programa estratégico. Aliás, justamente porque é insuficiente que o carisma é empregado à exaustão, trabalhando elementos simbólicos do futebol, em especial. Lula distancia-se mais e mais da figura paternal, localizada acima das disputas partidárias, explicitada ao longo da campanha e início de sua gestão, e incrementa a oratória carismática para se diferenciar dos adversários a partir do segundo ano de gestão. Trata-se, portanto, de um instrumento racional de condução política, ao contrário do irracionalismo da dominação carismática clássica.
Lula intui corretamente sobre este estilo pessoal. É um estilo que dialoga com a cultura política ambivalente do país, verificada em recente pesquisa dirigida pelo cientista político Guillermo O´Donnell e patrocinada pelo Programa Nações Unidas para o Desenvolvimento. A ambivalência da cultura política brasileira sugere resquícios de uma organização social de tipo estamental. Assim, o estilo pessoal de Lula compõe a engenharia política operada pelo lulismo.
O lulismo reporta-se, assim, à uma leitura específica da esquerda brasileira, caudatária da crença do papel protagonista do Estado como ator privilegiado das transformações sócias e políticas do país. Uma leitura peculiar que se relaciona com o conceito de capitalismo tardio. Em virtude do ingresso do país na divisão internacional do trabalho sem que tivesse passado por um processo de acumulação primitiva clássica, teria debilitado nosso mercado interno, a qualificação de nossa força de trabalho e criado uma elite econômica que adotaria hábitos de consumo equivocados, induzindo à má utilização da poupança e consumo irracional. O Estado assumiria o papel de demiurgo de nosso desenvolvimento e ordenamento social. Daí decorreria uma profunda desconfiança à participação efetiva da sociedade no processo decisório das políticas públicas, redundando no que Claus Offe denominou de “estatalização da sociedade”, ou controle exacerbado das ações sociais pelas agências estatais.
Os traços de nossa cultura política ambivalente reforçariam ainda mais a crença no protagonismo do Estado. O lulismo dá continuidade à esta leitura tradicional da esquerda brasileira e rompe com o que havia de mais inovador no petismo. Neste sentido, reaproxima a prática das esquerdas às práticas das elites políticas do país. Assume, assim, contornos conservadores em relação à prática política. E torna-se refém da busca permanente de popularidade, justamente porque os canais de contato direto do governo com a base social do país são obstruídos pela gestão altamente centralizada. O ciclo vicioso se completa e explica esta convergência peculiar entre discurso carismático, pragmatismo sindical e vanguardismo esquerdista.
O lulismo revela-se uma importante novidade sociológica e política para o Brasil. E é ainda uma novidade mais significativa para a trajetória do Partido dos Trabalhadores e a construção de um ideário democrático-popular em nosso país.
O lulismo, como prática de esquerda, é uma volta para o futuro.
Postado por Atílio às 11:40 PM 0 Comente Aqui!
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Enquete da Folha Online
Você apoiaria um plebiscito sobre a possibilidade de nova reeleição para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva?
29% 10.649 votos Sim
71% 25.873 votos Não
Total: 36.522 votos
Postado por Atílio às 12:12 PM 0 Comente Aqui!
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