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sábado, 3 de julho de 2010

Igreja desembarca do PT

Na origem do PT, no início da década dos 80 do século passado, há a convergência inédita de três segmentos da sociedade: sindicalistas da indústria automobilística, esquerda acadêmica e comunidades eclesiais de base, representando a ala progressista da Igreja Católica.

A articulação entre eles permitiu que o partido, mais que qualquer outro, antes ou depois, se enraizasse na sociedade, expandisse seus tentáculos e produzisse uma militância ativa e disciplinada, que nenhum outro até hoje logrou constituir.

O projeto de cada um desses segmentos era – e é – distinto. A uni-los, havia a luta comum contra a ditadura. Associaram-se à frente democrática, então comandada pelo PMDB de Ulysses Guimarães e Tancredo Neves, sem se permitir grande proximidade.

Derrubada a ditadura, mantiveram distância dos sucessivos governos, tornando-os alvo de críticas sistemáticas.

Passou a uni-los a questão social, cada qual focando-a a seu modo, sem conflitos que ameaçassem a convergência. Os sindicalistas tinham – e têm – visão utilitária, pragmática. Lutam por conquistas trabalhistas concretas, nos termos do sindicalismo de resultados, inicialmente criticado por Lula – e hoje marca das três centrais que dominam o setor.

Já a esquerda acadêmica e o clero progressista conferem tom ideológico à questão social, que compatibilizaram sem dificuldades com o discurso sindical. Lula mesmo já disse mais de uma vez que “nunca fui de esquerda; fui torneiro-mecânico”. Mas tem ciência de que a aliança de seu partido é pela esquerda.

Essa aliança manteve-se até aqui sem maiores conflitos. Eis, porém, que o 3º Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH 3) promove a primeira cisão grave – aparentemente incontornável – nesse pacto partidário. A Igreja Católica está desembarcando dele. Caminhou lado a lado com a esquerda acadêmica até que a agenda de ambos – humanismo x religião - entrou em conflito.

Enquanto os uniam causas institucionais (fim da ditadura) e questões sociais (capitalismo x socialismo), foi possível conciliá-las.
Quando, porém, a agenda da esquerda passa a incluir questões comportamentais de vanguarda, que põem em xeque a moral cristã – aborto, casamento e adoção de crianças por casais gays, proibição de símbolos religiosos em locais públicos -, o convívio chegou ao limite.

O enunciado da ruptura foi dado na 48ª Assembléia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), esta semana, em Brasília. Os bispos deixaram de lado suas diferenças ideológicas – os progressistas, que compatibilizam cristianismo e marxismo, e os ortodoxos, que consideram os dois credos incompatíveis – e desancaram em uníssono o PNDH 3.

O governo já recuou em diversos pontos da questão: suprimiu a liberação do aborto, a proibição de símbolos religiosos, mas não as cláusulas que se referem aos gays, cujas conquistas foram alvo de foram condenação veemente por parte dos bispos, que reiteraram proibição a que ingressem na Igreja.

Como coroamento desse processo, a Assembléia produziu um manifesto em que recomenda aos fiéis que votem em "pessoas comprometidas com o respeito incondicional à vida, à família, à liberdade religiosa e à dignidade humana.

Embora o manifesto não faça menção explícita ao PNDH 3, o cardeal-arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer cuidou de fazê-lo, ao declarar que, naquele decreto, "além da descriminalização do aborto, há outras distorções inaceitáveis, como a união, dita casamento, de pessoas do mesmo sexo, a adoção de crianças por pessoas unidas por relação homoafetiva e a proibição de símbolos religiosos”.

Será possível desfazer o impasse e conciliar as agendas? Pior: será possível dissociar Dilma Roussef do PNDH? Na quarta-feira, em Porto Alegre, ela declarou que "estive presente em cada programa do governo". De fato, o PNDH foi concebido e executado na Casa Civil da Presidência da República.

15/05/10

Ruy Fabiano é jornalista

sábado, 27 de março de 2010

O DEM na sucessão presidencial

Excluído da chapa do PSDB à corrida presidencial, o DEM vive situação de desconforto político. Tornou-se o patinho feio da oposição, aliado necessário, mas problemático.

Embora tenha afastado os seus filiados que se envolveram no mensalão de Brasília – e, nesse sentido, dado uma lição ao PT, que conservou e prestigiou os seus mensaleiros e aloprados -, o partido saiu chamuscado. E tem contra si o fato de que tudo é muito recente.

O eleitor vota com a memória dos últimos meses. O mensalão do PT ocorreu há cinco anos; o do DEM, agora. Está no noticiário, gerando a cada dia desdobramentos que o expõem.

Por mais que se tenha livrado dos infratores, vê diariamente o epíteto “mensalão do DEM” estampado nos jornais. E paga um preço alto por isso.

A primeira conseqüência é óbvia: o candidato tucano José Serra não o quer por perto. Em política, o contágio é imediato - e evitado. Diante disso, o partido cogita em partir para o tudo ou nada. E isso se materializaria com o lançamento de candidatura própria, mesmo com escassas chances de sucesso.

Está em exame entre os democratas a candidatura à Presidência da República da senadora Kátia Abreu (TO), presidente da Confederação Nacional da Agricultura e líder dos ruralistas. Ela adquiriu projeção nacional quando da extinção pelo Senado da CPMF, há três anos. Foi a relatora da proposta que baniu aquele tributo.

Antes, porém, já se destacava na luta contra as invasões de terra pelo MST. Ganhou destaque com a eleição para a presidência da CNA e, mais recentemente, com a instalação da CPI mista que investiga as atividades e fontes de financiamento ao MST.

É, pois, a única liderança conservadora de projeção no Congresso. Sua candidatura, além de estabelecer um contraponto às demais – que, sem exceção, se apresentam como de esquerda -, propiciaria ao DEM a chance de se defender dos ataques recentes e colocar em exame a agenda conservadora.

Desde o fim da ditadura militar, o receio de ser rotulado como direita fez com que muitos políticos que não avalizam a agenda da esquerda silenciassem. Ou fingissem apoiá-la.

O Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH 3), por exemplo, lançado em dezembro do ano passado, provocou grande reação na sociedade, por mexer em questões tidas como pétreas.

Proíbe o uso de símbolos religiosos em locais públicos, libera o aborto, retira do Judiciário o monopólio de decidir sobre invasões de terra, estabelece censura oblíqua à imprensa, reabre a lei de anistia e prevê critérios do Estado para financiamento de obras culturais, entre outras coisas. Foi criticado e impôs recuos ao governo, mas não por razões ideológicas, mas de disputa de poder.

Essa é a agenda dos chamados movimentos sociais e de ONGs que gravitam em torno deles. Têm hoje presença maciça no governo e nos partidos de esquerda.

Uma eventual eleição de Serra, por exemplo, não baniria esses temas da agenda, nem seus agentes. Poderia impor uma redução de intensidade na ação desses grupos.

Kátia Abreu seria o outro lado dessa moeda, abrindo o debate ao outro pólo, que até aqui só se manifesta – e se impõe – quando a discussão é econômica.

O país, há anos, convive com o paradoxo de sustentar uma economia conservadora ao lado de um discurso político progressista. Essa ambigüidade tem, no plano de governo de Dilma Roussef, calcado no PNDH 3, o primeiro sinal de abalo.

Não se conhece ainda o plano de governo de José Serra, nem o de Ciro Gomes ou Marina Silva, que falam com muita cautela de questões econômicas, evitando falar em mudanças e optando pela evasiva de “melhorar o que está aí”.

Não há dúvida de que uma candidatura conservadora do DEM, mesmo sem chances aparentes, dará outra dinâmica ao debate sucessório, conferindo-lhe efetivo conteúdo ideológico.



Ruy Fabiano é jornalista

domingo, 17 de janeiro de 2010

A Constituinte do PT

A tragédia do Haiti, que mobilizou o governo brasileiro, pôs momentaneamente em segundo plano os conflitos gerados pelo Programa Nacional de Direitos Humanos.
Mas o tema promete desdobramentos, sobretudo quando recomeçarem as atividades legislativas, no próximo mês.
A oposição no Senado, por meio do líder Arthur Virgílio (PSDB-AM), já avisou que convocará os ministros envolvidos na questão, entre os quais, Tarso Genro (Justiça), Nélson Jobim (Defesa) e Paulo Vanucchi (Direitos Humanos).
Pela abrangência do tema, que trata de questões tão diversas quanto aborto e invasões de terra, passando por revisão da Lei de Anistia e patrocínio de atividades culturais, promete render por bem mais tempo.
Trata-se de uma agenda política tão vasta e controversa que já está sendo chamada de constituinte do PT.
De fato, se adotada, equivaleria a impor uma nova ordem constitucional, pois mexe com prerrogativas do Judiciário, liberdade de imprensa e estabelece novos fundamentos sobre o direito de propriedade, cláusulas pétreas do ordenamento jurídico vigente.
Não se admite que os autores do Plano ignorassem a multiplicidade de forças sociais que estavam desafiando.
Nem muito menos que acreditassem possível aprovar tais propostas no Congresso, sobretudo em ano eleitoral.
Mesmo na base governista, eclética e sem qualquer unidade ideológica – e que inclui desde facções ideológicas de esquerda até católicos e evangélicos, passando por ruralistas e fisiológicos -, há resistências e perplexidade.
Não é casual que, antes de provocar protestos na sociedade e na oposição, o documento tenha gerado crise no próprio ministério.
O ministro da Defesa, Nélson Jobim, foi o primeiro a pedir demissão, coadjuvado pelos comandantes militares.
Na sequência, fez-lhe coro o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, político conservador, egresso do próprio regime militar. Lula teve que recuar.
Mas recuou pouco, restringindo-se à questão militar. Há outras, não menos preocupantes. Maquiavel ensina que não se deve desafiar mais de um inimigo por vez.
O governo desafiou vários ao mesmo tempo. E só gente graúda: Forças Armadas, Igreja Católica, imprensa, ruralistas, Judiciário, entre outros. Por que?
Se os autores do Programa não ignoravam o seu teor altamente controverso e a magnitude das forças afrontadas, por que o lançaram assim mesmo?
Eis aí uma questão a ser examinada. Em política, quando se quer aferir a viabilidade de um ou mais temas, lança-se o que se costuma chamar de balão de ensaio.
Avalia-se a recepção da idéia, numa espécie de escaramuça para medir forças com o adversário. Não é ainda a hora de enfrentá-lo, mas apenas de saber o grau de resistência ainda vigente. Possivelmente, isso inspirou o avanço e o recuo do governo.
A agenda política do PT inclui há muito a convocação de uma Constituinte como coroamento e consolidação de sua presença no poder.
Lula já a mencionou em pelo menos duas oportunidades. Na primeira, em agosto de 2006, a juristas ligados à OAB, recebidos em audiência, a convite do presidente, para tratar de reformulação das regras das CPIs.
Disse então que somente uma Constituinte exclusiva poderia promover uma reforma política em profundidade.
Após a audiência, a assessoria do Planalto informou que os juristas é que haviam feito a sugestão ao presidente, o que foi desmentido categoricamente pela OAB, que já havia recusado a idéia no plenário de seu Conselho Federal.
Mais recentemente, em função do Mensalão do governo de Brasília, Lula voltou ao tema, dizendo que só uma Constituinte acabaria com a corrupção na política.
Se o enunciado fosse verdadeiro, o Brasil, que já teve sete constituintes, seria hoje um país resolvido na matéria.
Os EUA, que só tiveram uma constituinte em seus mais de dois séculos de independência, estariam piores que nós nesse quesito – e, com todos os seus problemas, não estão.
Os temas do PNDH não terão conseqüência prática neste governo, que está em seu último ano. Devem, ao contrário, ser gradualmente esvaziados.
Mas, na eventualidade de um governo Dilma Roussef, comporão sua agenda política.
A idéia é esta: já que não se pode, por enquanto, mexer na economia, que continuará ortodoxa por tempo indefinido, mexe-se na política.

Ruy Fabiano é jornalista

domingo, 6 de dezembro de 2009

Constituinte não cura corrupção

O escândalo político de Brasília propiciou a Lula recolocar em pauta uma tese polêmica: a da convocação de uma Assembléia Nacional Constituinte.

Seria, segundo ele, o meio mais eficaz de combater a corrupção, por meio de uma reforma política profunda, tida sempre como prioritária e, no entanto, sempre protelada.

Não é a primeira vez que o presidente formula tal proposta.

Em 2006, ao receber uma comissão de juristas – entre eles, ex-presidentes da OAB, aos quais havia encomendado estudo sobre CPIs -, perguntou-lhes o que achavam da idéia. Não houve acolhida.

Mesmo assim, à saída da audiência, o Planalto informou que o tema havia sido debatido, insinuando que a iniciativa coubera aos visitantes.

No dia seguinte, os jornais mencionaram que a OAB cogitava de propor uma Constituinte, para as reformas política e tributária. Ocorre que a OAB, um ano antes, havia rechaçado essa idéia, por maioria absoluta de seu Conselho Federal.

A notícia provocou desmentido imediato e o tema saiu de cena. Voltou agora, a propósito do escândalo do governo Arruda. Constituinte, porém, só se justifica em caso de ruptura da ordem institucional, o que, obviamente, não há.

Suspeitou-se, na vez anterior, que o presidente pretendesse, com a Constituinte, obter, tal como seus aliados Hugo Chavez e Evo Morales, a reeleição ilimitada.

Fazia sentido – e por isso mesmo a comunidade jurídica a rejeitava. A nova defesa da tese, feita esta semana, quando o presidente visitava Kiev, intrigou o meio político.

O que a motivaria agora, quando já não há espaço para a reeleição?

A Constituição de 1988 prevê mudanças em seu texto por meio de emendas – e, quanto a isso, tem sido uma das constituições mais emendadas do planeta. Mas o processo de emendas é penoso – e caro.

São votações em dois turnos, em cada casa legislativa – Câmara e Senado -, por três quintos em cada qual.

Numa Constituinte, é mais simples: a votação é unicameral e por maioria absoluta. Bastaria, pois, em tese, uma base governista como a atual para escrever a nova Carta.

Não há chances no presente nem sequer de discutir a matéria, mas, num hipotético governo Dilma, quem sabe?

Lula, afinal, luta pela continuidade de sua administração, por meio da eleição de sua ministra.

Inclusive, nas solenidades públicas em que a leva consigo (e que são quase todas), é saudado pelo slogan “Dilma é Lula de novo”.

Numa Constituinte, além de questões eleitorais e partidárias, outros temas controversos, que, no processo convencional de emendas, não obtêm consenso – caso da limitação da liberdade de imprensa - poderiam ser resolvidos pela óptica governista.

Lula já disse que, para ele, jornalista não deve opinar, só noticiar.

O que se sabe é que Constituinte nunca foi antídoto para a corrupção. Se o fosse, o Brasil seria um país purificado.

Enquanto os EUA têm, desde sua fundação, uma única Constituição, aqui estamos na sétima: 1824, 1891, 1934, 1937, 1946 e 1988 – sem contar a emenda nº 1, de 1969, que, por sua abrangência, equivale a uma nova Carta.

Corrupção se combate com a politização da sociedade, que requer como premissa taxas mais expressivas de educação.

O que pretendeu, então, o presidente ao ressuscitar tese tão polêmica, a propósito de tema que não lhe é estranho? Eis aí a pulga que coloca atrás da orelha dos políticos – e da nação.



Ruy Fabiano é jornalista

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Aécio que despaulistizar o PSDB

A idéia de prévias no PSDB, para escolha do candidato do partido à sucessão presidencial, vem da eleição passada, 2006. O hoje líder do partido no Senado, Arthur Virgílio (AM), foi o seu mentor. A idéia não foi para frente naquela ocasião por ter faltado a Virgílio força política para impulsioná-la. Ele próprio pretendia disputar as prévias, rechaçadas por Geraldo Alckimin.
A adesão do governador de Minas, Aécio Neves, à tese encontra apoio natural em Arthur Virgílio, que continua a vê-la como fator de motivação partidária e, ao contrário do que se apregoa, indutor da unidade. Não é o que pensa, no entanto, o guru do senador, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. E isso o neutraliza.
O PSDB paga caro por seu sotaque paulistano. É lá que foi gerado, e é lá que estão suas figuras principais, o que faz com que freqüentemente atropele ou mesmo ignore suas lideranças mais expressivas nos demais estados. Mesmo no âmbito do interior do estado de São Paulo, há reação a essa centralização paulistana, de que é exemplo o comportamento rebelde de Geraldo Alckmin na recente eleição municipal.
Aécio reproduz agora a reação que teve em 2002 o ex-governador do Ceará Tasso Jereissati, que quis também desafiar José Serra na sucessão de então, sem êxito. Tasso foi derrotado, mas contribuiu para que o partido partisse desunido para a campanha eleitoral, vencida por Lula.
Aécio sabe que tem pouca (ou nenhuma) chance contra a seção paulistana do partido. Mas pretende manter esticada a corda até quando lhe for possível, de modo a impedir que os demais estados, sobretudo o seu, fiquem para trás nas decisões em torno da disputa.
Quanto mais mantiver sob tensão o partido, mais fortalecerá seu cacife político pessoal. A idéia de trocar de legenda e ingressar no PMDB, partido que vive a cortejá-lo, existe, mas, por enquanto, apenas compõe seu arsenal de ameaças. Ele teme o PMDB, por sua natural fragmentação. É um partido de caciques regionais, unido apenas pelos interesses fisiológicos de apoio ao governo federal.
Não há uma liderança nacional, como o foi no passado Ulysses Guimarães, que possibilitava alguma unidade à legenda. Aécio poderia ocupar esse lugar, mas receia que já não haja espaço para aquele papel. Desde que se viu privado de Ulysses, o PMDB investe na sua descentralização, que lhe permite fechar acordos em frentes antagônicas. Neste momento, por exemplo, parte do partido fecha com a candidatura de Dilma Roussef, enquanto outra, representada pela seção paulista, sob o comando de Orestes Quércia, fecha com José Serra. O partido quer estar presente no futuro governo, seja ele qual for. A ala que vier a ser derrotada sabe que será absorvida pela vencedora na seqüência imediata da posse.
Foi assim na primeira eleição de Lula, quando o hoje ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, apoiou José Serra. Na segunda eleição de Lula, já governista, Geddel o apoiou, enquanto outros correligionários, cumprindo a coreografia estabelecida, apoiavam Alckmin, mesmo sabendo-o com remotíssimas chances.
Aécio quer ser, no mínimo, um eleitor influente, capaz de garantir espaço expressivo no futuro governo. Se absorver José Serra desde já como fato consumado, terá que se conformar com um papel secundário. Se continuar sendo uma pedra no sapato daquela candidatura, será cortejado. Pode vir a ser o vice ou o indicar, garantindo também alguns ministérios importantes. Pode mudar de partido e vir a ser o candidato. Pode também estabelecer uma dissidência, que o leve a negociar votos com a candidata do PT.
Tudo dependerá dos desdobramentos. Serra, de sua parte, mantém distanciamento da briga para a qual está sendo chamado. Já admitiu as prévias, apenas para esvaziá-las. Há intermediários em cena, empenhados em inviabilizá-las. O bombeiro-chefe da operação é Fernando Henrique Cardoso, amigo de Aécio e defensor da candidatura de Serra. FHC, no entanto, não foi bem-sucedido na operação similar que pretendia, na eleição municipal do ano passado, tirar Alckmin de cena.
Até aqui, não obteve resultados melhores. Ao contrário, já recebeu de Aécio reprimendas por estar insistindo na paulistização do processo sucessório dentro do PSDB. O grande aliado tucano de Aécio não lhe tem sido de valia. É Tasso Jereissati, que, por representar o PSDB pobre – o do Ceará -, pode apenas integrar o coro dos ressentidos dentro do partido.
Mesmo sem chances, Aécio insistirá. Já agendou viagens por todo o país, em busca de apoio junto às seções regionais do PSDB. Com isso, fortalece seu cacife e impõe mais humildade aos tucanos paulistanos, fazendo-os ver que a sucessão não se resolve apenas em São Paulo. Lula assiste feliz ao embate, dando, por motivos óbvios, a maior força a Aécio.
Ruy Fabiano

domingo, 4 de janeiro de 2009

A racialização da crise social

Como tema inicial de ano novo, escolhi um tema que tem sido recorrente na administração Lula: a tentativa de racialização da crise social brasileira, por meio de políticas públicas específicas.

Tal iniciativa conspira contra o trunfo maior que o país dispõe para resolvê-la: o perfil mestiço da maioria de sua população. O apartheid nacional é de ordem sócio-econômica, não étnica. Ignorá-lo – ou fingir ignorá-lo – contribui apenas para agravar o quadro, desdobrando-se em múltiplos outros problemas.

É claro que há racismo no país. Onde há raças, há racismo, conforme o demonstra a história humana. Mas, além do fato de a legislação puni-lo com rigor, às vezes até excessivo, é exatamente a mestiçagem a chave para a superação dessa abjeção, pois dilui raças e estabelece outros tipos de identidade.

O Brasil, mais que qualquer outro país, tornou-se um caldeirão de culturas e etnias. É esse seu patrimônio maior. Aqui, oriente e ocidente não apenas se estabeleceram como se mesclaram (e continuam a se mesclar). E, no entanto, estão em curso políticas segregacionistas que erram o foco do problema, agravando-o. É o caso, por exemplo, do sistema de cotas para negros e índios para ingresso nas universidades.

Além da dificuldade de estabelecer, em meio a uma população mestiça, quem é o quê (há, inclusive, o caso emblemático de irmãos gêmeos classificados na Universidade de Brasília como de raças distintas), há uma clara troca de mãos. Busca-se estabelecer a inclusão social de cima para baixo.

O que impede alguém, no Brasil de hoje, de ingressar numa universidade pública é a precária formação básica – o ensino fundamental. O Estado oferece ensino superior de qualidade e ensino básico ruim. A iniciativa privada, o contrário: formação básica boa e (com honrosas exceções) superior ruim.

Tem-se então um resultado perverso: somente quem teve acesso a uma formação básica privada – em regra, caríssima – terá acesso à universidade pública. Isto é, somente os ricos. Basta conferir os pátios de estacionamento de automóveis das universidades públicas.

Em contrapartida, as universidades privadas, que cobram caro e oferecem mercadoria barata, são o recurso disponível ao estudante pobre. O sistema de cotas abre espaço para os excluídos, mas não supre as deficiências de formação básica, e acabará transferindo para o mercado de trabalho a discriminação contra seus beneficiários.

O mercado é implacável. Seleciona qualitativamente. A deficiência de formação básica deixa marcas profundas, que poucos superam. O bom senso indica que a inclusão social precisa se dar no ensino fundamental público, imprimindo-lhe qualidade. Não há atalho possível.

O sistema de cotas faz supor que a pobreza é monopólio dessa ou daquela raça, quando, entre nós, é de todas. Investir no ensino fundamental público atende a todos, gregos e goianos.

A mesma visão racialista (para não dizer racista) da crise social brasileira responde em parte pelos conflitos recorrentes em reservas indígenas, como a recente, em Raposa do Sol, Roraima. A idéia de que os índios são entes dissociados do país, constituindo uma nação à parte, só se sustenta para efeito de manipulação da realidade.

Quem conhece o Norte brasileiro sabe que a maioria da população urbana é de etnia indígena, perfeitamente integrada às mazelas e grandezas do país. O racismo no Brasil produziu incontáveis vítimas, em mais de três séculos de escravidão. Mas produziu também o seu antídoto, que é o fenômeno social da miscigenação coletiva.

Hoje, a exclusão social não é monopólio de nenhuma raça: é de todas. E é com essa universalidade que deve ser tratada. Ou não será resolvida. Eis uma boa reflexão de ano novo.
Ruy Fabiano

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

A impotência dos adjetivos

Em 1970, diante de mais uma esmagadora vitória eleitoral da Arena (o partido da ditadura militar), lideranças do MDB propuseram uma solução trágica e radical: a auto-extinção do partido.

A economia nadava de braçada, com crescimento de 11% do PIB, o Brasil havia sido tricampeão do mundo e a figura do general-presidente Emílio Médici, no Maracanã, com o radinho de pilha ao ouvido, em plena linha-dura do regime, com prisões políticas e tortura de presos, popularizara enormemente o governo.

As denúncias de excessos policiais feitas pela oposição não repercutiram nas urnas. Prevaleceu o boom da economia. O bolso. Daí a desolação oposicionista. Não se diga que lá estavam políticos ingênuos ou despreparados. Militavam no MDB lideranças experientes como Amaral Peixoto, Tancredo Neves, Oscar Pedroso Horta, Franco Montoro, entre outros. Coube a Ulysses Guimarães a palavra em contrário: era preciso reagir e insistir - o que o transformou, na seqüência, em liderança máxima da oposição brasileira.

Na eleição seguinte, em 1974, o jogo virava: o MDB elegia 16 das 22 cadeiras em disputa no Senado, um número inesperado de deputados federais e estaduais e mostrava-se no caminho para deter o controle do Congresso. Essa súbita reviravolta iria desembocar na criação da figura do senador biônico (um por estado), com a edição do pacote de abril, de 1977. Era a reação desesperada do regime.

O estratagema garantiu mais um mandato presidencial indireto para o regime, na sucessão de 1978, que colocou um general, João Figueiredo, na Presidência da República por mais seis anos.

Nas eleições de 1986, o governo Sarney, em meio à efusão popular pelo êxito do Plano Cruzado, elegia todos os governadores estaduais – o PFL um e o PMDB os demais, além de sólida maioria no Senado, Câmara dos Deputados e assembléias legislativas, fato sem precedentes na história republicana.

Um ano depois, o Plano Cruzado (e com ele a economia) fazia água, levando a numerosos protestos de rua e greves em profusão. Assim é a política, é como nuvem, já advertia Magalhães Pinto: uma hora está de um jeito, outra hora de outro.

O preâmbulo vem a propósito da recente constatação de que os índices de popularidade do presidente Lula chegaram a níveis estratosféricos não obstante a multiplicidade de denúncias que o cercaram e a seu governo. A oposição reage de forma confusa.

Uns, como o candidato a prefeito de São Paulo, Geraldo Alkimin, passam a elogiar o presidente e a dizer que o problema é o PT. Outros atribuem a alta ao fator sorte. O governo seria mero beneficiário dos ventos favoráveis da economia mundial, e só os estaria aproveitando porque o anterior, com o Plano Real, firmou as bases da estrutura econômica do país.

São raciocínios irreais, inúteis; portanto, burros. A popularidade de um governo, antes de mais nada, não expressa condição definitiva, nem muito menos prova que não comete erros. Quanto mais forte e popular um governo, maior a missão da oposição. Maior a necessidade de fiscalizá-lo, para o bem dele próprio, governo.

Cabe à oposição impedir que sucumba à soberba, que nessas ocasiões age como adversária, cegando-o. O êxito popular, da mesma forma, não revoga desacertos e equívocos, a menos, claro, que a oposição renuncie à sua missão de mostrá-los. O êxito de Lula não decorre de um único fator, mas de uma conjunção deles.

Há efetivamente a sorte, mas sem ela, já ensinava Nélson Rodrigues, não se pode nem chupar um chicabom. A sorte, porém, não faz tudo sozinha. É apenas um dos fatores. Lula tem sabido explorar com eficiência seu carisma e os bons ventos da economia internacional, ocupando solidamente a mídia (ao mesmo tempo em que a acusa espertamente de adversária).

Conta com a despolitização e a fraca memória do eleitorado, fortalecidas pela impotência da oposição. O erro oposicionista está na falta de projeto alternativo para o país. Achou que bastava denunciar, acusar, criticar, e a indignação resultante faria o resto. Como dizia Machado de Assis, investe nos adjetivos, esquece dos substantivos.

Não dá certo. Os danos morais que o governo Lula se impôs na lambança do mensalão carecem de acusadores isentos. Os que estão hoje na oposição já foram governo e lambuzaram-se também no poder. O público não os distingue como promotores qualificados. E aí reage de maneira pragmática: como ninguém na política presta, mantenham-se os atuais, pois em time que ganha não se mexe.

A saída é formular propostas efetivamente alternativas para o país, que mostrem caminho mais adequado para ser trilhado. É hora de substantivos – não de adjetivos. Essa a lição de sintaxe que as pesquisas exibem. Convém aproveitá-la.


Ruy Fabiano é jornalista